LONGEVIDADE

Relações de amor e afeto repercutem na saúde

18:22 · 11.06.2011
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Técnica em pastel e borracha, criação do médico e artista Hélio Rola, uma alusão à parceria amorosa com sua Efímia
Técnica em pastel e borracha, criação do médico e artista Hélio Rola, uma alusão à parceria amorosa com sua Efímia ( Foto: Marília Camelo )
A integração de alguns componentes na vida pode torná-la mais satisfatória, prazerosa e digna de ser vivida. Os sentimentos de amor e união constituem algo de importância descrita comumente em quem os cultiva ao longo da existência.

Os anos dourados do casal Hélio, 74, e Efímia Rola, 66, certamente terão início em breve, quando completarem 50 anos de casados. A vida bem vivida independe do tempo, já que apimenta a relação o contraponto entre os dois: médico, cientista e dona de casa, pedagoga, artesã e espiritualista, que está iniciando uma nova carreira agora, a de helper em Pathwork (caminho de autotransformação).

O que poderia ser o avesso para muitos pares, para eles torna-se um ganho, uma vez que existe cumplicidade e companheirismo suficiente a ponto de não precisarem de rupturas por essas aparentes diferenças. No essencial da vida a dois, entretanto, admitem que há concórdia.

Efi colabora, dando uma mão sempre que possível ao trabalho intelectual do marido, o qual fundamenta muito de seus pontos de vista no contundente médico e biólogo chileno, Humberto Maturana, que observa os humanos como seres culturais e os fenômenos comportamentais sociais decorrentes de nossa dimensão comunicativa e linguística. Maturana entende haver um domínio linguístico que se forma entre os organismos que se relacionam.

Boa comunicação

Para se alcançar o equilíbrio e saúde é importante se estabelecer uma boa interação, consequência direta da comunicação. Efí, por vezes, sente as diferenças com Hélio como um pouco tensas. Ao se inquirir, em momentos terapêuticos, consegue observar que ter pensamentos distintos e até opostos ao outro pode ser enriquecedor ao relacionamento, já que isso ajuda a manter a relação viva. E é o próprio Humberto Maturana quem afirma: "Somente quando se produz reflexão linguística existe linguagem", ou seja, comunicação entre as partes.

A comunicação pressupõe escuta e acolhimento do outro (em suas diferenças), interação e, sobretudo, aceitação. Hélio Rola, mesmo em seu espírito científico e ativista a favor do meio ambiente, sempre cultivou sua sensibilidade, por meio das artes plásticas e das amizades. Esses pontos, certamente, abriram espaço para uma atitude cooperativa na relação com Efi, convívio e criação dos dois filhos, André e Silvia, já adultos independentes.

De acordo com inúmeros médicos, como o norte-americano, Mark Liponis, autor da obra "Ultralongevidade" (publicado no Brasil pela Editora Sextante), conquistar uma existência longa, boa e saudável não é algo difícil de se chegar. O estudioso, a partir de pesquisas recentes, aponta o envelhecimento como doença causada pelo excesso de funcionamento do sistema imunológico, extremo esse que sugere um "ataque".

Sentimentos de medo, ansiedade, preocupação estão por trás dessa hiperativação do sistema imune (além do isolamento e sentimento de solidão) com grave risco à saúde. A ciência comprova que a hiperativação do sistema imune acelera o envelhecimento do ser (físico e psíquico). Dr. Liponis, que é diretor médico do Canyon Ranch, diz haver modos melhores de corrigir e regular essa super ativação.

Sete passos

A respiração é a essência por meio da qual se principia e fortalece a vida e um dos elementos valiosos para manter-se em equilíbrio. Isto ajuda os componentes do sistema imunológico (os "soldados") a não executarem um ataque ao próprio organismo, dirigindo sua ação para proteção de vírus e bactérias.

As defesas naturais do organismo, segundo o médico americano, devem atuar de forma equilibrada, repelindo ameaças de doenças, sem exageros. Além da respiração, orienta seus pacientes para alimentação equilibrada, sono suficiente (noturno), atividade física regular. Destaca, ainda, o cuidado com o ambiente externo, o fortalecimento do organismo e o cultivo de bons sentimentos, por meio das relações, amizades e do amor.

Os sete passos, diz, são fáceis de seguir e resultam em saúde, felicidade e bem-estar. O autoconhecimento das dimensões emocionais, físicas e relacionais é valioso para se observar os níveis de estresse e a velocidade com que se está envelhecendo. A meta é desacelerar esse processo.

A médica especialista em saúde da família, Lúcia Maranhão, confirma ser o coração a sede ou o "centro" da cura do organismo. Quando as pessoas estão cultivando o amor, a amizade e as boas relações, praticando uma fé e mantendo bons hábitos de vida, com alimentação, sono, descanso e lazer adequados, não há como não manter a jovialidade promovida pelo bem-estar e a saúde em plena forma.

Criadora da terapia antiestresse, aplicada há 10 anos com grupos de pacientes em Fortaleza e Maracanaú, Dra. Lúcia é o protótipo de profissional de saúde que busca manter o equilíbrio entre a objetividade do conhecimento médico, alegria e amorosidade, a fim de inspirar todos os que a procuram com palavras de confiança e ânimo. Sempre acentua que a saúde é uma conquista. "E, como tudo de bom que se deseja, essa conquista exige algum tipo de dedicação, disciplina e, até, um pouco de sacrifício. Penso que, apesar da escalada requerer algumas renúncias, a qualidade de vida depois de conquistada, nos dá imenso prazer e recompensas dia após dia".

As ordens do amor

Hilda Ponciano de Oliveira Lima, 90, e Clovis Pereira Lima ,97, completaram semana passada bodas de brilhante (70 anos de união). Conectados à realidade e ao presente, o casal vê o respeito e o amor como praticamente sinônimos, não havendo forma de existir um sem o outro.

Hilda ainda costura na máquina, faz crochê, cozinha, sendo uma leitora voraz de livros (adora os romances). Ainda faz tudo com alegria e um sorriso de menina estampado no rosto. Ela e o marido, graças aos avanços da ciência, enxergam perfeitamente bem e sem óculos.

Clovis, dos anos de agrônomo e trabalho em diversas propriedades rurais, ainda faz seu movimento periódico para Morada Nova, onde mantém uma fazenda. Também gosta de ler (jornais, revistas) e escrever (poemas). Por ter sido educador ao longo de 27 anos, nunca impediu o desenvolvimento de sua esposa, quando esta decidiu voltar a estudar após ter criado os filhos. A família comporta quase todos os descendentes (dos 11 filhos, apenas um faleceu, e, ainda, os 23 netos e 17 bisnetos).

Contador de prosa, espirituoso e com boa memória, Clóvis silencia, até começar a lembrar de suas histórias engraçadas, muitas delas vivenciadas de perto com personalidades notórias.

A filha do casal, a geógrafa, membro do Colégio Internacional de Terapeutas e consteladora familiar, Ilvis Ponciano, observa de perto e com grande admiração o respeito e amor com que seus pais aprenderam a viver, ela vascaína e ele flamenguista.

Os estudos e trabalhos sistêmicos levaram Ilvis a compreender a ordem, que o terapeuta alemão, Bert Hellinger, desenvolveu enquanto terapia sistêmica no método que denominou de Constelação Familiar.

Esta metodologia, explica ela, contribui para dissolver os emaranhados produzidos até sete gerações passadas, que repercutem em problemas por vezes bastante intrincados e difíceis de serem resolvidos, com exclusões, doenças e acontecimentos trágicos, com síndromes de repetição bastante sintomáticos.

As pessoas, hoje, fazem pouco caso e não imaginam como as ordens do amor trazem luz aos sistemas familiares, diz Ilvis. Como na visão materialista tudo é lixo e descartável, trata-se de grande risco observar os relacionamentos dessa forma. As desordens dos sentimentos, dificultam a harmonia do corpo, da mente e das emoções, completa.

Fique por dentro
O amor maduro

Na autotransformação, proposta do caminho ou Pathwork, dispor-se a amar é um passo essencial a se tornar adulto. Eva Pierrakos e Judith Saly, na obra "Criando União" (Cultrix) registram que há em cada ser uma parte imatura (a criança) que sente não ter recebido dos pais suficiente amor maduro e bondade, prosseguindo com este anseio ao longo da vida, e cultivando mágoas pelo que não teve. Isso o torna incapaz de amar com maturidade. Tal contabilidade injusta do amor passa de geração em geração. Gera-se um círculo vicioso, que só é rompido ao se aceitar os sentimentos de carência e abandono, decidindo abrir mão deles, transformando o querer ser amado no desejo de amar. A disposição de amar reverte a jornada ao amor maduro.

A opinião do especialista

Amar sempre faz bem

O homem moderno, cada vez mais, nutre a expectativa de viver mais. Seu grande desafio está em alcançar um nível satisfatório de qualidade de vida. A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica a saúde como um estado de completo bem estar físico, mental e social e não somente ausência de doença.

O primeiro passo, então, está em melhorar o estilo de vida. A falta de tempo tem sido inimiga e desculpa de muitos, o que leva a não se mudar hábitos e se planejar, de tal modo a chegar à idade avançada com saúde, força, flexibilidade, vigor, disposição e energia, saboreando tudo o que a vida tem a oferecer.

Pouca gente se pergunta porque as pessoas parecem envelhecer em ritmos diferentes. Na verdade, as pesquisas demonstram que a velocidade do envelhecimento é determinada pelo sistema imunológico. Atualmente, quase todas as doenças estão sendo consideradas consequências de panes nesse sistema.

Desenvolver bons hábitos implica em equilibrar o organismo com alimentação balanceada, exercícios físicos, sono reparador, administração do estresse, ingestão de água de boa qualidade, banhos de sol com moderação. E, ainda, respirar ar fresco, ou seja, ir com frequência para a natureza, ouvir boa música, cultivar bons relacionamentos, bons pensamentos, bons sentimentos, desenvolver a espiritualidade, dedicar algum tempo ao lazer e a seus hobbies, amar mais, reclamar menos. Enfim, agradecer mais. "A vida gosta de quem gosta da vida".

A Bíblia, que continua sendo o maior livro médico que existe, pode ser resumida em uma única palavra: AMOR, expressa nos dois principais mandamentos, "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo".

O cardiologista pernambucano, Marco Aurélio Dias, escreveu o livro "Quem ama não adoece", justamente para refletirmos o quanto o amor é importante para nossas vidas. Então, faça a diferença: ame mais, viva mais e seja feliz!

Lúcia Maranhão *
Médica, especialista em Medicina de Família e Comunidade, Mestra em Reiki e criadora da Terapia Antiestresse

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