ARTISTAS

Parar é arte e convívio

20:59 · 10.02.2011
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São mágicas as ruas da cidade. E misteriosos os artistas da rua. No olhar do poeta Diogo Fontenele, esses artistas "hora são crianças vestidas de fera, hora são feras vestidas de criança", perplexidade que desnuda no poema "Que espetáculo é esse?", mais conhecido depois de musicado pelo compositor Pingo de Fortaleza.

Difícil contemplar a vida sem se dar a esse luxo de parar, diria o poeta. Impossível se renovar e criar o novo, sem parar, confirmariam outros tantos artistas.

Todos são ávidos pelo encontro com o outro. Este outro, só visto quando se dá a permissão de parar e conhecê-lo mais de perto. Mesmo que de início haja um estranhamento frente a o desconhecido, comenta a professora e atriz performática (performer), Elenora Fabião.

Teórica da performance, Fabião, que mora em Nova Iorque, esteve no Ceará em outubro do ano passado, a convite da Bienal de Dança, de Par em Par. Na ocasião, ela prosseguiu suas ações performáticas nas ruas já realizadas em outros grandes centros urbanos, como em 2008 (no Rio de Janeiro e Berlim) e 2009 (em Bogotá).

Para quem já participou do Centro de Demolição e Construção do Espetáculo, não é complicado interagir nas ruas com as populações de qualquer parte do planeta. É só parar e levantar alguma proposição, indo ao encontro desse outro.

Fabião comenta que cada vez que executa uma performance na rua, este momento é único e surpreendente. "Em cada um desses encontros, há a possibilidade de conhecer não só pessoas mas os aspectos bons e inusitados que as cidades têm". Observa que muitos sequer caminham, habitam ou permanecem nos espaços urbanos. Fecham-se em seus casulos sem olhar nem o céu ou seu entorno. E acusam os poderes públicos por esse estranhamento do próprio mundo.

A performer sabe a necessidade de sensibilização de quem comanda os interesses públicos no sentido de estimular mais o convívio. Algo simples, que crie condições de se recuperar a essência do humano, a convivialidade.

Convivência e crescimento

Foi com o espírito do convívio, durante uma semana, que levou a performer a criar ações em locais de grande trânsito de pessoas (como as praças José de Alencar, do Ferreira, da Lagoinha) ora com uma placa com os dizeres "converso com qualquer pessoa sobre qualquer assunto", ora com outra "troco tudo", retornando até com a roupa do corpo trocada com visitantes de uma feira livre, em interação harmoniosa com esses habitantes.

Em meio à sociedade da pressa, a psicóloga Fabiana Lira se permitiu também ir ao encontro do convívio. Em seu caso, os pescadores de Cumbuco, quando estudou a expressão do convívio desses artesãos de vida simples com o mar e sua gente. Mesmo diante de um local onde há intensa indústria do ócio e do turismo, essa comunidade pesqueira revelou à pesquisadora a força de sua resistência e seu modo de vida, perpassado por valores de solidariedade e espírito coletivo.

Fique por dentro
A vida não vivida

Todas dimensões da vida que são postas de lado, lançadas ao sótão da alma, em um certo momento seguirá ao nosso encontro como um fantasma, exigindo reconhecimento e integração.

Excluir aspectos que nos são tão necessários é um equívoco e também promove um grande risco. É o que sinalizam dois analistas junguianos, Robert Johnson e Jerry Ruhl, na obra "Viver a Vida Não Vivida (Editora Vozes).

Ao se encontrar doente ou deprimido na meia idade, com ódio do cônjuge, do trabalho, da própria vida, o sinal é bem claro para Johnson e Ruhl "é a vida não vivida batendo à nossa porta, buscando atenção". E as sensações são desagradáveis mesmo: agitação, sentimento de vazio interior, tédio, fracasso, desnorteamento, esgotamento no trabalho, enfim, é um grande chamado da vida não vivida para um urgente envolvimento com ela.

Sufocar os sentimentos não resolve, nem meditar, seguir uma religião, adquirir ou fazer algo para escapar. A parada é obrigatória para viver todo o seu ser.

O que há para ler

A essencial arte de parar
, Dr. David Kundtz (Sextante)

A economia do ócio, Domenico de Masi (Sextante)

Viver a vida Não vivida, R. Johnson e Jerry Ruhl (Vozes)

O Ócio Criativo, Domenico de Masi (Sextante)

Devagar, como um movimento, Carl Honoréi (Record)

Ócio para viver no Século XXI, orgs. Manuel Cuenca Cabeza e J. Clerton Martins (As Musas)

Ócio Criador, Trabalho e Saúde, V. Salis (Claridade)

MAIS INFORMAÇÕES

http://www.slowfoodbrasil.com;

www.slowplanet.com/blog/home;

http://www.slowsociety.org;

http://www.cittashow.net/

http://www.laboratoriootium.blogspot.com;

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