FÉRIAS

Porque precisamos parar

23:30 · 10.12.2011
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Em meio à rotina, é preciso tempo para atividades autônomas e que tragam prazer

Ler aquele livro que estava esperando há meses na estante, viajar para a casa de praia com a família, se dedicar ao antigo projeto de pintar você mesmo a parede do quarto. Pensar em férias ideais talvez seja planejar o melhor momento dispondo um tempo para nós mesmos, no qual possamos nos dedicar a projetos pessoais, optando pelo que queremos fazer e não pelo que temos a obrigação de fazer.

Segundo o professor do curso de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), doutor em Psicologia Social pela Universidad Complutense de Madrid e pesquisador em Ócio e Tempo Livre, Cássio Adriano Braz de Aquino, a ideia de ócio que a maioria das pessoas têm e que envolve o "não fazer nada" é bem diferente de como encara a psicologia. "É uma categoria interdisciplinar diretamente vinculada à noção de autonomia e liberdade de escolha do sujeito voltada ao seu pleno desenvolvimento. A sua importância é possibilitar a manifestação mais autêntica da pessoa", explica.

Quando não dispomos desse tempo, resumindo a rotina às obrigações diárias, ao acúmulo de atividades que guardam pouca relação com os nossos desejos e à preocupação com o cumprimento de metas, podemos dar sinais sérios de desgaste físico e emocional. Apatia, estresse, irritabilidade, dificuldades no convívio social e familiar (instrumentalização e empobrecimento das relações), cansaço, e até problemas mais graves como enxaqueca, úlceras, doenças cardíacas, sensação de perda de sentido de vida e depressão podem, conforme o psicólogo, ser um desses sinais.

Até os pequenos, quando exigidos demais e sem tempo para o simples brincar, podem sofrer com tais sintomas. "Não é raro encontrar crianças com agendas lotadas de atividades que estão longe de respeitar sua autonomia como crianças, ou seja, curso de idiomas, reforço escolar, esportes (com perspectivas às vezes profissionalizantes) e um menosprezo profundo pela criação lúdica", diz Cássio Aquino.

O risco disso é uma reprodução de valores profundamente mercadológicos que podem torná-las futuros gestores de uma temporalidade profundamente instrumentalizada e utilitarista.

Buscar o prazer

Não é apenas em períodos de férias, porém, que precisamos optar por nos dedicarmos a atividades que nos dão prazer, sejam elas pequenas coisas como manter hobbies, brincar com os filhos, cuidar do jardim. O importante é que ali permaneça uma sensação de prazer e escolha.

"Por isso, não podemos dizer que também uma atividade laboral não possa ser prazerosa e que não possamos usufruir dela de maneira quase lúdica. O grande problema é a imposição das atividades diante de nossa liberdade de escolha. O tempo de se desligar para usufruir de um devaneio é sempre muito saudável, mesmo durante alguma atividade", informa Cássio Aquino.

O hobby é importante quando não nos sobrecarrega e fomos nós que decidimos o que, quando e como fazer. Hoje é comum que essas atividades nos sejam impostas e transformadas em uma forma de consumo.

Todos nós precisamos de um tempo livre, porém este não deve, de acordo com o professor, ser encarado apenas como um momento de "recuperação" para o trabalho. Embora o ideal fosse optar pelo momento que nos fosse conveniente para termos férias, isso se torna impossível, visto que em qualquer local de trabalho, é preciso organizar a produção. Além disso, o desgaste físico e emocional não está associado exclusivamente a um tempo cronológico de 11 ou 12 meses. Às vezes, um único dia pode ser mais desgastante que vários meses trabalhados.

"O ideal, portanto, seria viabilizar ambientes de trabalho que fossem menos desgastantes e negociar um momento adequado de férias que seja bom tanto para organização e trabalhadores", comenta o professor.

Férias x excessos

Apesar de essenciais, as férias muitas vezes não são bem aproveitadas como deveriam ou mesmo há quem acabe se "cansando" delas. As rotinas, embora criticadas, nos dão segurança, e há quem prefira estar seguro a se aventurar. Além disso, se as férias são vazias de sentido, acabam por se tornar enfadonhas. Por outro lado, se enriquecidas com atividades autônomas e prazerosas, dificilmente as pessoas terão vontade de voltar ao trabalho logo na segunda semana de férias.

Há ainda aqueles - e são muitos - que continuam colocando sempre a obrigação em primeiro lugar, evitando as férias ou, mesmo estando nesse período, procuram algo para ocupar o espaço deixado pelas horas de trabalho, fazendo do tempo livre, um momento de exagero e excesso de atividades (sair com os amigos, viajar, fazer compras), já que agora, em nossa mente, "temos tempo".

"O correto, seria fazer das férias um momento de ´si´ e para ´si´ e respeitar as diferenças de cada pessoa em relação a como desfrutar desse tempo", finaliza o professor Cássio Aquino.

Fique por dentro

Exaustão

Quando o corpo e a mente chegam a um esgotamento intenso ligado à atividade profissional (principalmente em profissionais da saúde e estudantes), pode-se manifestar um distúrbio psíquico depressivo, conhecido como Síndrome de Burnout.

Uma das principais características da síndrome é a dedicação exagerada ao trabalho, além do desejo de ser o melhor e de demonstrar alto grau de desempenho de forma compulsiva Muitas vezes, o paciente pode deixar de lado necessidades básicas como comer e dormir, entrando em depressão e evoluindo até o colapso físico e mental.

Durante o tratamento psiquiátrico, além de fármacos, é necessário que o paciente seja afastado ambiente estressor do trabalho.

ANAMÉLIA SAMPAIO
REPÓRTER

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