Aceitação

Reabilitação e cuidado psico-oncológico

00:00 · 28.10.2013

Apesar do Sistema Único de Saúde (SUS) realizar cirurgia plástica reparadora da mama após a retirada do câncer (nos casos em que há indicação médica), a reabilitação tem grande importância visto que os abalos na percepção corporal não estão ligados somente ao seio, e sim ao corpo como um todo.

Pacientes em tratamento no Instituto do Câncer do Ceará têm encontros mensais por meio do projeto Grupo Bem Viver. Com temas diferentes, como autoestima, sexualidade, exercícios, a ação recebe um palestrante convidado para dar dicas aos pacientes, entre eles, mulheres que tiveram câncer de mama Foto: Divulgação

Estudos que avaliaram a qualidade de vida de mulheres submetidas a mastectomia demonstram que as dores físicas causam limitações em vários aspectos. Além de afetar a imagem corporal, há mudanças na vida sexual, restrições no trabalho e até mesmo mudanças nos hábitos e atividades cotidianas.

"Por isso, é sugerido que o cuidado psico-oncológico oferecido às pacientes seja mantido mesmo após o término do tratamento clínico", afirma Rafaella Brito, mestre e doutoranda em Psicologia Clínica (reabilitação de mulheres com câncer de mama) pela PUC/São Paulo.

Aceitação e culpa

Medo da morte, da recidiva, da rejeição do parceiro, culpa, perda do feminino, autoestima abalada e sentimento de inferioridade são as sensações que normalmente afloram em uma mulher submetida a mastectomia.

"Uma grande dificuldade a ser enfrentada é a própria aceitação, como o de olhar-se no espelho e entender que seu corpo está diferente. A dança do ventre trabalha a feminilidade, a sensualidade, a percepção corporal, a autoestima, a delicadeza e a suavidade de uma forma mais evidenciada do que outros tipos de dança", destaca a psicóloga.

A sensualidade dessa dança abrange o corpo inteiro (pés, mãos, tronco, pernas, rosto e cabelos) o que leva a mulher a se sentir e se perceber em sua totalidade, tirando do seio o mito de única área que revela a sensualidade feminina.

O corpo é um grande revelador da história de uma pessoa e da sua personalidade. As emoções não existem apenas na mente; elas deixam marcas profundas nos músculos, nas articulações e em toda a estrutura. A dança do ventre se mostra um bom começo para retornar o contato com o próprio corpo, uma espécie de caminho no resgate da totalidade.

"Agir quando a música solicita uma ação e silenciar quando o momento necessita, propicia ferramentas para se realizar o mesmo em outros campos da vida", descreve Rafaella Brito, especialista em psicologia clínica na perspectiva da Gestalt-terapia e terapeuta certificada de BodyTalk.

Corpo em movimento

Conforme a educadora física e professora de dança do ventre, Natália Capistrano, essa modalidade é uma atividade física aeróbica e essencialmente feminina. "Em seu princípio, era realizada pelas sacerdotisas para cultuar a deusa Ísis. Ao longo dos anos, surgiram danças folclóricas que integram o universo árabe em que os homens também participam, enquanto a dança do ventre continua a ser voltada apenas para as mulheres".

Às mulheres que sofreram com o câncer de mama, este tipo de dança as beneficia já que apresenta o movimento de todo o corpo como principal característica. Trabalha a região da pélvis, do peitoral, os ombros e a cabeça. Segundo Natália Capistrano, o trabalho é realizado com isolamento muscular envolvendo todas as partes do corpo. "Por exemplo, no movimento de quadril, isolamos essa região para atuarmos apenas no quadril, ou só a mão, por exemplo".

A beleza está no cerne da prática. "As mulheres ficam em contato direto com o espelho, o que promove a autoestima. Geralmente, elas se transformam para melhor depois que começam a dançar. Por isso, apesar da dança ser para todas as idades e tipos físicos, antes de iniciá-las às aulas, são questionadas sobre alguma limitação que apresentem para que sejam tomados os devidos cuidados", explica.

Tratamento complementar

A precaução é a palavra de ordem nos casos de alguma atividade física que envolve as mulheres mastectomizadas ou quadrantectomizadas. Isso porque, segundo a fisioterapeuta Isabel Cortez, que há mais de 17 anos atende a mulheres mastectomizadas, esses procedimentos geram respostas do corpo feminino.

Entre as mais frequentes: aderência na parede torácica, fraqueza no membro superior do mesmo lado da cirurgia, alterações posturais, principalmente se a paciente tiver uma mama grande e pesada; restrições para movimentar o ombro, hipoestesia (perda ou diminuição de sensibilidade) do membro acometido, além de dor e formação de linfedema.

De um modo geral, a dança se apresenta como um bom complemento no processo de recuperação. No entanto, a fisioterapeuta alerta: "Deve ser praticada no período certo. Depois de recuperados os movimentos e força dos membros superiores, a mulher poderá voltar às suas atividades normais e incluir a dança do ventre. Mas cada caso deve ser avaliado individualmente. Quando a mulher for se submeter a tratamentos como radioterapia e quimioterapia, a prática da dança terá que esperar um pouco mais", pontua.

Grupo de apoio

Pacientes em tratamento no Instituto do Câncer do Ceará (ICC) e voluntárias da instituição têm encontro marcado toda última quarta-feira de cada mês para ações do Grupo Bem Viver. Com uma temática diferente a cada encontro, as palestras trazem dicas e informações, além de fomentar a troca de experiências entre os pacientes que, em sua maioria, são mulheres que tiveram câncer de mama.

Sexualidade será o tema abordado este mês. A palestra acontece dia 30, a partir das 8h30, com a psicóloga e sexóloga Zenilce Bruno, no 6º andar do Anexo do ICC.

FIQUE POR DENTRO

Informações genéticas podem prevenir doenças

Levantamento feito pela Clínica Mayo, entidade dos Estados Unidos sem fins lucrativos, especializada em tratamento, pesquisa e educação em saúde, defende que o genoma humano afeta o diagnóstico e o tratamento de doenças.

Dos aspectos descritos, o genoma oferece ao médico a certeza da prescrição do medicamento e da dosagem correta; auxilia no desenvolvimento de exames, além de assistir ma escolha da terapia adequada para o câncer. Também colabora com o combate a uma doença resistente, como no caso em que a mutação levou à prescrição de uma droga contra o câncer de rim para tratar um câncer de mama.

Tendo em vista que as informações genéticas contidas no histórico contribuirão para diagnosticar e tratar um paciente no futuro, o laboratório brasileiro DLE desenvolveu o Biobox Coleta, dispositivo patenteado pelo DLE para permitir a realização da coleta de amostra biológica, com elevado padrão de garantia da integridade física da amostra e, consequentemente, para manutenção das qualidades químicas com o intuito de proceder a análise. O teste genético é preditivo e fornece dados se uma pessoa pode ou não desenvolver uma doença ou a condição pesquisada. Os exames são feitos com amostras de sangue ou de raspado bucal, que pode ser colhido pelo próprio paciente, sem sair de casa. O resultado sai em 30 dias úteis.

Recomenda-se o teste genético preditivo para câncer em situações como dúvidas em indivíduos com histórico familiar; adiamento da doença em decorrência da mudança de hábitos de vida (dieta, tabagismo, álcool), por possibilitar o diagnóstico precoce com exames periódicos e acompanhamento médico, aumentando as chances de cura; aconselhamento genético e planejamento familiar, sabendo do risco de descendentes manifestarem a doença.

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