SUSTENTÁVEL

Passo a passo para um planeta saudável

03:48 · 16.10.2011
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Crianças ensinam aos pais atividades que criam nova forma de contato com o ambiente (muito além do consumo)
Crianças ensinam aos pais atividades que criam nova forma de contato com o ambiente (muito além do consumo) ( Francisco Viana )
Jogos e brincadeiras, convite à diversão das crianças nos ambientes naturais
Jogos e brincadeiras, convite à diversão das crianças nos ambientes naturais ( )
Crianças incorporam desde muito cedo a percepção de cuidado do ambiente e preservação

Educação vem do berço, costuma-se dizer. No entanto, informação, conhecimento e reforço são sempre importantes andarem juntos em prol de uma causa maior, como a preservação da natureza e manutenção de um meio ambiente sustentável.

Os ecos da ecologia ainda ressoam nestes tempos em que o selo verde aparece como um luxo, embora se fixe mais no campo da necessidade de um c cuidar preciso, em um viver impreciso.

A questão é como modificar comportamentos já tão arraigados, como compras por impulsos, aquisição de produtos com embalagens que contenha materiais que necessitam de proposta reciclável, uso contínuo de sacolas plásticas e muitos outros problemas que são oriundos da falta de consciência de consumo.

Transdisciplinar

A disciplina que envolve uma visão mais abrangente e conectada com a realidade múltipla e complexa em que vivemos faz parte da educação para um ser humano mais consciente. Conforme a Fátima Limaverde, diretora da Escola Vila, uma das poucas do país voltada para a educação transdisciplinar, antes de qualquer pensamento, é essencial e necessário se observar o humano de cada indivíduo como um ser no social. Com isso, se ressalta na educação os valores e qualidades, a começar pelos princípios que é da autoconsciência e autoresponsabilidade. Disso, vem a consequência, ou seja, o respeito por tudo e todos que nos cercam.

Fátima fala dos quatro projetos desenvolvidos pelos professores, alunos e respectivos pais, na Vila, que no final deste ano completará 30 anos de atividades. O primeiro deles, realizado no início de cada ano, envolve o estudo em todas as disciplinas (com vivências específicas) do "Ser na totalidade". Além dos alunos aprenderem os conteúdos de forma contextualizada, também entende sua aplicabilidade. O viés transdisciplinar permite isso.

Neste ponto, estuda-se os valores humanos, os quais refletem com o respeito ao idoso, culminando com a celebração do Dia do Idoso (27 de fevereiro). O resultado sempre é muito interessante, revela Fátima, pois os netos passam a respeitar mais os avós e integrarem de forma ativa as campanhas de solidariedade. Os pais vão com seus filhos visitar os lares de idosos, todos colhendo ricas experiências.

Em um segundo momento, os estudos se voltam para o "Ser na descoberta", com as crianças e adolescentes estudando os povos e suas raízes, indígena, negra, branca (europeia). Culmina no Dia do Índio (19 de abril). A relação social os levam a mudar sua postura com um maior engajamento com a comunidade.

A proposta desses projetos, explica a educadora, é sair dos muros da escola e interagir. O que ocorre também com o terceiro projeto que é o "Ser natureza", que culmina no dia 5 de maio (Dia do Meio Ambiente). A escola toda se mobiliza para sensibilizar as pessoas e a própria natureza, seja visitando parques, praias e dunas.

Por fim, o "Ser na tradição" levanta todas nossas tradições (povos índio, negro, branco) e toda recuperação dos costumes, crendices, folclore, brinquedos e cantigas. 22 de agosto este tempo conclui com o Dia do Folclore.

O final dessa trajetória do projeto "O ser na totalidade" é a unidade "Cuidando do planeta", que ocorreu recentemente, na própria escola, com o empenho das crianças como "Vigilantes do planeta" na construção de um mundo melhor.

Rono Lima Cruz, professor de Ciências da Vila revela que neste momento todas as crianças participam. As do sexto ano, visitam Ongs, propagando os seus recursos para o ambiente natural. Os alunos do sétimo ano se envolvem com a política e os políticos. No oitavo ano checam para onde vão nossos impostos. E nono ano, os adolescentes têm noções de economia. A consciência ecológica anda lado a lado com a noção de cidadania, diz Rono. Também deve-se pensar o quantos anotes em uma política para o consumo consciente (seja em um modelo energético viável, como aprendendo a fazer uma lâmpada natural com garrafa pet, que transmite a luz do sol quando este bate na peça). Além disso, há a experiência do forno solar, sem o uso de qualquer elemento não natural.

As crianças do oitavo ano do ensino fundamental aprenderam a fazer sabão com óleo de frituras e ficaram radiantes. Cada experiência dessas é devidamente passada para seus pais. E, da série seguinte, realizam ampla pesquisa sobre o lixo tóxico.

Moeda solidária

É prática da Vila ensinar a economia solidária aos alunos. Com isso, diz Rono Cruz, desde muito cedo os pequenos aprendem a trocar o que não usam por outros objetos em bom estado e também úteis. Todos os meses, informa, roupas, brinquedos e toda sorte de objetos são trocados por uma moeda (não importa o valor, todas as peças valem uma moeda). Por meio dessa atividade, se desperta os alunos para atividades possíveis para conseguirem evitar o consumismo.

Os jovens Eugênio Soares e João Antônio Guerra Cardoso, ambos de 13 anos, são amigos desde pequenos e estudam juntos, embora cada um tenha desenvolvido com outros colegas de turma do oitavo ano da escola Vila atividades no sentido de cuidarem do planeta. Eugênio ajudou na construção de uma casa de barro para os pássaros e João ainda está envolvido na construção de um minhocário.

Fique por dentro

Complexidade

Abordagem científica que tem como objetivo a unidade do conhecimento, a transdisciplinaridade incitou os estudiosos a buscarem nova compreensão da realidade por meio da articulação de elementos (visíveis, conhecidos ou não) passando entre ou através das disciplinas. Em essência, esta forma de contextualizar o conhecimento visa a compreensão da complexidade inerente à vida e todas as coisas.

Oriundo do entendimento da complexidade no conhecimento inicialmente pelo educador francês Jean Piaget, o conceito de transdisciplinaridade é hoje um dos mais complexos e, por isso mesmo, um dos mais estudados em âmbito global.

No Brasil, a transdisciplinaridade vem invadindo espaços do ensino fundamental às universidades, uma vez que busca uma interação máxima entre as diversas disciplinas, respeitando a essência e particularidade de cada uma. Vale lembrar que este enfoque não significa apenas buscar um pensamento organizador que ultrapassa as disciplinas ou um domínio sobre as mesmas, mas a abertura de todas àquilo que as atravessa, indo sempre além.

Para alcançar a transdisciplinaridade é essencial haver um pensamento organizador (complexo) o qual tem como meta essencial não adicionar os conhecimentos, mas sim organizar todo o conhecimento conquistado com vistas a criar uma meta/ponto de vista, que está além da mera perspectiva humana.

Experiências naturais

Apreciação estética: (chamar pássaros, expandiar a consciência, ver pôr do sol);
Assimilação: de novos fatos (jogos dos animais, brincadeiras, corridas);
Concentração: atividades com olhos vendados, passeio de reconhecimento;
Empatia: pássaro no galho, escutar a batida do coração da árvore, faz de conta;
Medo: superação, estar sozinho, enfrentar a escuridão, microexcurssão, o mundo à noite;
Imaginação: passeio da lagarta, janelas da terra, encontrar a árvore;
Memória: movimento dos animais, jogos com eles, duplicação, brincadeiras;
Interação na natureza (expandir a consciência, caminhada silenciosa);
Silêncio e solidão: (caminhada silenciosa, escutar os sons, janelas da terra);
Reforço social (poema dobrado, compartilhar seu lugar)

A natureza como fonte de inspiração

"A indescritível beleza de uma flor. A graça de um pássaro voando alto. O som do vento nas árvores. Em algum momento de nossas vidas, a natureza nos toca a todos de alguma maneira pessoal e especial. Seu imenso mistério nos revela um pouco de sua pureza, e nos faz lembrar de uma vida que é maior do que os pequenos afazeres humanos".

Joseph Cornell, um dos principais educadores naturalistas, nunca subestimou o valor desses momentos de comunhão com a natureza. Percebeu que cada um deve aprofundar sua percepção até que ela se torne uma compreensão essencial sobre o lugar de cada um no planeta Terra.

Cornell passou anos pesquisando e desenvolvendo jogos, em seu trabalho com crianças, no sentido de que percebessem e vivenciassem os ambientes naturais e apreciassem isso.

Em sua obra "Vivências com a Natureza" (Editora Aquariana), ele revela a importância de mostrar desde cedo às crianças e jovens que a natureza pode ser uma fonte de inspiração constante, pois ela é a Mãe e seus ensinamentos são valiosos.

Experiências

Procura passar como desenvolver experiências alegres e divertidas nesses ambientes naturais. Embora algumas pessoas sejam mais racionais e lógicas, todos podem se tornar mais sensíveis à beleza e à harmonia, diz Joseph Cornell. Os jogos naturais (ele propõe 50 jogos) procuram criar uma situação ou uma experiência na qual a natureza é a real educadora. "Cada jogo é a língua mediante a qual a natureza fala, às vezes a linguagem do cientista, outras vezes, do artista ou do místico", escreve.

A proposta é entrar em harmonia com o ambiente natural nos níveis físico e emocional. E se alcançar uma atmosfera de tranquilidade e contemplação. Lembra que tranquilo e contemplativo não significam monótonos, e sim experienciar atenção calma e intensa, de forma que as lembranças permaneçam nas mentes no decorrer de vários anos.

ROSE MARY BEZERRA
REDATORA

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