Agressividade

Psicomotricidade previne violência na infância

21:32 · 16.04.2011
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Richard Parreiral: na agressividade há o eu e o outro. Já na violência isso modifica para o eu ou o outro
Richard Parreiral: na agressividade há o eu e o outro. Já na violência isso modifica para o eu ou o outro ( Foto: Geórgia )
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Atenção: jornada e cursos enfocam prevenção da violência com a atenção especial à primeira infância

Fatores biológicos, sociais e familiares estão por trás dos elementos que exercem influência sobre a agressividade já na primeira infância, o que pode resultar em jovens e adultos violentos, maximizando comportamentos de brutalidade e autodestruição. O psicomotricista português, pós-graduado em Neuropsicologia, Richard Parreiral, é um dos especialistas convidados pelo Instituto de Promoção da Nutrição e do Desenvolvimento Humano (Iprede) para a Jornada Internacional sobre Prevenção da Violência.

Ele permanece em Fortaleza ainda esta semana, quando ministra curso sobre “A Criança Diferente: Autismo, Hiperatividade e o Brincar”. Muito sensibilizado com a infeliz coincidência de ter chegado ao Brasil no dia do episódio violento com as crianças na escola do Rio de Janeiro, Parreiral observa esta como ótima oportunidade de abrir os olhos de pais, educadores e de toda a sociedade para um zelo mais amoroso com a infância.

Abaixo, trechos da entrevista com o psicomotricista que tem formação e reside em Paris, França.

Há uma razão especial por ter escolhido a Psicomotricidade?

Na realidade, sempre pensei em trabalhar na área da saúde e a Psicomotricidade surgiu porque também falo muito com o corpo. Trata-se, na verdade, de uma profissão que leva muito as pessoas a se relacionarem umas com as outras. E isto me atraiu. A própria vida é relação, é socialização. E poder partilhar com muitas pessoas é fascinante.

Pesquisas recentes revelam que muitas doenças são decorrentes do isolamento. Observa isso?

De fato, certas doenças surgem por conta do isolamento. Nesta época, pessoas estão mais apáticas, deprimidas e com baixa motricidade. É preocupante, porque escolhem permanecer em sua vida interna em vez de partilharem com os demais. Ficam em uma posição de vulnerabilidade e fragilidade com dificuldades em partilhar suas emoções e sentimentos com os demais.

Esta dificuldade de conexão com o outro pode estar associada à baixa motricidade? Pode ser um sinal de que não está bem?

Em muitos casos, sim. Quando sucede um comprometimento emocional, muitas vezes, a criança também para, sobretudo, em quadros traumáticos. Estudamos o que denominamos de intersubjetividade, ou seja, a faculdade de a criança poder sentir as emoções de outras pessoas, como da própria mãe, no início. A princípio, a mãe vai delineando o mundo para a criança. E vai também responder a ela certas emoções. A mãe é o primeiro vínculo, a primeira noção, para a criança, do contato social. E esta relação é expressa na dimensão dos sentimentos e emoções. Se a mãe estiver deprimida, com gestos muito restritos, a criança não vai poder desenvolver um aprendizado mais rico de percepção e troca de emoções.

Mães que ficam deprimidas no pós-parto podem comprometer o desenvolvimento do filho?

Sim e temos que ter muito cuidado nestes primeiros instantes, porque é um momento delicado e muito sensível. O bebê precisa muito desse movimento emocional com a mãe para poder desenvolver depois o que chamamos de empatia - sentir e reconhecer as emoções do outro. Mais tarde, crianças mais isoladas refletirão este relacionamento com a mãe (ou quem primeiro cuidou). E, depois, o relacionamento com as outras pessoas, o pai, os irmãos. O pai é muito importante e vai ajudar a desenvolver a socialização da criança.

Agressividade é uma pulsão natural. Como fazer para não bloquear sua forma saudável?

A criança incita e necessita experimentar essa agressividade. Inibí-la impossibilita o desenvolvimento posterior de limites adequados e necessários para poder avaliar o que é bom do que não é. A criança deve estar em um bom ambiente. Seus pais, seus cuidadores em casa ou na creche devem estar atentos para elas não desenvolverem comportamentos antissociais.

Tem criança mais tímida e outras que vão além das fronteiras do aceitáveis. Como fazer?

As crianças vão sempre testar os limites. Há muitos pais que dizem falar à sua criança uma, duas, três vezes e elas sempre continuam. Perguntam o que devem fazer. Costumo dizer que é bom, pois esta criança tem mesmo personalidade. A criança, quando testa os limites, faz birras, bate, morde, está testando os limites. Os pais têm que avaliar - o que nem sempre é fácil - como adequar esses comportamentos, a fim de não serem permissivos demais nem tolhê-las em sua expressão.

Pais mais agressivos levam as crianças a copiarem seu comportamentos?

Normalmente, sim. Mas há muitos fatores e vivências dos pais que as influenciam. Muitos dizem: quando era pequeno, meus pais me davam palmadas, colocavam limites rígidos. Não quero ser como eles. Vão para a direção oposta. Temos que ter cuidado com isso, porque crianças podem desenvolver comportamentos mais difíceis pela falta de limites dos pais. E os que viveram dificuldades, traumas, desorganização familiar na infância, devem ser cuidados e acompanhados para poderem ajudar os filhos a desenvolverem comportamentos sociais adequados.

O que é agressividade saudável?

Por exemplo, quando a criança quer pegar um objeto vai até um adulto para pedir ajuda, por exemplo. A própria birra, quando não é frequente, podemos dizer que é saudável. Porque a frustração é a primeira maneira de a criança poder sentir que há um ser e há também um ambiente. O que se diz em psicanálise, o mundo interno e o mundo externo. E a criança tem que viver e ter um equilíbrio entre os dois.

Choro, birra de frustração é até certo ponto normal?

Naturalmente. Nas creches é comum elas baterem, morderem para poderem sentir seus limites e dos outros. As dificuldades normalmente estão nos adultos que não sabem o que fazer. E devem entender que a primeira forma de socialização é morder, bater. É a agressividade mesmo.

Winnicott fala que a primeira forma de amor é a agressividade...

Winnicott fala de dois pólos: a pulsão do amor (pulsão de vida) e a pulsão da agressividade (pulsão de morte). Para o psicanalista, são duas expressões importantes para a criança poder se situar no mundo e fazer um equilíbrio entre os dois - viver a agressividade e viver o amor. O amor vai ser vivido na relação com a mãe, que satisfaz suas necessidades. Quando não lhe dá o seio, por exemplo, a criança chora, chora, chora. Ela expressar sua frustração, como se dissesse: o que se passa em volta de mim? Ela precisa disso para poder ser um individuo.

Para não fazer (nas palavras do próprio Winnitcott) da mãe um objeto total (mãe/filho). Em seu desenvolvimento, a criança vai se deslocando de uma maneira progressiva da mãe, quando entra a função paterna e o pai vai frustrá-la para poder levá-la à socialização, aos aprendizados e noções das pessoas fora. Quanto mais existe a percepção desse outro, mais fácil se socializa.

A seu ver, como é possível prevenir a violência? Quais são os primeiros sinais preocupantes?

Isso depende da idade. Falamos há pouco do bebê que pode ser triste, ficar com depressão, chorar muito e até se isolar - porque isso acaba acontecendo no âmbito do olhar, entre a mãe e a criança, sem haver uma comunicação concreta. Há outros sinais também que são somáticos, como a anorexia, não querer comer, se alimentar. Todas essas sinalizações são indícios que devem ser levados em conta.

Então procede a preocupação materna quando os filhos pequenos não querem se alimentar?

Sim, embora não devamos ir no excesso. Na verdade, são inúmeros os fatores de risco. Não podemos dizer “pronto, a criança não come e isso vai extrapolar em agressão e violência”.O fato dela não comer já demonstra uma agressividade normal. Trata-se de uma oposição. É importante colocar tudo em um contexto.

Dentro deste contexto de confronto são as funções básicas?

Certamente. A alimentação, o sono, a comunicação, o olhar. Tudo isso é muito importante e deve ser levado em consideração. Pode ser também com a higiene. Quando se coloca a criança no pinico para fazer suas necessidades. Muitos pais focalizam neste período o ser limpo ou não ser limpo. E às vezes não chega a ser um cuidado proposto mas sim uma exigência. Aí a criança vai confrontar isso. O fato de ser limpo ou não acaba virando uma forma de negar a autoridade dos pais e afirmar sua personalidade. Na adolescência, o aspecto limpeza aparece de novo, como o sono, a alimentação, a organização, enfim, tudo o que já foi proposto desde o início entre zero e seis anos. Coisas básicas da vida e como o adulto passa isso para a criança.

Quando os pais são inflexíveis podem gerar patologias?

Muitas pessoas obsessivas com o fato de ser limpo ou ficar sujo, na terapia, acabam se reportando à época do pinico. Se há pais que vão exigir isso de uma maneira forte, imprópria, podem gerar distúrbios. O que eles não sabem é que não se trata de uma aprendizagem. As funções básicas são aquisições. E, muitas vezes, os pais levam esses período como se fosse domesticação, um tipo de adestramento.

Fale mais dessas aquisições.

Não se trata de as crianças aprenderem a comer ou usarem o pinico. Os pequenos, na verdade, terão de incorporar tudo - da alimentação aos cuidados e higiene. Por isso, os comportamentos cheios de proibições vêm da infância, por terem sido dessa forma que as crianças os internalizaram como limites e proibições parentais. Porque a correlação de todas essas aquisições emocionais ficam registradas no corpo, ficam incorporadas. E podem mais tarde aflorar como distúrbios, obsessões (as mais comuns são as fobias). No extremo, pelos excessos, aparecem os comportamentos antissociais.

Quando a agressividade extrapola como neste episódio do Rio?

Vi ontem à noite, quando cheguei ao hotel e liguei a TV. A agressividade e violência são dois conceitos que tentamos esclarecer nesta Jornada. A agressividade tem níveis quando passa à violência. Na agressividade há noção de: eu sou e também o outro é. Já na violência não há esse fenômeno, há o eu ou o outro. Aqui o outro não existe. Na agressividade há uma relação. Há fronteiras entre o eu e o outro - a relação com o mundo externo. Já na violência não existe mais esta fronteira. A pessoa tanto é muito violenta com os outros como no final volta-se contra si própria, o que ocorre no âmbito dos impulsos.

As sociedades atuais se voltam para a imagem e o fazer. Onde fica o prazer e o brincar?

Os jovens interagem menos. Colocam o som muito alto, expressam sua agressividade de diversas formas. Hoje, tanto as atitudes violentas são maiores como feitas de maneira mais brutais. É importante que saibamos que a criança necessita muito criar suas próprias fantasias, precisa brincar. E entrar dessa forma em relacionamento com os outros, corporalmente falando. E quando este corpo, cheio de pulsão de vida, é obrigado a ficar quieto, a expressão agressiva natural, sua pulsão de vida pode ser expressa de uma forma mais forte. Para o desenvolvimento do indivíduo, é essencial criar essas fantasias, brincar, entrar em relacionamento com os outros, corporalmente falando.

Ou seja, essa pulsão vital fica aprisionada e pode se rebelar...

Ela sai com brutalidade. Mesmo as imagens da TV, dos jogos eletrônicos, são todas expressas com violência, tiros, enfim, algo que pode escapar à própria consciência. Muitas vezes, os pais almoçam e jantam em frente à TV, quando está passando o noticiário, com tudo o que está acontecendo no mundo, guerras, enfim, isso prejudica as crianças, que têm dificuldade de digerir essas imagens. É muito importante que os
adultos estejm mais próximos da criança, a fim de acolherem seus questionamentos e ajudá-las a simbolizarem o que se passa dentro delas. O adulto acaba funcionando como um filtro. Mas, como tudo é muito imediato, é difícil fazer isso antes consigo mesmo.

Como a psicomotricidade previne esse impacto sobre o ser?

Na verdade, o que vivemos, temos que expressar. Porque, as emoções passam pelo corpo, mesmo na criança bem pequena. Deve ser natural expressar pelo corpo e não unicamente no nível verbal. Uma das formas que os cuidadores têm de liberar a agressividade é permitir que as crianças se movimentem. Até os adultos podem liberar os excessos de energia por meio do esporte, batendo em um saco de areia, levantando pesos. Tudo isso são formas de diluir e canalizar a agressividade. Ficar na mente nunca é bom porque fica muito contida e tem mesmo que ser vivida de uma maneira corporal e simbolizada.

As escolas deveriam ter mais atividades físicas, lúdicas, dança, tudo que envolve movimento?

Claro. Dança, teatro, movimento seriam bem preventivas. Isso é uma das maneira que podemos canalizar os comportamentos agressivos nas creches e escolas. Incluir mais o desporto, o teatro para as crianças e jovens expressarem suas emoçoes e necessidades. Promover suas competências sociais mais jogos de coordenação, cooperação. Temos muitas coisas no nível da competição e não da cooperação. Temos que promover mais a cooperação. Temos que expressar os valores de convívio nas crianças por meio dos jogos. Pode ser no recreio. Então, não ficaria o trabalho só da dimensão intelectual, mas também emocional, corporal, social. Tudo. Normalmente, na escola maternal há competências que a criança tem de desenvolver. A linguagem e a socialização, são as duas primeiras.

A agressividade começa desde a primeira infância. Como prevenir a violência e agressividade entre os jovens se eles já estão comprometidos?

Isso é uma questão muito difícil. Uma das formas de prevenção é poder acompanhar os pais e as crianças desde a primeira infância. A nível do adolescente e adulto fica mais difícil. As coisas já foram vividas na primeira infância. Isso não quer dizer que não podemos fazer nada. Temos que ter cuidado com essa noção. Podemos tratar, também trabalhar com escolas.

O que podemos fazer com os jovens além da prática do esporte?

Podemos pensar em criar também parcerias com as escolas, com os colégios, com a área da educação, a área da justiça e saúde para poder trocar e fazer projetos em comum. Para fazer contenção dessa violência.

E a questão das drogas...

Esta também é outra dimensão a ser tratada no âmbito da saúde. A agressividade fica desinibida e a violência pode ser ainda maior. A droga não leva o jovem a conscientizar mesmo os limites. O fato de não poder controlar seus sentimentos, seus afetos, não poder controlar a si mesmo. O que leva mesmo as drogas é não poder expressar seu sentimentos.

E a questão do Builing, agressão dentro da escola, dentro de uma instituição escolhendo alguém mais fragilizado. Como prevenir e lidar melhor com isso?

Temos que ser atentos mesmo às crianças desde cedo e depois no colégio. As crianças que podem vivenciar intimidação, humilhação, dificuldades em poder partilhar as coisas com outras pessoas. Os adultos tem que estar mais atentos com isso. A criança pode se isolar, pode viver traumas muito importantes nesse momento. O professor, o adulto tem que ter uma observação muito fina para poder prevenir situações mais graves. O papel do adulto é muito importante, do educador dos pais dos professores.Porque vão poder de uma maneira de ser muito mais atento à criança que pode sofrer humilhação. Pode desenvolver depois, se ela vive uma violência muito importante, pode revidar, tornar-se um adulto violento. A violência em vez de ser contida, ela tende a se repetir. E a criança tem a repetir o que ela viveu. Por isso temos que ter muitos cuidados com as crianças nas escolas e nos colégios.

A abordagem na França é a mesma, em relação a violência e agressividade?

Houve alguns estudos que foram feitos entre a França e o Brasil. Em 2006, um estudo o que saiu desse estudo é que numa favela da Rocinha do Rio de Janeiro nessa favela há menos dificuldades em termos de agressividade do que em certas escolas na França. Agressividade dentro da escola dos jovens entre si. Dentro da favela são protegidos. O estudo é "Violência na Escola: as lições que podemos tirar do Brasil". Neste estudo, 24,6% dos alunos franceses que foram entrevistados dizesseram que receberam agressão no colégio, e no Brasil, na favela da Rocinha apenas 4,8% dos entrevistados sofreram agressão. Ali a própria comunidade paternalista consegue conter a violência e também promove o desenvolvimento da aprendizagem e acha que os alunos tem de aprender e as escolas são feitas para isso.


ROSE MARY BEZERRA
REDATORA

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