CRIAÇÃO

Possibilidades terapêuticas da arte

01:33 · 24.07.2011
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Quando nos permitimos o envolvimento no processo criativo, voltamos a ser crianças e experimentamos a liberdade de transformar a realidade que nos rodeia
Quando nos permitimos o envolvimento no processo criativo, voltamos a ser crianças e experimentamos a liberdade de transformar a realidade que nos rodeia ( FOTO: WALESKA SANTIAGO )
Parar e se entregar ao momento no qual estamos pode ser difícil, principalmente hoje, quando nos é exigido a realização de milhares de atividades simultâneas. Conforme a psicóloga Cristiana Moura, durante as sessões de arteterapia, ou mesmo em qualquer instante que nos dê prazer e concentre a nossa atenção como assistir a um filme, ler um livro, dentre outros, é importante que haja o que podemos chamar de envolvimento, pois é ele que nos permite experimentar sensações de prazer e de atemporalidade. "Além disso, podemos ter uma ideia de integração, pois não há limite entre eu e aquilo. É por isso que dizemos que a entrega pode proporcionar quietude e alívio das ansiedades do cotidiano", diz.

Esse tipo de atividade é responsável pelo que chamamos de autorregulação do organismo, na qual devemos apenas parar e pensar que o foco é naquele instante, dando-se conta de sensações simples como o contato do corpo com os objetos ou mesmo da própria respiração. Para isso, não é preciso brigar com os pensamentos. Se eles teimam em vir, é só tentar voltar a atenção novamente àquilo que está acontecendo e se deixar levar.

Um bom exercício, além da meditação, é o uso terapêutico da arte. Para Cristiana Moura, a escolha não está fechada e nem necessita de aptidão. Vai depender da proposta e de quem é a pessoa, que precisa estar completamente à vontade.

Misto de saberes

Para começar a desenvolver arteterapia, os únicos requisitos são interesse e disponibilidade. Ninguém precisa ser artista. O terapeuta, responsável por orientar as sessões, entretanto, deve ter não só afinidade com as artes, como uma formação acadêmica. Aline Marques, que, além de arteterapeuta é artista plástica, filósofa e musicista, afirma sempre ter gostado do meio artístico, levando o misto do que aprendeu com cada área para o seu trabalho, atualmente realizado com crianças de uma escola pública no município de Maracanaú.

"Com todo esse distanciamento que estamos tendo das pessoas ao nosso redor, também acabamos esquecendo de manter o vínculo com a nossa própria identidade. Para mim, é aí onde a arte entra, para lembrar de que somos humanos, sensíveis e que temos muito a dizer para os outros e para nós mesmos", relata Aline Marques.

Muitas são as possibilidades de trabalho quando falamos em arteterapia. Dentro das artes visuais, podemos experimentar e nos experimentar a partir do desenho, pintura, literatura, colagem, gravura, modelagem em argila, escultura, confecção de máscaras, mandalas, fotografia, vídeo e arte conceitual (objetos, instalações, etc.). É possível ainda trabalhar movimentos corporais com a dança, música, dentre outros.

Cada modalidade, informa Cristiana Moura, proporciona diversas possibilidades terapêuticas capazes de contribuir a seu modo para o nosso crescimento enquanto humanos. "Como o nome diz, são possibilidades, não objetivos ou algo fechado em si mesmo. Independente da modalidade, trabalhamos, antes de tudo, o processo e a expressão criativa da pessoa", completa.

Linguagens expressivas

Pintura: por utilizar cores, está bastante ligada à expressão dos sentimentos. Desde o surgimento do Expressionismo, no século XX, os artistas já prezavam pelo uso de cores fortes e vibrantes a fim de não mais pintar o exterior, e sim expôr as emoções;

Aquarela: dentro das técnicas de pintura, em especial está a aquarela, que, num "misto de água e cor", torna-se bastante fluida, fazendo com que não se possa ter total domínio sobre o que é pintado. Por isso é muito boa para pessoas rígidas, metódicas e que precisam trabalhar mais a entrega;

Desenho: por objetivar a forma, a precisão e a coordenação viso-motora e espacial, trabalha a imaginação, o olhar sobre o papel. E essa transformação do olhar torna-se também uma transformação da vida;

Colagem: utiliza imagens pré-existentes para a criação de novas imagens. Quando trabalhadas de modo a formar e ordenar figuras, também ajudam na organização das emoções;

Gravura: envolve a criação do trabalho, a gravação na matriz, e sua reprodução em cópias. Por isso, tem função multiplicadora. Trabalha formas, manchas e texturas diversas;

Modelagem: atividade essencialmente sensorial. Na argila, o suporte e o objeto de arte são um só e estão em contato direto com as mãos.

O elemento simbólico da terra também pode ser trabalhado ao dar intensa sensação de volta às origens;

Escultura: trabalha a tridimensionalidade e a organização no espaço, dando ideia de equilíbrio e eixo, além de ter uma função estruturadora do indivíduo;

Literatura: pode ser trabalhada com a leitura de textos ou com a produção escrita. Esta última, trata-se de uma criação livre que pode surgir de uma tempestade de ideias, de trabalhos plásticos, dentre outros. Escrever já é terapêutico, mas também é muito presente a questão da auto-expressão.

MAIS INFORMAÇÕES

Curso de Formação em arteterapia
Instituto Gaia , Rua José Vilar, 964
Telefone: (85) 3244.6743/3224.9770

ENTREVISTA
Sem restrições, a arteterapia pode ser trabalhada em qualquer idade

Como se deu o seu contato com a arteterapia?

Trabalho com arteterapia desde 2007 quando tive a formação pelo curso. O interesse surgiu na própria Faculdade de Psicologia, quando iniciei o estudo do Psicodrama, abordagem que utiliza o recurso dramático no processo psicoterapêutico. Geralmente, trabalho utilizando os modalidades que envolvam as artes plásticas: pintura, argila, colagem.

Existe um público que aceita melhor esse tipo de trabalho?

Na verdade, arteterapia pode ser utilizada com crianças, adolescentes, adultos e idosos em contextos diferenciados em Psicoterapia individual, em grupos e inclusive na área social.

Como a arte pode ser utilizada como terapia?

A Arte vem expressar simbolicamente o mundo interno das pessoas de uma determinada cultura e sociedade. Ela já existe como expressão desde os tempos mais remotos. O seu potencial terapêutico reside na própria característica do criativo que é inerente ao ser humano. Ela fortalece o potencial criativo da pessoa e permite que ela se perceba de outra forma.

Como a arteterapia pode mudar a percepção que as pessoas tem de si mesmas e do outro?

A arteterapia proporciona ao indivíduo uma nova maneira de se mostrar além da linguagem falada, onde as emoções e sensações são expressadas de outras formas com os recursos artísticos. Ele se vê reconstruindo a si mesmo. Tem sua identidade revelada e percebida de forma lúdica e fluida.

O que o processo criativo é capaz de trazer para a vida de quem a utiliza como terapia?

Maior compreensão de si mesmo e do mundo. Se expressam melhor, tem um fortalecimento da identidade e da autoestima.

Aline Rosa Freitas
Psicóloga e arteterapeuta.

ANAMÉLIA SAMPAIO
REPÓRTER

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