BRINCADEIRA

PSICOMOTRICIDADE: Criança que não sabe brincar merece cuidados psicológicos

01:52 · 06.11.2011
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criança e computador
Ao crescer, a criança pode se deparar com relatos e fotos antigas e se sentir constrangida ou traumatizada ( Arquivo )
Profissionais destacam a necessidade de discutir o tema com os pais e familiares

O brincar faz parte do desenvolvimento psicológico, social e motor de qualquer criança. A importância de atividades lúdicas e recreativas, além da relação dos pequenos com as mídias digitais - internet e televisão - são temas do seminário "Brincar é coisa séria - estimula o desenvolvimento da criança", realizado pelo Instituto de Promoção da Nutrição e do Desenvolvimento Humano (Iprede), nos dias 12 e 13 de dezembro, de 18h30 às 22h, no auditório da entidade. O evento contará com a presença da psicóloga e psicomotricista de Belo Horizonte, Adriana Munayer, que esclareceu ao Viva a importância do brincar em meio aos estímulos do mundo digital.

Qual a importância do brincar, principalmente durante a primeira infância?

O brincar é saúde e por si só já é uma terapia, diz Winnicott, psicanalista inglês infantil. Além disso, a criança necessita também ter a capacidade de viver momentos de estar só, segundo Winnicott, para exercer o brincar criativo que a ajuda a aceder ao simbólico.

Que aspectos podem ser desenvolvidos?

A saúde emocional vem em primeiro lugar. Toda ação é cognição e, portanto, brincando a criança se descobre como ser inteligente. Diz Vigotski que ela ensaia, num espaço proximal, por imitação, o que ainda não dá conta de fazer efetivamente. Piaget sublinha que ela soluciona problemas, o que é ser inteligente. A dimensão psicomotora base da construção do mundo também se desenvolve no brincar.

Qual a importância de os pais procurarem participar também dessas atividades?

É importante que os pais conheçam seus filhos e, sobretudo, os escutem. Que os pais os supervisionem com os limites necessários, mas que os ajudem a descobrir as fronteiras mais amplas do mundo e de nossa sociedade. Para isso, devem procurar compreender o que eles gostam de fazer e, inclusive, participar de brincadeiras compartilhadas, desde que seja algo do agrado deles. Forçar-se a brincar não é ajuda. Os pais devem interagir com algo que seja também de seu interesse. Se são jogos de tabuleiro ou jogos mais corporais, de lutas ou esportes, é uma escolha combinada entre pai e filho.

Há atividades mais indicadas para cada fase?

Existem períodos evolutivos e uma criança até três anos é mais corporal, sensório-motora. Os jogos são específicos para promover os movimentos, como encaixes fáceis, e o simbolismo nascente, como os jogos de casinha. Até sete anos desenvolve as possibilidades de jogos mais elaborados com causa, efeito, organização espacial e sequência temporal e chegará aos jogos de regras. Os jogos simbólicos persistem aí. Os jogos digitais como de videogame, computador, celulares, e os online tornam-se centro de interesse. É importante sublinhar que a mídia americana nessa semana falou que crianças de três anos já estão verdadeiros experts no PC e no laptop. Na segunda infância os jogos são mais esportivos e o predomínio dos jogos digitais e virtuais é evidente.

Que prejuízos a falta dessas atividades pode trazer para os pequenos?

"Os jogos analógicos e concretos implicam o corpo em movimento na relação com os outros e situam-se num espaço delineado: as brincadeiras de faz de conta, o fantasiar-se, o jogo com regras, os jogos de tabuleiro e pedagógicos", segundo Erica Frois (PUC mestrado 2010).

Que mudanças a introdução das mídias digitais tem dado na formação das crianças?

Na década de sessenta as crianças já coletavam alguns dados quando observavam a natureza ou interagiam com as pessoas, mas passaram também a receber dos jornais, das revistas, do rádio e, logo depois, da televisão maiores informações. Na terceira Onda, segundo Alvin Tofler, a criança do século atual considera muito importante, desde há 10 anos, as fontes de informações da televisão (75%), os jornais (55%), as revistas (52%) e a Internet (50%). A família continua sendo a mais importante (77%), mas a influência dos educadores (67%) e dos amigos (55%) já caíram em relação a criança.

Esses meios podem, de alguma forma beneficiar na educação e no brincar? Como?

As mídias promovem um tipo de brincar. O brincar digital. O computador, por ser interativo, causa menos problemas do que a TV. Diante do monitor, a criança permanece inteiramente receptiva, sem condições de interagir com o filme ou o desenho animado, que seriam dirigidos para a infância. De certa forma, a TV "rouba" a capacidade de fantasiar dela, como se sonhasse por ela. Por outro lado, numa perspectiva mais positiva, a TV pode educar e inspirar as crianças, por exemplo, com os documentários de alta qualidade que oferecem insights sobre a história, a vida animal, a natureza, a cultura, que nenhum livro pode igualar.

Que cuidados os pais devem ter ao deixarem os filhos em contato com as novas mídias?

Os pais devem dar limites ao horário excessivo que os filhos possam ter diante das telinhas. Eles podem amenizar o bombardeio consumista da TV ao criar o hábito de fazer coisas juntos que não envolvam a mídia e levar as crianças a fugir da publicidade; passar mais tempo com elas na natureza, realizar projetos de arte, ir à igreja; ler para os filhos, jogar cartas ou brincar com jogos; cozinhar juntos; tocar instrumentos ou participar de atividades artísticas. Um exemplo: não deixar a televisão servir de barulho de fundo enquanto as crianças brincam, pois, na verdade, ela está interferindo na sua concentração. Regular o uso do computador é muito necessário. Uma saída é que o computador esteja em uma área comum da casa e não no quarto da criança.

Há uma idade ideal para começar esse contato?

A criança deve ter um nível de desenvolvimento cognitivo para saber o que é mundo da realidade e o da fantasia, mas o que vemos na prática é que TV e computadores tornaram-se as babás eletrônicas da atualidade.

A introdução das mídias digitais têm diminuído o brincar infantil ou ele apenas mudou?

O brincar mudou do analógico para o digital, com o advento das mídias, mas o segundo não deve substituir o primeiro pelos motivos já explanados.

Como os pais podem incentivar a brincadeira tradicional, em grupo e com os brinquedos, dando aos pequenos uma trégua do mundo estritamente digital?

A presença dos pais com qualidade, mesmo que com pouco tempo, e a escolha de atividades prazerosas para pai e filho é que permitirão mais relacionamento e melhor entrosamento nos jogos compartilhados.

Qual o maior desafio dos profissionais nessa questão?

Aceitar as mudanças desse novo mundo digital, virtual, com suas telinhas da TV ou computador a que a criança tem acesso em seu quarto ou na sala de casa, ou que carrega consigo como as novas gerações de Ipod, Iphone, Laptops, Tablets, MP3, MP4, e também vídeogames portáteis, ou até mesmo celulares de última geração; dominar a tecnologia para poder ser interlocutor da criança, mesmo que não seja um ás do vídeo game ou que não conheça todos os personagens dos desenhos atuais; saber estabelecer combinados adequados para regular o tempo e a qualidade dos acessos da criança a esse novo mundo. O jogo de cintura e a pesquisa sobre o mundo atual são necessários para o educador, o psicólogo e o psicomotricista que trabalham com crianças.

Conhecimentos

Recebe informações cada vez mais extensas e aprofundadas sobre o mundo próximo e até sobre países distantes e novas galáxias;

Precisa fazer adaptações para manipular os diversos mecanismos para jogar videogames, ouvir notícias e navegar no espaço virtual;

Tem necessidade de lidar com várias dimensões da realidade, audiovisual, holográfica, virtual;

A criança vive hoje a grande dificuldade de ter pouco contato com os pais como modelos identificatórios e se referencia pouco neles como figuras de segurança que lhe dão a estabilidade necessária para viver e curtir a vida;

Fica perdida diante dos modelos às vezes contraditórios dos pais e da avalanche de dados dos desenhos animados e do mundo de fantasia a que assiste, nas faixas etárias mais novas;

a identidade infantil é buscada em personagens de desenhos, as vezes meio humanos, animais antropomórficos ou andróginos o que prejudica o desenvolvimento emocional;

Corporalmente ocorre também que a criança se desenvolva com menos coordenação ampla por ficar mais sentada diante das telinhas. Pesquisas mostram que o excesso pode concorrer para problemas de fixar atenção e obesidade, por exemplo.

Mais informações

Seminário "Brincar é coisa séria, estimula o desenvolvimento da criança" - 12 e 13 de dezembro, no Iprede

Telefone: (85) 3218.4038.


ANAMÉLIA SAMPAIO
REPÓRTER

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