Xerostomia

Sem água na boca

00:14 · 10.09.2013

Mudança no hábito alimentar, ajuste na medicação e uso de saliva artificial podem amenizar o sintoma

Há substâncias no organismo que são tão naturais que sua importância só é realmente percebida quando se torna ausente ou insuficiente. É o que ocorre com a saliva.

Já pensou que o que chamamos de "água na boca" tem funções que vão muito além da própria cavidade bucal? Pois bem, a saliva auxilia na digestão dos alimentos, na limpeza da boca e no controle da população de bactérias. Por esses fatores, sua falta pode gerar o que chamamos de Síndrome da Boca Seca ou xerostomia.

Salivação

Renata (nome fictício), 52, há oito anos descobriu que sofre da enfermidade. Ela conta que, por muito tempo, ignorou o problema, mas seus efeitos originaram a halitose, fator que a fez buscar ajuda. "Fui consultada por vários médicos de Fortaleza e São Paulo, onde recebi orientações. Fiz acupuntura e tratamento a laser nas glândulas salivares, mas nada adiantou. Tenho uma glândula ´preguiçosa´, que não reage aos estímulos".

Para Renata, a solução foi a restrição alimentar, a exemplo da canela e de alimentos com enxofre (como cebola, ovo, entre outros). Já os cítricos, tornaram-se boas opções para estimular a produção de saliva. Além da atenção ao que ingere, não dispensa o cuidado com a higiene bucal, usando sempre o fio dental e mantendo a boca limpa constantemente logo após as refeições.

Segundo o cirurgião-dentista Artur Cerri, especialista em Estomatologia e coordenador da Escola de Aperfeiçoamento Profissional da Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas (APCD), todos nós precisamos de uma quantidade determinada de saliva na boca, por isso, sua produção é realizada por três glândulas salivares maiores e, cerca de 800 glândulas menores espalhadas por toda a cavidade. "Essas glândulas liberam, em média, um litro a um litro e meio de saliva por dia. Fisiologicamente, a salivação começa a diminuir a partir dos 30 anos, processo normal provocado pela degeneração das glândulas salivares. Já aos 60 anos, o organismo tem metade da saliva de um jovem".

Os sintomas mais comuns para identificar a xerostomia inclui a sensação pegajosa na língua; mau hálito; língua áspera; sensação ruim na garganta; sede frequente; fissuras nos lábios; ardência lingual; dificuldade ao falar; rouquidão, secura nas vias nasais e dor de garganta.

Causas

O distúrbio pode ser decorrente a fatores fisiológicos (sem causa determinada); doenças sistêmicas; ou medicamentos usados para hipertensão arterial, depressão, calmantes, dor, inflamação e outros. "Nos casos em que a boca seca é sistêmica, geralmente, outros órgãos estão envolvidos, fazendo da síndrome um dos efeitos colaterais de doenças como diabetes, anemia, Síndrome de Sjogren e Mal de Parkinson". O fumo também pode desencadear a xerostomia. Isso ocorre porque a secura das mucosas é estimulada em função da temperatura do cigarro e os fumantes costumam respirar muito tempo pela boca.

Danos

A doença pode trazer dificuldade na deglutição e redução da resistência bucal. "Quando não diagnosticada e tratada, essa condição pode resultar, inclusive, na perda dos dentes, por meio do comprometimento gengival", diz Artur Cerri.

No entanto, os problemas não se limitam apenas à cavidade bucal, podem atingir o sistema imunológico e causar doenças cardiovasculares. Como a doença atinge mais os idosos (devido à perda natural de saliva e a maior exposição às causas pelo uso contínuo de medicamentos), geralmente eles passam a se alimentar menos, reduzindo a ingestão de alimentos sólidos e, consequentemente, enfraquecendo o organismo.

A falta de saliva aumenta a proliferação de bactérias e as chances de infecções. Embora a cura não seja possível, uma vez que a redução de saliva é inerente ao processo de envelhecimento, a xerostomia pode ser controlada. "O ideal é procurar um cirurgião-dentista nos primeiros sintomas, providenciar o controle e evitar desdobramentos que comprometam ainda mais a saúde".

Medidas

O tratamento depende da causa e pode ser desde a recomendação de parar de fumar até o ajuste em medicações, ou mudanças na alimentação. "Aos idosos, indicamos cortar o alimento em pedaços pequenos, acrescentando, por exemplo, uma boa fatia de melancia, abacaxi ou melão ao prato principal. Essa rotina controla os efeitos da boca seca durante as refeições e evita que a pessoa passe a comer menos e a ficar com a musculatura oral enfraquecida", orienta.

A saliva artificial é opção em alguns casos, disponível na forma de spray e gel. Porém, antes de adotar qualquer medida, o acompanhamento e prescrição médica são essenciais.


VICKY NÓBREGA

ESPECIAL PARA O VIDA

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