INTENSIDADE

Pole dance traz o lúdico

19:54 · 01.10.2011
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Marilia Damasio e o filho de três anos, Cauê, brincam na barra vertical com alguns movimentos do Pole Dance. A atividade já constitui uma forma de treino intensa e que requer concentração e destreza
Marilia Damasio e o filho de três anos, Cauê, brincam na barra vertical com alguns movimentos do Pole Dance. A atividade já constitui uma forma de treino intensa e que requer concentração e destreza ( Viviane Pinheiro )
Criar movimentos em uma simples barra exige força, coordenação motora e muita imaginação

Por volta dos quatro anos, Marília Damásio surpreendia os pais com súbitas ausências. A pequena escondia-se em cima da soleira das portas, subindo como um animalzinho ágil e com muita destreza. Quando seus pais se deparavam, ela estava acima de suas cabeças, rindo.

Para ela, o que começou como pura brincadeira de criança, com a perspicácia dos pais virou carreira, uma vez que logo decidiram colocar a filha para ter aulas de ginástica artística (ou ginástica olímpica) antes que ela se machucasse seriamente. O objetivo era aprender mais movimentos e desenvolver seus talentos natos com o próprio corpo.

Anos mais tarde, aos 14 anos, era uma ginasta bastante respeitada, e quando perguntavam a ela o que praticava, dizia que era ginástica rítmica, com fita e bola. Na sequência, cursou a faculdade de Educação Física na Universidade Estadual de Maringá (Paraná) com especialização na UnoPar, única no Brasil com treinamento específico para ginastas do porte de Marília.

Educação e o corpo

No contexto educacional, comenta a educadora física, o treinamento dos ginastas deve se iniciar bem cedo, embora não seja voltado para o desempenho e sim para os aspectos lúdicos da atividade. "Brincamos com movimentos e posturas com nomes de bichos e objetos conhecidos pelas crianças, como borboleta, cavalinho, ponte", observa. Dessa forma, os pequenos vão sendo introduzidos aos movimentos, que se tornam prazerosos.

Quando a criança consegue ir desenvolvendo seu esquema motor, cada vivência permanece como um arquivo, que o corpo vai guardando de forma cognitiva (no aparelho psicomotor, na dimensão neuromuscular) sendo adaptado por cada atleta ou desportista para a modalidade que ele escolhe praticar no dia a dia.

Infelizmente, como o atleta tende a repetir movimentos para alcançar altas performances, também sofre muitas lesões. Com isso, suas atividades ficam comprometidas. No caso do ginasta, muito cedo terá de abandonar a carreira competitiva, transformando-se em treinador ou seguindo outra área ou até mesmo profissão.

Dificilmente, contudo, um atleta segue para uma área muito distinta, que não inclua o corpo e suas memórias musculares. No caso de Marília Damásio também não foi diferente. Passou muitos anos como treinadora, até decidir casar e ter seu primeiro filho. A mudança para Fortaleza a afastou dos estádios e dos treinos. "Por falta de atividade física direcionada (mais no cuidado do filho pequeno) acabei ficando fora de forma. Minha autoestima ficou estremecida e fui buscar uma atividade que pudesse praticar e com a qual recuperasse não somente minha forma física, mas também o prazer em me exercitar regularmente".

Passou algum tempo como instrutora de ginástica laboral, que ajuda os trabalhadores a evitarem lesões por repetição. Atualmente, ensina a crianças ginástica rítmica em alguns colégios da capital, além de atuar como personal trainer.

A ginástica na barra fixa, ou Pole Dance Fitness, surgiu por pura curiosidade. Logo Marília se inteirou dos movimentos, realizando um curso com uma professora em Fortaleza e vários cursos de formação em outras cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo. É muito interessante, revela, por ser uma atividade que parece específica para alguns tipos de pessoas, embora haja na verdade poucas restrições, apenas para gestantes, pessoas acometidas por labirintite e outras restrições médicas (problemas de coluna, articulações ou lesões que não suportem esforço.

Aparentemente, revela Marília Damásio, o Pole Dance requer muita força nos braços e pernas. Contudo, toda a força se concentra na musculatura abdominal e dorsal, o que requer um fortalecimento específico desta área para um bom desempenho e, inclusive, evitar lesões ou quedas da barra. Principalmente, porque a pessoa fica em algumas posições sem as mãos e outras sem as pernas e pés fixos na barra, o que parece ser impossível, por vezes, de ser realizado.

Eliany Rodrigues de Morais, assistente de coordenação de um curso de inglês, realiza o Pole Dance há pouco mais de um mês, e se diz satisfeita pela escolha da prática. Segundo ela, o Pole Dance trabalha muito bem com a autoestima. Toda a atividade, a seu ver, mostra que independente do corpo que cada um possua, "somos mulheres belas, a princípio, para nós mesmas, e só depois para os maridos e namorados", diz.

Extremidades

Além do abdômen, Marília Damásio cita também o temido músculo do tchau (abaixo do braço) que normalmente é muito exigido, bem como a parte interna da coxa. Como, no princípio da prática, todos ficam doloridos, a professora informa que isso é sinal de que o corpo está acordando, despertando e funcionando bem. Já na primeira aula, as alunas conseguem fazer os passos básicos. Isso sempre é bastante gratificante para elas, revela.

Concentração

Marília Damásio diz que o trabalho abdominal é o forte do Pole Dance, requerendo concentração, determinação na técnica e, sobretudo, habilidade e destreza no que concerne em se utilizar a força do centro para as extremidades.

"Os atletas de alto desempenho costumam se esforçar muito. Há treinamentos exaustivos, como o da capoeira. Todos são muito bons, mas requerem cuidados específicos. No caso da ginástica na barra vertical, trata-se de uma atividade de fitness. Trabalhamos bem a sensualidade, sem puxar para o erotismo", ao fazer um paralelo com a performance dos atletas do Circo de Soleil.

Graça e desenvoltura

A sensualidade, diz a educadora física, corresponde mais a graça e a desenvoltura do que algum tipo de alusão a uma conotação sexual, embora muitas pessoas empreguem mesmo a atividade com o objetivo da sedução.

Não tem como não associar a atividade na barra vertical com algo erótico e sensual. Mesmo assim, o Pole Dance Kids mostra crianças, como o próprio filho da instrutora, Cauê Sanchez Ferreira, de três anos e meio, subindo e descendo da barra e fazendo verdadeiras peripécias sem maiores sacrifícios, por pura diversão, já que observa desde tenra idade a mãe redescobrindo prazerosamente sua feminilidade nesta atividade física criativa.

A opinião do especialista

Todo cuidado é pouco

Renato Azevedo*

A Pole Dance fitness é uma atividade lúdica. É possível, por meio dela, trabalhar o alongamento de todo corpo, mas não criar hipertrofia (aumento de massa muscular), por atuar de forma isométrica e excêntrica. Para o aparelho cardiovascular, tem uma importante ação, pois os movimentos são feitos de forma rítmica e intensa, gerando queima calórica.

Todas as pessoas com bom condicionamento físico prévio podem praticá-la. No entanto, é importante atentar para que a carga de exercícios seja aumentada gradualmente, a fim de não causar em si mesmo lesões, sobretudo, nos ombros, punhos e coluna. Pessoas ociosas fisicamente ou, com excesso de peso, não devem fazer sob pena de sofrerem alguma lesão.

Outros casos contraindicados são de bursites, tendinites ou doenças ocupacionais em membros superiores. Aqueles acometidos por estas lesões devem ter cautela, sendo necessário uma avaliação prévia com um fisioterapeuta desportivo ou médico. Pessoas com protusões discais ou hérnias discais (ou seja, que sofrem de problema de coluna) são do mesmo modo advertidas a não realizarem esse tipo de atividade, pois durante a prática ocorre sobrecarga nos discos vertebrais em flexão ou extensão, somada à rotação de tronco.

Como pontos positivos observo: melhoria da flexibilidade, do condicionamento cardiovascular e queima calórica. Já nos pontos negativos, há riscos de lesões em membros superiores e discos, além do risco de quedas. Vale ressaltar a importância de uma avaliação prévia. E, por ser uma técnica "nova" não existe comprovação científica ainda de sua eficácia.

Lembro sempre do bom senso como um fator importante a se levar em consideração. Falo isso, porque técnicas, métodos e terapias são "inventadas""criadas" sendo vendidas como panaceias para soluções de todos os males, sendo que nada mais são do que variações de algo já criado. Cuidado com os modismos.

Fisioterapeuta Desportivo, acupunturista e especialista em fisioterapia manual e postural

ROSE MARY BEZERRA
REDATORA

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