Campanha da voz

Preparo físico das cordas vocais no cotidiano

01:08 · 26.03.2013

Respiração é a base para o uso correto da voz. Prevenção inclui também cuidados com a dieta e os exercícios

Consequência da evolução humana, a voz é mais do que a produção de ondas sonoras: ela é um instrumento de identidade e de expressão. Por esse motivo, é preciso atentar para problemas frequentes que podem surgir no aparelho fonador, apesar da maioria dos sintomas serem ignorados. Cuidar da voz mantendo hábitos saudáveis é essencial para prevenir as disfunções vocais, principalmente àqueles que a utilizam como ferramenta de trabalho.

Hidratação: 2 litros de água diários em temperatura ambiente são essenciais para ajudar a hidratar o aparelho fonador. Uma maça por dia é ideal, devido às propriedades adstringentes da fruta

Segundo Sílvia Capistrano, fonoaudióloga e professora do Curso de Fonoaudiologia da Universidade de Fortaleza (Unifor), a respiração é a base para o uso correto da voz. Esta é produzida por meio de um fluxo de ar que se origina nos pulmões, com o auxílio do diafragma, fazendo vibrar as pregas vocais e produzindo pulsos sonoros.

As complicações do aparelho fonador podem ser inicialmente identificadas por rouquidão frequente (disfonia), oscilações da voz, pigarros, tosses, dores de garganta habituais, falhas na voz ou a perda total da voz (afonia). Tais sintomas podem indicar o surgimento de fendas glóticas, causadoras de nódulos e pólipos ou de câncer de laringe.

Maus hábitos

A maior parte dos distúrbios vocais está diretamente relacionada aos maus hábitos. O fumo e o excesso de bebidas alcoólicas são os principais fatores de risco para o câncer de laringe, já que possuem substâncias que irritam as vias respiratórias, prejudicando as pregas vocais. Entretanto, hábitos diários podem ser tão danosos quanto o álcool e o tabaco. "Abusar da capacidade da voz, como falar muito alto e em locais barulhentos, faz com que as pregas vocais se esforcem mais do que de costume, propiciando o surgimento de nódulos", explica Sílvia.

A má alimentação é fator determinante para a degradação da voz. O aparelho fonador tem relação direta com o sistema digestivo. Ingerir alimentos de difícil digestão, como os condimentados e ricos em gordura, podem provocar refluxos, que levam os líquidos ácidos do estômago à região das cordas vocais.

Outro ponto que exige atenção é a permanência em locais fechados e climatizados, que ressecam as vias aéreas e demandam um maior esforço das pregas vocais. Além disso, as mudanças bruscas de temperatura, principalmente quando se trata da transição entre ambientes fechados e abertos, formam condições desfavoráveis que desregulam o aparelho fonador, fazendo-o trabalhar além do habitual.

A fim de prevenir os transtornos decorrentes da má utilização da voz, a fonoaudióloga aconselha evitar tossir e pigarrear com o intuito de ´limpar´ a garganta. Para isso, ela recomenda a ingestão de uma maça como ótima opção, já que a fruta possui propriedades adstringentes, funcionando como uma esponja que vai desobstruir a laringe. Além disso, a fruta fortalece a musculatura facial, o que favorece uma melhor articulação na fala.

Entretanto, fica o alerta: caso os sintomas persistam por mais de 15 dias, é necessário buscar auxílio médico para que seja iniciado um tratamento individualizado que, em sua maioria, é composto por exercícios respiratórios, de aquecimento e de relaxamento do aparelho fonador.

"Para um diagnóstico mais completo, tem que ser feita uma consulta com um fonoaudiólogo ou otorrinolaringologista que irá realizar uma endoscopia. Dessa forma, será possível visualizar o funcionamento e a anatomia do aparelho fonador com o objetivo de apontar os problemas e encaminhar o paciente ao tratamento adequado".

Cantor: atleta da voz

Ter uma boa voz nem sempre é suficiente. É preciso, ainda, conhecer a fisiologia do aparelho fonador e os processos que geram o som vocal, como explica a professora Maninha Mota. Dos 28 anos de carreira, 25 deles são dedicados a comandar a escola de canto que leva seu nome.

Segundo ela, "o cantor, para ser dono de sua voz, precisa ter a consciência de todo o processo interno na hora de emitir o som. A técnica existe para favorecer a utilização da voz, para que a pessoa não venha a ter problemas nas pregas vocais", lembra, enfatizando que trabalhar a voz é, acima de tudo, uma tarefa de autoconhecimento.

Utilizar a voz como instrumento de trabalho (sejam cantores ou professores) exige cuidados mais complexos, incluindo sequências de exercícios de aquecimentos antes de falar ou cantar, e desaquecimentos, após seu uso.

Uma dessas precauções é chamada de ´vocalize´ e consiste em um conjunto de exercícios que empregam pequenas frases musicais em escala. Sua função é aquecer o aparelho fonador, além de trabalhar a postura, a respiração, a percepção auditiva e a articulação dos fonemas.

"Costumo dizer que o cantor é um atleta da voz. Do mesmo modo que você vai para a academia malhar o músculo, o cantor tem que treinar a voz. É preciso estimular o condicionamento físico do aparelho", ressalta.

Preparo físico da voz

Independente da faixa etária (seus alunos têm de 5 a 85 anos), Maninha Mota diz que o preparo físico acontece de acordo com a forma como cada indivíduo pretende utilizar sua voz. Se o objetivo é o canto popular, os cuidados são básicos (uso correto da respiração e da musculatura abdominal); se for o canto lírico, é preciso maior preparo e condicionamento devido à ´intensa´ colocação da voz.

A professora alerta: "Se a pessoa tiver algum distúrbio no aparelho fonador, o canto pode prejudicar ainda mais esse problema, devido aos esforços exigidos para tal atividade". Ela salienta ainda que, antes de iniciar as atividades de canto, é necessário entender não só o processo do canto em si, como também o da fala. "A gente fala mais do que canta. Então, temos que usar a respiração também para falar. Afinal, a voz falada pode atrapalhar a cantada, no entanto, a voz cantada não prejudica a falada".

Para ter uma voz firme, límpida e saudável, independente de seu uso profissional, Maninha sempre preza pelos cuidados de uma respiração correta. Entre suas recomendações, ela adverte não usar a musculatura da garganta para falar ou mesmo cantar, pois tal conduta pode provocar tensões nas pregas vocais e acarretar o surgimento de uma fenda ou de um nódulo. Falar em excesso e por um longo período de tempo também faz com que a voz fique fatigada. Se isso acontecer, é sinal que o aparelho fonador está sendo utilizado de forma abusiva.

FIQUE POR DENTRO

Campanha da Voz 2013

Com o intuito de alertar e prevenir a população acerca dos problemas vocais, o curso de Fonoaudiologia da Unifor, em parceria com a Sociedade Cearense de Otorrinolaringologia, realiza a Campanha da Voz entre os dias 15 e 30 de abril.

A 13ª edição do evento, coordenada pela fonoaudióloga Lia Brasil de Sousa, terá maior atuação junto à população, visando esclarecer sobre os cuidados com a voz e mostrar a incidência das doenças que atingem o aparelho fonador. Para isso, a ação ocorre na Praça José de Alencar, dia 16 de abril, com a realização de oficinas e atendimento ao público.

A programação inclui um mutirão de triagem para identificar a qualidade vocal e possíveis sintomas, além de oferecer exames de laringoscopia, que serão efetuados no Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami).

No Campus da Universidade de Fortaleza, a programação da Campanha da Voz irá promover oficinas sobre o uso da voz como instrumento de trabalho, caso de cantores e professores; os cuidados essenciais que se deve ter com ela e acerca da expressividade vocal. Todas serão realizadas durante a tarde do dia 18 (das 17h20 às 19 horas) e pela manhã do dia 24 (das 11h20 às 13 horas), no Auditório do bloco A3.

A campanha contará com a participação de escolas conveniadas, entidades que darão suporte para que a comunidade do bairro participe também da iniciativa. Mais informações e inscrições (para as oficinas) nos telefones: (85) 3477.3344 e 3477.3206.

 

 

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