IDOSO

Paciência, respeito e sensibilidade

20:07 · 07.05.2011
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O fenômeno da longevidade promove significativas modificações na estrutura familiar. Mudanças no padrão de convivência entre avós e netos é uma delas
O fenômeno da longevidade promove significativas modificações na estrutura familiar. Mudanças no padrão de convivência entre avós e netos é uma delas ( FOTO: ARQUIVO )
Aumento da longevidade cria novas dinâmicas no âmbito do cuidar do paciente idoso

O cuidador de um idoso dependente nem sempre escolheu ser cuidador. Isso porque, explica Luciane Ponte, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (Asbraz-CE),a tarefa de cuidar implica em múltiplas demandas instrumentais, cognitivas e emocionais. Em se tratando de cuidar de um idoso demenciado, "a sobrecarga do estresse pode gerar reações negativas, fisiológicas ou emocionais, que podem culminar com um aumento no risco potencializar problemas físicos e mentais", informa a neuropsicóloga.

Família cuidadora

A família é a fonte de atenção mais importante no Brasil. Para cuidar de um parente idoso depende é preciso poder contar com uma rede informal de apoio constituída normalmente por filhas, cônjuges, outros parentes ou amigos. "Embora a maioria desses cuidadores não tenha uma formação específica para a tarefa, normalmente, há uma genuína disposição em prestar o melhor cuidado possível", enfatiza Luciane Ponte.

Mas para exercer plenamente tal missão, o cuidador tem que zelar pela própria saúde física, manter atividades de lazer prazerosas e, principalmente, fortalecer sua rede de relações sociais.

Embora a família seja ainda o primeiro recurso, é visível a necessidade de mudança na dinâmica em função do aumento da longevidade (o Ceará ocupou, em 2008, a 10ª posição no ranking dos estados com maior número de idosos). "Assim, para dar suporte aos idosos tem sido preciso pensar em novos arranjos, reavaliar funções, valores e vínculos afetivos", destaca a psicóloga Vanessa Picanço Coelho, diretora do Home Angels (serviço que encaminha profissionais para acompanhar o idoso em domicílio), com sede em Fortaleza.

Segundo Vanessa, é preciso resgatar conceitos como compaixão, solidariedade, além de encontrar soluções criativas para lidar com os diversos tipos de problemas enfrentados no processo de envelhecimento. É neste contexto, observa, que se destacam mudanças nos padrões de convivência entre avós e netos. "Os novos avós assumem, ativamente, responsabilidades perante a família, o que possibilita um lugar de importância dentro da dinâmica familiar. Há famílias em que tataravós, bisavós, avós, netos e filhos interagem, proporcionando a possibilidade de restabelecer novas compreensões para a construção do curso de vida de todos os envolvidos".

Na busca por serviços especializados como o Home Angels, Vanessa Picanço diz que tem sido observada "uma maior demanda dos idosos tem sido por companhia e atenção. "Os idosos que buscam o nosso serviço apresentam um elevado grau de dependência, uma vez que muitos necessitam de ajuda para realizar as atividades básicas (alimentação, banho, administração de medicamentos, apoio para caminhar, etc).


DEMANDA

"Temos observado que a principal demanda do idoso é por companhia e atenção"

Vanessa Picanço Coelho
Psicóloga, Diretora do Home Angels


"A tarefa de cuidar do idoso demenciado implica em múltiplas demandas"

Luciane Ponte
Neuropiscóloga, Presidente da Associação Brasileira de Alzheimer-Ce


Missão: amor

No âmbito da ABRAz, "a missão do cuidador é fundamentada no amor e no sentimento de realização, companheirismo e de ter um papel na educação das novas gerações como exemplo do cuidar de um idoso (condição inerente à cada um de nós). Essa dimensão sobrepõe aos aspectos negativos associados ao ato de cuidar, argumenta a presidente da Abraz-Ceará.

Entre as competências pessoais importantes para quem exerce o papel de cuidador (principalmente do idoso dependente) estão: paciência, respeito, sensibilidade, calma em situações críticas. É igualmente essencial manter o otimismo mesmo em condições adversas, assim como auto-conhecimento para lidar com sentimentos negativos e frustrações. Ter consciência sobre a importância em buscar informações e orientações técnicas é outra atribuição do cuidador, seja ele familiar ou formal.

Todo cuidador, em algum momento, devera passar por momentos de completa exaustão, desesperança e estresse. Afinal, cabe a ele lidar com mudanças que fazem parte do processo de envelhecimento, incluindo ai as características de personalidade da pessoa que envelhece, assim como a própria percepção que a pessoa tem do seu envelhecer.

Dra. Luciane Ponte lembra que muitas vezes essa condição pode ser expressa em um comportamento mais intransigente e irascível, que aliado a mudanças físicas naturais (padrão de sono, alimentação, etc) tendem a estressar o cuidador de idosos. "No caso do idoso demenciado, esse cuidado torna-se ainda mais estressante por ser uma patologia que pode ocasionar significativas mudanças comportamentais". Na verdade, não há apenas uma intensificação de características já expressas pela pessoa ao longo da vida, mas sim, muitas vezes, uma mudança que se reflete em comportamentos socialmente inadequados e extremamente perturbadores para os familiares, bem mais do que a deterioração cognitiva que caracteriza um quadro demencial. Nas reuniões dos grupos de apoio, na prática clínica e na literatura especializada há a percepção de que as mudanças comportamentais são as maiores fontes de estresse para o cuidador e a família.


PRESENÇA

11%
da população cearense é formada por idosos, segundo análise feita pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará. O Estado ocupava a 10ª posição em número de idosos.


Cuidadores formais

É crescente a necessidade de cuidadores formais. Segundo a neuropsicóloga Luciane Ponte, nos últimos anos, "essa nova realidade vem criando uma visível consciência, por parte dos familiares, quanto a necessidade de se ter um cuidador formal para que a família possa estar segura por prover esse familiar com o melhor cuidado possível", afirma Luciene Ponte.

Além das reuniões realizadas toda última quarta-feira do mês, a Abraz/CE promove cursos de formação de cuidadores a cada semestrais (em junho e outubro), e em curtos períodos (fim de semana). O objetivo é capacitar o familiar para lidar melhor com seu cotidiano, provendo informações sobre o Alzheimer e a evolução da doença, assim como orientações para se lidar com as necessidades diárias do idoso demenciado (alimentação, comunicação, higiene, mobilidade, alterações comportamentais). A Abraz-CE também auxilia a família a integrar uma rede de apoio visando a troca de experiências e, com isso, desenvolver o espírito de solidariedade e reduzir a sensação de isolamento, condição comum ao cuidador familiar ou formal.

Está comprovado que para cuidar do idoso não basta apenas ter experiência prática; é importante que o cuidador saiba o que está realizando suas tarefas da melhor forma possível. No Ceará, cursos para formação de cuidador de idosos também são ofertados por instituições como a Escola de Saúde Pública e a Associação Cearense Pró-Idoso.

MAIS INFORMAÇÕES

Home Angels: (85) 41414618;
central-fortaleza@homeangels.com.br

Abraz-CE: (85)32533929; abrazregce@yahoo.com.br


ENTREVISTA

Como devem ser os cuidados de cuidadores e pais no primeiro ano de vida

Qual a importância da preparação física e psicológica da mulher para a chegada de uma criança? 

Ocasiona mudanças para toda a família, trazendo um turbilhão de dúvidas para os pais.  "Será que vou saber cuidar do bebê? Vou conseguir amamentar? E quando voltar ao trabalho, onde e com quem vou deixar o bebê?"  Aos poucos, essas dúvidas são dissolvidas nos primeiros momentos de adaptação. O apoio dos familiares e do companheiro são de grande importância para a mãe, que passa por um período de instabilidade emocional. Já o preparo físico da mulher  deve começar bem antes da gravidez e vai desde os exames, vacinação  até tratamentos para se manter o organismo saudável, permitindo uma gestação segura para a mãe e para a criança. O reforço da musculatura também é importante para o momento do parto, visando a recuperação do peso no pós parto, assim como a amamentação e os cuidados do recém nascido.   

Depois do parto, como as mães lidam com esse cuidado?  

Nos primeiros dias o que se observa é a insegurança com a amamentação. Não conseguem compreender todos  os motivos de choro da criança, o que lhes leva a pensar que tudo é fome. O leite materno tem inúmeros benefícios além do reforço do vínculo mãe-filho,  a prevenção de doenças,  a boa nutrição (para prevenir a obesidade  infantil) e alergias alimentares. Existem dúvidas em relação ao banho, aos produtos que devem ser usados, a higiene, vacinação e sobre os exames a serem realizados, como os testes do "Pezinho", do "Olhinho" e o da "Orelhinha". Todas as crianças devem realizar esses exames no 1° mês de vida. É essencial a visita ao pediatra entre o 7º e o 10º após o nascimento do bebê.

Por trabalharem fora, muitas mães deixam os filhos aos cuidados de terceiros.

A criança é um ser em desenvolvimento e capaz de se adaptar a situação que lhe é imposta. Se ela passa o dia com o cuidador mas, quando os pais estão presentes lhes oferecem carinho e atenção, mesmo que por pouco tempo, não se observa tanta mudança no comportamento delas, pois são capazes de perceber o ciclo diário e aos poucos constatam que os pais se ausentam mas que retornam. Se o cuidador atende às necessidades da criança e  cuida dela  adequadamente, sem causar-lhe situações de sofrimento, é perfeitamente possível a conciliação do trabalho com a maternidade, sem sofrimentos para ambas as partes.


Jocélia Bringel
Pediatra neonatologista, professora da UECE


GIOVANNA SAMPAIO
EDITORA

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