Higiene íntima da mulher

Entrevista com a Dra. Danielle Sá

21:30 · 09.04.2011

Entrevista com a Dra. Danielle Sá (Ginecologista/Obstetra)
Mestre em Ginecologia pela Unicamp P
Professora do Curso de Medicina/Universidade de Fortaleza (UNIFOR)

1.O desconhecimento da mulher acerca do próprio corpo e da higiene íntima ainda é muito comum? Por quê?

R: Sim. As mulheres ainda têm muito pudor em observar, tocar e conhecer o próprio corpo, principalmente os órgãos genitais. A vagina ainda é vista como um local obscuro, desconhecido, até um pouco sujo... E isso interfere na forma como deve ser realizada a higiene íntima.
 
2.Como observa os muitos casos de doenças em função da má higienização? Quais as mais frequentes?
 
R:
A questão da má higiene feminina passa tanto pela falta de higiene como pelo excesso... É comum em crianças e adolescentes observar corrimento vaginal decorrente da contaminação da vagina por fezes,visto que muitas vezes esse grupo de pacientes realiza a higiene íntima de forma incorreta ou pouco frequente. Por outro lado, existem pacientes tão preocupadas em ?limpar? a vagina que exageram no uso de produtos de higiene e eliminam a flora vaginal normal acarretando o surgimento de doenças como a candidíase e a vaginose bacteriana.

3.Quais sinais podem evidenciar tais doenças?

R: A presença de secreção vaginal em maior quantidade, prurido(coceira), vermelhidão ou odor desagradável são alguns dos sinais que podem estar presentes.

4.Quando o corrimento vaginal deve ser motivo de preocupação?
 
R:
O corrimento vaginal deve preocupar quando a quantidade estiver aumentada, coloração muito amarelada ou esverdeada, com odor desagradável ou se estiver associado a dor ou
sangramento durante as relações sexuais.
 
5.Quais cuidados a mulher deve ter ao usar banheiros públicos?
 
R:
Muitas das bactérias e vírus não sobrevivem por muito tempo no ambiente, sendo então a transmissão pouco frequente. Mas é importante, como não sabemos como e com que frequência é realizada a limpeza desses locais, evitar o contato com aparelhos sanitários onde existam secreções visíveis. Se possível, colocar papel na superfície do vaso sanitário para evitar o contato direto com o mesmo.
 
6.Durante o período menstrual, a mulher deve tomar quais cuidados especiais? Qual a frequência para a troca dos absorventes íntimos?
 
R:
O período menstrual como se associa ao uso de absorventes, com maior umidade e abafamento da região genital, pode favorecer a ocorrência de infecção por fungos como a candidíase. É interessante o uso de absorventes que esquentem ou abafem menos a região e realizar a troca a cada 2 ou 3 horas, principalmente de forem absorventes internos (tipo OB).

7.É a favor do uso dário de protetores de calcinha?

R: Os protetores diários por serem menores e finos, deveriam ser usados somente quando o fluxo menstrual fosse escasso, mas infelizmente muitas mulheres atualmente os utilizam de forma rotineira. Já vivemos em uma cidade de clima quente, muitas vezes utilizando calças de tecido grosso como jeans, com calcinhas de tecido sintético, que já esquentam muito a região genital... Com os protetores diários esse aumento da temperatura na região genital é ainda maior o que muitas vezes favorece a ocorrência de infecções. Dessa forma, o ideal seria que as mulheres trocassem mais vezes as calcinhas e deixassem os protetores para situações excepcionais como uma viagem ou outra situação onde essa troca é impraticável.

8.E quanto ao uso de sabonetes anti-bacterianos? Eles realmente são indicados em quais casos?
 
R: A higiene íntima feminina pode e deve ser realizada com água e qualquer sabonete com pH neutro. Não são necessários sabonetes específicos, mas se a paciente deseja utilizar deve fazê-lo com cautela, no máximo duas vezes ao dia. O uso excessivo de sabonetes íntimos pode acarretar alteração na flora vaginal normal com surgimento de irritação e/ou corrimento vaginal.

9. Quais cuidados especiais devem ser observados pela gestante?
 
R: Durante a gestação há um aumento da secreção vaginal e a gestante deve estar ciente disso. Ocorre também uma diminuição da imunidade o que pode favorecer o surgimento de infecções por fungos, por exemplo. Mas tanto na gravidez como no pós parto a higiene pode ser realizada da mesma forma, tomando cuidado para manter sempre limpas a ferida cirúrgica, no caso do parto cesárea e a episiotomia nos partos normais.Sem medo de tocar esses locais e lavando bem com água e sabão.
 
10.Após a relação sexual, a mulher deve se preocupar em fazer a higienização imediata?
 
R: Além da higienização no momento em que a mulher achar oportuno, é importante urinar após a relação sexual. O ato sexual leva bactérias da vagina para a uretra (canal urinário) e isso pode favorecer a ocorrência de infecção urinária(cistite), principalmente em mulheres mais suscetíveis.
 
11.Quanto à depilação? É indicada ou pode ser prejuidicial? 

R: Os pêlos pubianos são uma proteção para a região genital, mas a depilação pode ser realizada desde que em boas condições de higiene. Se forem utilizados barbeadores, estes devem ser novos e se for utilizada cera, o material deve ser descartável. Caso contrário, podem ocorrer inflamação ou infecção local como a foliculite.
 
12.Deve haver uma preocupação com a lavagem das roupas, principalmente das calcinhas?
 
R: As calcinhas devem ser lavadas, de preferência, separadas das outras roupas e secas em ambiente arejado. Não devem ser utilizadas se estiverem úmidas.As calcinhas de algodão são as ideais para o uso diário. Evitar o uso frequente e prolongado de calcinhas de tecidos sintéticos como a lycra.
 
14.Quais prejuízos resultam do uso (durante todo o dia) de roupas de banho (biquíni)?
 
R: Permanecer o dia inteiro de biquíni, principalmente de estiver molhado, associado ao clima quente pode favorecer a ocorrência de infecções fúngicas, levando ao aparecimento de corrimento vaginal com coceira, ardor e irritação local.
 
15. A mulher tem que tomar quais cuidados ao sentar e tomar banho em certos lugares?
 
R: A transmissão por fômites (objetos), principalmente se a mulher estiver vestida é pouco frequente. Quanto ao banho, se realizado em piscinas ou banheiras, com boa higiene e água tratada adequadamente, geralmente não trazem problemas à saúde.

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