AMEAÇA

Perigo à beira mar

22:22 · 22.10.2011
Cuidado deve ser redobrado com os microorganismos na areia e animais marinhos

É água no mar, é maré cheia. Clara Nunes já cantava histórias e aventuras vividas à beira da praia, ambiente tão frequentado quando se busca lazer e descanso. Mas um passeio ao litoral pode se tornar uma experiência pouco prazerosa se os devidos cuidados não forem observados.

A areia da praia esconde microrganismos causadores de doenças de pele e até infecções mais graves. "São bem conhecidas as micoses, que podem estar presentes na forma de fungos geofílicos ou bicho geográfico (larva migrans), transmitido pelas fezes dos animais domésticos", diz Vidal Haddad Jr., dermatologista e professor de Medicina da Universidade Estadual de São Paulo.

Para reduzir os riscos de se contrair doenças provocadas pelo contato com a areia, Vidal Haddad recomenda restringir o acesso de cães e gatos ao ambiente, assim como ter o cuidado de tomar banho (com água doce) imediatamente após a saída da praia.

Proteção contra o sol

A exposição ao sol - em horários de maior incidência dos raios ultravioleta - é outro fator que coloca em risco a saúde. Para os banhistas em geral, o uso do protetor solar é um item obrigatório, enquanto para os adeptos de esportes náuticos e pescadores, além do filtro solar, também é indicado o uso de roupas e acessórios com proteção UV.

Mesmo trabalhando em condições adversas, as roupas utilizadas pelos pescadores podem reduzir (mesmo que parcialmente) o impacto do contato com animais marinhos, assim como diminuir a incidência dos raios UV. No caso dos s surfistas, por exemplo, a pele fica parcialmente protegida em função do neoprene, material com o qual são confeccionadas as roupas (por ser impermeável, o tecido age como isolante térmico).

O uso de uma camiseta sobre a roupa de banho, por exemplo, representa um fator de proteção solar 16, ou seja, a área coberta está 16 vezes mais protegida que a descoberta. Peças de lycra podem significar um fator de proteção de até 35. Se as peças estiverem molhadas, porém, o grau de proteção reduz drasticamente para 11.

Mar de espinhos

Ao adentrar no mar, o cuidado deve ser redobrado em função da presença de águas-vivas, caravelas, ouriços do mar e peixes venenosos, frequentes no litoral cearense. Segundo Vidal Haddad, os ouriços do mar (correspondendo a cerca de 50% das ocorrências) são as espécies mais comumente envolvidas em acidentes.

Recobertos por espinhos, os ouriços se organizam em colônias, vivendo em paredões rochosos, em pequenas lagoas que se formam nas marés ou em terrenos pedregosos. "Quando pisados, os espinhos se quebram e penetram profundamente na pele da vítima. O acidentado deve ficar em repouso, evitando pisar sobre a área atingida, para que não introduza ainda mais os espinhos. Deve-se procurar atendimento hospitalar para extração deles, o que pode ser uma tarefa muito difícil, uma vez que se fragmentam", afirma o professor.

Águas-vivas e caravelas também são responsáveis por incômodos sofridos por quem entra no mar. Por serem animais translúcidos e alguns de pequenas dimensões - podendo medir menos de cinco centímetros - as águas-vivas costumam ser de difícil visualização. Seus corpos são dotados de tentáculos com células que expelem um veneno que causa dor e ardência.

Já as caravelas chamam atenção por serem similares a sacos plásticos flutuantes, geralmente de cor púrpura ou avermelhada. As crianças tendem a confundir e tocar nesses animais, que também possuem tentáculos venenosos. Os acidentes com caravelas são mais graves em relação aos com águas-vivas, pois podem evoluir e causar problemas cardiorrespiratórios.

O acidente envolvendo caravelas deixa linhas avermelhadas extremamente dolorosas na pele, correspondendo aos tentáculos dos animais. Haddad recomenda que se deve retirar os tentáculos ainda aderidos usando proteção nas mãos e fazer compressas de água do mar gelada ou bolsas de gelo artificial, pois a água doce pode piorar o quadro. Outra medida é fazer banhos com vinagre, que ajudam a inativar o veneno do animal. É importante saber também que águas-vivas e caravelas geralmente andam em bando, por isso, ao avistar alguma dessas espécies, o banhista deve imediatamente sair do mar.

O primeiro semestre do ano (correspondendo a quadra chuvosa) costuma ser o período de maior frequência desses animais no litoral cearense, informa Marcelo Vieira, Doutor em biologia marinha e professor do Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará (Labomar/UFC). Ventos fortes ocasionais direcionados à costa também podem trazê-los para próximo da praia ao longo de todos os meses do ano.

Peixes perigosos

Os bagres também estão comumente associados a acidentes. As complicações podem ser causadas tanto pelo ferimento provocado pelos ferrões quanto pelo veneno presente no peixe. Embora tenha como habitat a parte mais afastada da orla, pescadores inexperientes tem o hábito de devolver os bagres menores (sem valor comercial) à beira da praia. Deve-se tomar cuidado com arraias, que ficam enterradas na areia.

Os banhos de rio também podem provocar transtornos. Nos rios ceareses, peixes como o niquim, cuja aparência é confundida com a areia, possui espinhos dotados de um veneno que provoca dor mais forte que a ferroada da arraia e do bagre. Traumas maiores também podem acontecer devido a mordidas de piranhas e dourados.

Independente do local, o contato sempre deve ser evitado. Todo animal marinho tem alguma forma de defesa. Mesmo mortos, o veneno de águas-vivas, caravelas e arraias permanece ativo por até 24 horas.

Acidentes

25% dos ferimentos com animais marinhos são causados por águas-vivas e caravelas. O número de animais aumenta no verão.

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