Compulsão

Quando a ´fome´ é por sentimentos

00:40 · 28.05.2013
O alimento, há muito, tornou-se fonte de prazer e, algumas vezes, até válvula de escape. Mas, "atacar a comida", pode se tornar um problema quando a mania vira compulsão

Conforme o dicionário, compulsão significa a força que compele a repetir um ato não deliberado ou contrário à vontade. É isso que ocorre com as pessoas que possuem um comportamento compulsivo.

O hábito de ´atacar´ a geladeira pode indicar a relação distorcida com a comida FOTO: KID JÚNIOR

De acordo com a última versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), alguns já são reconhecidos como doença. Caso da compulsão por compras, recentemente, pelo uso de computador e internet, e pelos já conhecidos jogos patológicos (compulsão sexual e alimentar).

Esta última é a de maior prevalência e atinge 4% da população e 6% dos obesos, segundo dados da Associação Americana de Psiquiatria (APA). Pode estar presente em transtornos psiquiátricos alimentares como bulimia nervosa e o transtorno de compulsão alimentar periódica (Tcap).

No entanto, a psiquiatra e especialista em Terapia Comportamental, Gisele Vasconcelos Serpa, esclarece que o ato isolado de comer excessivamente não está associado à doença psiquiátrica. Pelo contrário, ocasionalmente já foi experimentado por grande parcela da população, provocada por algum contexto social, funcional ou psicológico.

"Muitos de nós já fomos a um rodízio e ingerimos vários grupos de alimentos diferentes em um curto período de tempo. Porém, o comer compulsivo se configura uma doença que pode se dar em qualquer fase da vida e ocorrer algumas vezes por mês, como no período menstrual".

A compulsão alimentar tem frequência, motivações definidas e prejuízos amplos de caráter social e o funcional ao indivíduo. Para ser classificada como doença, deve ocorrer no mínimo duas vezes por semana, durante um período de, no mínimo, seis meses. Se o indivíduo apresentar pelo menos dois episódios compulsivos, ainda que nos fins de semana, por seis meses, ele receberá o diagnóstico de Tcap acompanhado da indicação de tratamento.

Fora de controle

Diante desse comportamento, de tratamentos médicos sem resultados e de uma mensagem do Comedores Compulsivos Anônimos (CCA), a pedagoga Ana* (nome fictício), 69 anos, percebeu-se como uma comedora compulsiva.

"Meus hábitos alimentares se resumiam a comer e beliscar o dia todo, além de sentimentos de tristeza e impotência diante da compulsão. Tinha uma relação de dependência com a comida, que estava deformando meu corpo e me deparei com a esperança de ajuda", relembra.

As causas que levam uma pessoa a desenvolver compulsão alimentar estão relacionadas a vários fatores biológicos e hereditários, como a Síndrome de Prader Willi e Kleine-Levin, quando não há sensação de saciedade e o paciente apresenta hiperfagia (aumento excessivo de apetite).

Também podem estar ligados a fatores ambientais, comportamentais e psicossociais significativos. "Traumas, experiências pessoais negativas, sentimentos como culpa, vergonha, angústia e ansiedade podem reforçar o ato compulsivo por aliviar essas sensações, sendo um fator de risco importante para o transtorno", complementa a psiquiatra.

No caso de Ana*, ela descreve que "comia sentimentos". Em função disso, há 25 anos, recebe apoio para lidar com os sintomas físicos e emocionais do comer compulsivo.

Apoio em grupo

O suporte vem das reuniões do CCA. O grupo é definido como uma irmandade de homens e mulheres movidos pelo objetivo de solucionar a compulsão por comida. "Eles unem as forças para compartilhar experiências e oferecer apoio uns aos outros", diz.

No caminho pela melhora, ela relata as mudanças conquistadas: "A maneira de me perceber mudou. Hoje me sinto uma mulher forte com capacidade de enfrentar a vida como ela é. Me alimento como uma pessoa normal, sem aquela ansiedade".

Mesmo assim, Ana* não se considera curada, já que acredita, segundo o programa do CCA, que o comer compulsivo é uma doença que pode ser detida se acompanhada e amparada, mas curada, não. Ela conta que, ao longo dos anos, aconteceram recaídas, mas com a persistência e o suporte do CCA, revela que tem conseguido conservar o mesmo peso há mais de dez anos.

Fortaleza conta com três grupos de Comedores Compulsivos Anônimos bem estruturados e reuniões semanais: o Abstinência (na Igreja de São Gerardo); o Só Por Hoje (na Igreja Presbiteriana); e o Liberdade (na Igreja de Fátima).

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

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