Surf como terapia

Respeito aos limites e busca por autonomia

00:00 · 16.12.2013

Não bastasse a mudança na vida das 40 senhoras, os impactos do projeto também chegaram ao instrutor Israel Rodrigues, 33 anos, também morador da Praia do Futuro. Foi nas andanças pela praia que ele conheceu o grupo e, como proprietário de uma escola de surf, a Çun Huê (Lua e Sol, em português), decidiu tornar-se o instrutor voluntário. "O que me incentivou foi observar uma ajudando a outra. Acabei me apaixonando pelo jeito e pela força de vontade delas. Desde então, estou lá toda semana", revela.

O grupo de moradoras da Praia do Futuro é avaliado quanto ao Índice de Massa Corpórea (IMC), controle de peso e frequência cardíaca. Além das mudanças no quadro clínico, a prática do surf fortalece vínculos de amizade entre as mulheres foto: bruno gomes

Aloha!

Os encontros estão marcados na memória de cada uma: toda segunda, quarta e quinta, às 16 horas, é dia de reunião na praia para praticar o surf. As aulas começam com um alongamento na areia seguido pelo aquecimento.

Alguns exercícios de resistência e de respiração também são realizados já dentro da água, e depois é hora de ´pegar ondas´, como dizem os surfistas. "Vejo como está a maré. Se está seca, vamos para a água. Se está cheia, ficamos na terra fazendo o trabalho de consciência corporal", explica.

Respeitar e superar

O trabalho é bem específico. Depende da idade e dos limites de cada aluna, mas render-se, logo de cara, ao "eu não consigo" não é uma opção. O importante é tentar. "Tem umas que até cobram quando passo algumas semanas sem levá-las para a água. É algo que mudou a rotina de vida delas. Existe o preconceito, muitas pessoas acham que são velhas, mas quando elas veem que dá para fazer passam a acreditar mais em si mesmas", diz o instrutor.

Para a vendedora autônoma Fátima Martins, 55, o esporte veio em um momento oportuno da vida. Ela começou a praticar em maio, após ter um dos seios retirados devido a um câncer de mama. "Eu tinha que participar de um grupo assim, em que fizesse fisioterapia, caminhada. E aqui eu me sinto muito bem".

A comerciante Helena Ferreira, 40, admite que o gosto pela modalidade vem desde a infância. "Quando entrei no grupo, mediram a minha pressão e viram que estava alta", lembra. O curioso é que ela tem medo de mar, fato que não a impede de fazer os exercícios indo "só até a beirinha", como justifica.

Olhar para si

A filosofia do surf diz que, para mudar algo, é necessário olhar para si antes de tudo. Na água, as jovens senhoras colocam isso em prática. Em fila, marcham para frente e para trás durante os exercícios de resistência e força. Brincam, divertem-se, sorriem o tempo todo. O surf permitiu a cada uma ver o mundo e o próprio corpo com outros olhos.

Muitas chegam se queixando de artrose, dores no joelho, na lombar. O trabalho, nesse sentido, é pensado de forma individual e integralizada. Israel Rodrigues diz que as mulheres ganharam mais disposição, flexibilidade, força e melhoras na respiração e na circulação. "O surf é qualidade de vida. Colocando-o para elas nós inserimos um novo estilo, que compreende o contemplar, o alongar, o sorrir, o respirar, aproveitar tudo que tem à sua volta e mostrar que a gente não precisa de academia para trabalhar o nosso corpo. A academia é a própria praia".

A energia do mar

Para uma das idealizadoras do projeto, o maior ganho do esporte é a consciência do poder de transformação. "Eu nasci na praia em 1966 e nunca saí daqui. Ao puxar as mulheres para o surf, conseguimos ver que o mar, a natureza, renovam as energias delas. Tem mulher aí que nunca tinha entrado no mar, e acaba sendo uma experiência nova nessa fase da vida. Elas saem de lá revigoradas", percebe Maria José. A agente de saúde já comemora que, graças ao apoio do Corpo de Bombeiros, o projeto chegará a outras praias da orla de Fortaleza em 2014.

O instrutor, por sua vez, orgulha-se do trabalho que realiza na Praia do Futuro. "A satisfação é imensa em ver a qualidade de vida que elas vão ganhar, a satisfação que estão tendo, a evolução de cada uma. Elas estão sendo referência para outras mulheres e nós percebemos a transformação".

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