ABORTO

Perder para ressignificar

13:07 · 16.01.2011
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Porque a questão do aborto espontâneo deve ser tratada sob a ótica médica, ética e psicológica

O aborto espontâneo também é tabu. Mas não está nas discussões religiosas, políticas, sociais, culturais. Ao contrário: o assunto é cercado de silêncio. No máximo, a questão é dividida com o médico, com uma amiga mais próxima, uma pessoa da família. Mas, ainda assim, dificilmente o tema é tratado a fundo, sem restrições ou máscaras.

O resultado de tamanho pudor é que tanto a mulher que passa pelo problema como seu companheiro se fecham e, para quem está à margem da situação, tudo parece seguir normalmente. Mas não.

O casal em questão não é apenas mais um que perdeu o bebê por falha de fertilização (16% dos casos), de divisão embrionária (18%) ou de implantação (39%), abortamento espontâneo (25%) ou óbito fetal (2%). Independente da causa, homem e mulher precisam de apoio para superar o que, para eles, é semelhante ao luto, porque há morte, sentimento de perda, dor, culpa e uma dificuldade imensa de superação.

A quem passa pelo problema, fica a questão: "resisti?" Quatro anos depois de perder o filho Lucas Gabriel na 34ª semana de gestação, a psicóloga Wecia Mualem responde que sim. Mas não de maneira imune. Em situações como a dela e de muitas mulheres que descobrem algum problema ainda na gravidez, Wecia explica que se processa um luto antecipatório.

"Isso acontece em relação ao ideal dos pais pelo narcisismo investido no bebê. É um abalo, porque o sofrimento é vivenciado ainda na gravidez. Para o homem e a mulher, essa vivência é diferenciada. A mãe expressa mais o luto, enquanto o pai tende a se fechar. Mas ele sofre tanto quanto ela", ressalta.

Nesse contexto, os dois passam por sentimentos ambíguos, como revolta, angústia, culpa, desamparo. Na opinião da psicóloga, o sofrimento vivenciado por esse casal afeta a relação e tanto pode unir o casal como afastá-lo, uma vez que um dos dois pode não suportar tamanha dor. "Ou o casal se une e vive esse luto ou vai viver a perda singularmente. Algumas pessoas até fogem. Mas Freud diz que para esquecer tem que lembrar", avalia.

No caso de Wecia, alguns fatores contribuíram na aceitação e superação da perda, como a análise pessoal, a ajuda espiritual, o trabalho em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e a consequente experiência mais próxima da linha entre a vida e a morte.

Contudo, ainda assim não foi fácil chegar ao ponto de falar no assunto e não mais chorar, mas encarar a situação como crescimento e fortalecimento pessoal. Nesse processo, para a psicóloga foi fundamental transformar a pesquisa do mestrado em Psicologia pela Universidade de Fortaleza (Unifor) no livro "Quando um coração pulsa para dois" (Editora da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

"O meu luto eu elaborei escrevendo. Foi a minha forma de ressignificar. Por isso meu livro hoje é um filho que eu divido com o mundo, apesar de não ser uma obra de auto-ajuda. Através da escrita pude vivenciar minha castração de ter perdido o bebê e minha elaboração do luto", analisa. Esse processo foi tão sedimentado e resolvido que Wecia Mualem é categórica ao afirmar que teve dois filhos: Lucas, que não chegou a nascer, e Luize. A menina, de um ano e cinco meses, é classificada pela mãe como a "felicidade plena".

Saudável, carinhosa e sempre com um sorriso no rosto, foi ela que, como a própria Wecia diz, tirou a dor do seu peito. "Eu tive dois filhos. O Lucas existiu e existe na minha vida. Ele tem um lugar, não foi um feto perdido. E, com o livro, eu pari de novo. Por isso meu filho acaba estando vivo de novo, no sentido de que ele me trouxe experiências e sentimentos, inclusive de ressignificar meu olhar s obre a maternidade", frisa.

Para chegar ao livro, Wecia Mualem entrevistou mães de crianças com cardiopatias em tratamento no Instituto do Coração da Criança e do Adolescente (Incor Criança), em Fortaleza. No local, não foram poucas as vezes em que a psicóloga se pegou pensando que o seu filho poderia estar ali. Afinal, ela ia ao local apenas depois da morte do bebê, e aquelas mulheres, de certa forma, também estavam vivenciando um luto.

Não o da criança que falece, mas o daquela que é esperada com saúde e nasce com uma cardiopatia. "O coração é o centro da vida, dos afetos. Quando ele é atingido, tem sempre a ameaça de morte", compara. Às mães do Incor Criança e às que tiveram perda gestacional, a sugestão de Wecia é uma só. "Espero que elas possam pensar na frase do poeta Carlos Drummond de Andrade. Ele diz que "a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional".

A obra será lançada no próximo dia 18, às 19h30min, na livraria Oboé do Shopping Center Um, e pode ser adquirida no local, pela Editora da Uece ou diretamente com a autora, através do endereço eletrônico quandoumcoracaopulsaparadois@hotmail.com.

Espontâneo

"Na prática, o ideal é instituir o tratamento a partir da segunda perda"

"Quanto mais cedo a investigação, melhor será para a saúde física e mental do casal"

Dr. Marcelo Cavalcante
Mestre em Ginecologia e Obstetrícia

MARTA BRUNO
REPÓRTER

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