Distopia Genital

Quando a genitália feminina sai da posição normal

00:00 · 06.01.2014
Com formato similar à orquídea, a genitália feminina requer cuidados em todas as fases da vida

Símbolo de feminilidade, a orquídea possui semelhanças com o corpo da mulher. Desde a fragilidade à fisiologia aparente por meio das genitais, os traços naturais e femininos, em ambos os casos, exigem uma disposição determinante para a manutenção da saúde.

Feminina é a característica que define bem a orquídea e a mulher, ambas com formas similares FOTO: Alex Costa

Sensação de esvaziamento incompleto da bexiga ou do ânus, dor ao defecar, urinar ou ter uma relação sexual são alguns dos sintomas que representam o que se conhece popularmente como bexiga caída.

A doença leva nomes como prolapso pélvico, distopia genital ou síndrome do descenso perineal. Para todos eles, uma única definição: uma hérnia do conteúdo pélvico e/ou intraperitoneal no canal vaginal. O último nome, síndrome do descenso perineal, refere-se ao deslocamento (descida) das vísceras pélvicas no sentido caudal, em direção ao hiato genital, que é provocado pela disfunção.

Acima de 80 anos

A incidência dos casos de prolapso genital em idades avançadas aumenta significativamente. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2050 o Brasil contará com cerca de 9 milhões de mulheres com 80 anos ou mais, o que representará o envelhecimento da população e sua forte relação com o prolapso genital. Estima-se que, nos próximos 30 anos, aumentará 50% o número de mulheres que buscarão cuidados médicos por desordens no assoalho pélvico.

Os prolapsos pélvicos assim como a incontinência urinária e anal e as disfunções sexuais são consideradas disfunções do assoalho pélvico, segundo a fisioterapeuta Sandra Rebouças, que há 15 anos atua na fisioterapia pélvica. A disfunção pode ocorrer isoladamente ou simultaneamente, afetando os seguintes órgãos: a bexiga, o útero, o reto e o intestino delgado.

"Isso porque as causas são multifatoriais e podem atingir tanto a parede vaginal anterior como a posterior. Por isso recebe a denominação conforme o órgão prolapsado. Na nomenclatura anterior, as distopias eram classificadas pelo órgão acometido em cistocele (bexiga), prolapso uterino (útero), retocele (reto) e enterocele (intestino delgado). Já pela nomenclatura atual recebe denominação de prolapso de parede vaginal anterior e prolapso de parede vaginal posterior. Quando ocorre simultaneamente o estadiamento ou a severidade dos prolapsos pode ser diferente de um órgão para outro", esclarece a fisioterapeuta com formação em Biofeedback-Eletromiográfico nos EUA; especialista em Gerontologia; mestre em Psicologia; doutoranda em Ciências (Universidade Federal de São Paulo - Unifesp), coordenadora da Pós-graduação em Saúde do Idoso da Unichristus; docente do Centro Universitário Christus das disciplinas Fisioterapia na Saúde da Mulher e Fisioterapia na Saúde do Idoso.

Fatores de risco

Uma combinação de condições pode provocar o prolapso genital. Varia de mulher para mulher. Entre os fatores de risco são pontuados idade, paridade (número de partos), histerectomia (cirurgia de retirada do útero), cirurgias prévias para correção de distopia genital e desordens do colágeno. "Há outros fatores potenciais cujo papel ainda é controverso, a exemplo do tipo de parto (vaginal, fórceps ou cesáreo), da obesidade, do peso do recém-nascido, da tosse crônica e da história familiar".

A fraqueza das estruturas do assoalho pélvico também é uma das causas dessa disfunção. Por isso, Sandra Rebouças enfatiza que os músculos têm papel fundamental no correto posicionamento e função dos órgãos pélvicos, juntamente aos ligamentos e fáscia endopélvica.

Os indícios

Os sintomas dependem do órgão afetado. Os sintomas vesicais (relacionados à bexiga) como sensação de esvaziamento incompleto da bexiga; posicionamento anormal para urinar; manobras manuais para urinar; resíduo pós-miccional elevado. Já os anorretais são dor ou sensação de pressão durante ou após a evacuação; sensação de esvaziamento incompleto; manobras digitais para obter o esvaziamento completo das fezes; prolapso de tecidos antes ou após evacuação; fezes endurecidas e em forma de bola de gude.

Quanto aos sintomas sexuais, destaca-se algias (dores durante a relação sexual); incontinência orgásmica (perda de urina durante o orgasmo); anorgasmia (dificuldade de atingir o orgasmo); diminuição ou perda da libido. Dos sinais locais, sensação de bola na vagina ou peso; abaulamento saindo pela vagina; dor perineal; dificuldade na penetração e/ou na colocação de absorvente interno; dor lombar (ao final do dia); flatos (gazes) vaginais; sensação de peso vaginal acentuada ao final do dia; e alteração do odor vaginal (ulcerações).

Cuidados

Embora não traga risco à vida, as disfunções do assoalho pélvico têm impacto significativo na sua qualidade. Qualquer alteração nas funções dos órgãos pélvicos e abdominais deve ser relatada ao médico em consultas de rotina. "Nenhuma queixa deve ser subestimada pela mulher nem pelo médico especialista. O fisioterapeuta especialista em Fisioterapia Pélvica está apto a avaliar e tratar as disfunções do assoalho pélvico, por isso, deve ser consultado preferencialmente de forma preventiva".

Sandra Rebouças descreve que o pico de frequência ocorre entre 60 e 69 anos. Em 74,2% dos casos, as ocorrências são na pós-menopausa. Já a prevalência de prolapsos em mulheres entre 20 e 59 anos é estimada em torno de 30,8%. Na literatura, a paridade está sempre relacionada, pois é raro em nulíparas (mulheres que nunca pariram); e quanto ao tipo de parto está mais aos partos vaginais.

Prevenção

Estudos mostram que os defeitos musculares estão presentes em 55% das mulheres com prolapso, e em 16% das mulheres sem prolapso. Daí a necessidade da presença de exercícios pélvicos na rotina de mulheres de todas as idades. O fortalecimento da musculatura pode tratar casos em estadiamento leve (I e II). Já os tipos moderado e grave exigem cirurgia se não existirem patologias associadas (como mulheres cardiopatas, hipertensas e diabéticas graves).

Com a fisioterapia pélvica os exercícios são orientados nos dois primeiros meses, com o uso de biofeedback eletromiográfico (monitoramento dos músculos pélvicos em gráficos), de cones vaginais (pesos), treinamento dos músculos pélvicos (TMAP) e eletroestimulação. Depois o treino é feito no dia a dia (durante o banho, ao dirigir e até em pé). "A função dos músculos do assoalho pélvico é manter os órgãos em posição anatomicamente normal, além de atuar no controle de urina, fezes, flatos e prazer sexual", descreve.

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

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