ATENÇÃO

Pequenos estressados

20:01 · 12.12.2009
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O ESTREITAMENTO DOS LAÇOS ENTRE PAIS E FILHOS É UM ANTÍDOTO PARA OS ESTRESSES QUE OS ATINGEM

As famílias brasileiras estão transformando suas crianças em pequenos adultos. Cada vez mais cedo, os filhos assumem responsabilidades; recebem a tarefa dos pais de serem os melhores em tudo; sentem o peso de problemas de gente grande e vivem sozinhos, desacolhidos pela ausência dos pais em casa.

O resultado disso são crianças estressadas. Engana-se quem pensa que o estresse é coisa de gente grande. Os pequenos são esponjas: absorvem tudo o que está à sua volta. E quando falha o filtro que deveria ser comandado pela figura dos pais, eles realmente sofrem.

A mudança de comportamento é o principal sinal de alerta. Na maior parte das vezes, conforme o médico pediatra Álvaro Madeiro Leite, doutor em Pediatria, essa noção de estresse está muito ligada à família e não existe propriamente condições biológicas, doenças que levem a isso. "Está mais relacionado ao modo de constituição das famílias, como elas podem se dispor para cuidar e dedicar-se aos filhos. O estresse na criança está ligado à não confirmação da sua condição de pessoa", destaca.

As manifestações do estresse infantil podem ser diferentes. Segundo o médico, nas crianças mais vulneráveis do ponto de vista socioeconômico o problema está ligado à falta de horizonte da família e da mãe. "É como se diz no imaginário: os pais são os heróis dos filhos. Imagine um filho pedindo um bombom ou um presente que os pais não podem dar. Depois de sucessivos pedidos e negativas, isso vai conformando as suas emoções, ao ponto de que ele emudece, não pede mais. Se tiver arroz, ele come; se não tiver, não faz diferença. Esse estresse é expressado pelo emudecimento, é o menino que não dá trabalho, sem demandas, sem desejo, é o menino que não tem força para fazer as coisas de crianças", explica o pediatra, o que esse emudecimento está mais próximo de uma tristeza profunda ou depressão.

Já outra situação, mais relacionada com a classe média-alta, é a da criança sem audiência, que não consegue ser ouvida. "Ela quer ter voz e a oportunidade de que alguém lhe diga o que pode ou não fazer. Como a criança não tem essa pessoa que lhe diga isso, fica perdida na dimensão de auto-controle, porque não sabe se conter", diz.

Uma manifestação disso, conforme Álvaro Madeiro Leite, é a hiperatividade. Uma parte dela, por exemplo, está ligada ao estresse de não ser escutada, de não ter um lugar na família. "Os pais, às vezes, têm um projeto de vida de ganhar dinheiro, trabalhar, estudar, etc, e os filhos ficam sobrenadando diante desse cenário. Que lugar essa criança ocupa na família? Essa criança rapidamente sente, pressente, o lugar que ela tem no desejo da mãe e que lhe está destinado".

A dúvida se está ou não dentro do "coração da mamãe e do papai" é algo que desestabiliza os pequenos. Para o pediatra, a insegurança que aflige a criança não se resolve através da fala, pelo mero dizer de palavras, mas pelos comportamentos dos pais. "Isso está na base da desorganização da sociedade. Crianças criadas desse jeito não têm autoestima, não se sentem capazes. O estresse se manifesta de uma série de outros mecanismos que não seja só gritando. Antes de ser uma doença biológica é, na maior parte das vezes, contextual, da família e da sociedade". Por outro lado, Dr. Madeiro destaca que alguns filhos são tão apoderados pelos desejos dos pais que não conseguem produzir os seus próprios desejos. E isso pode ser socialmente estressante.

"A criança nasceu para ser médico, dono da empresa, continuar o nome da família e, na verdade, ela quer dançar balé, ser cantor, ter uma banda de rock e a liberdade de produzir a sua vida". Uma boa parte da classe média, segundo ele, ocorre no equívoco de o filho ser a extensão de um desejo dos pais. "A família só desperta quando a criança está muito ruim, com mau desempenho escolar ou quando os pais começam a passar vergonha na presença de outros pelos chiliques e birras do filho", disse.

Fique por dentro

Preocupações de gente grande

Perder os pais é o maior medo de 98% das crianças brasileiras e a maior preocupação, para 96% delas, é conseguir um bom emprego. Estes são dados de pesquisa divulgada em novembro do ano passado que revelou que a criança brasileira é a mais estressada entre representantes de 14 países (Argentina, China, Dinamarca, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Japão, México, África do Sul, Suécia, Inglaterra e Estados Unidos). A pesquisa foi feita pelo canal televisivo de entretenimento Nickelodeon, com 2.800 crianças, na faixa etária dos 8 aos 15 anos.

Intitulada "Equilíbrio Emocional da Criança Brasileira: o que pensa, com que se preocupa, como age e o que espera do futuro", a pesquisa mostrou que 95% dos meninos e meninas entrevistados também disseram se preocupar em agradar aos pais, 88% em tirar boas notas e 66% se preocupam em não engordar. Além de assistir TV e ouvir música, 32% das crianças elegeram chorar como válvula de escape para o estresse.

O sentimento de segurança e o medo e como eles interferem na construção do comportamento dessas crianças, a relação com amigos, família e cultura, as expectativas de futuro, de oportunidade e o quanto elas são expostas e absorvem isso foram os principais assuntos abordados.

INDÍCIOS DE PROBLEMAS

Crianças até 5 anos:

Irritabilidade fora do normal;

Choro mais do que o usual;

Desejo de estar sempre nos braços;

Pesadelos e sono agitado;

Medos excessivos à escuridão, aos animais ou à estar sozinhos;

Mudanças no apetite;

Dificuldades na fala;

Retorno a comportamentos infantis já superados, como urinar na cama ou chupar o dedo;

Crianças entre 5 e 11 anos:

agressividade incontida;

choros persistentes;

NECESSIDADE de chamar atenção dos pais competindo com

outros irmãos;

dores físicas, como

de barriga, sem existir doenças;

afastamento dos colegas

irritação com pequenas coisas

Chiliques e agressões na rua

Foi exatamente quando o seu filho passou a superdimensionar pequenos problemas, ter crises de choro, lhe bater e xingá-la com palavrões em público que a empresária Antônia dos Santos percebeu que algo estava errado.

Na época, o garoto, que era o mais novo da família, tinha idade entre três e cinco anos. "Eu pensava que aquele comportamento estressado e sempre estourado fazia parte de sua personalidade. Ele tinha medo de ficar sozinho, se eu demorava para pegá-lo na escola, ele ficava ansioso; dava chiliques na rua com o menor de grau de insatisfação. Muitas vezes, por passar o dia fora de casa, cedia a muitas de suas vontades. Mas foi ficando insuportável, ao ponto de eu mesmo chorar com aquela situação. Foi quando pedi ajuda à pediatra e ela me questionou sobre uma série de reações que pensava serem normais", conta.

A empresária lembra que seguiu à risca as orientações da médica. Passou a dar muito mais atenção ao filho e detectou uma série de problemas que antes não conseguia ver e entender. "Ele era muito dependente da babá e esta o fazia ficar inseguro e com medo porque ameaçava ir embora se ele fizesse alguma coisa errada. Então, troquei a babá, passei a dar mais assistência, brincando, colocando rotina e fazendo coisas simples como acompanhar suas tarefas, e colocá-lo para dormir". A partir disso, Antônia colheu muitos avanços e hoje seu filho, que tem 10 anos, é muito mais tranquilo e seguro.

PAOLA VASCONCELOS
REPÓRTER

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