josé clerton oliveira martins

Ócio é uma experiência gratuita e necessária

00:00 · 30.12.2013
A educação contemporânea sonega o direito ao ócio, privando crianças e jovens de um futuro de livre pensar

Como empregar os princípios do ócio em uma realidade de estímulos e condutas de excessos?

Para que o ócio possa fazer sentido na vida é necessário que a palavra (ócio), assim como seu valor advindo da ´experiência de ócio´ em si, faça parte do sujeito. Caso contrário, a palavra e tudo que ela convoca fica no sentido comum de sua aplicação (como é o corrente). O tempo contemporâneo nos tira de nós mesmos, fazendo com que o externo nos devore (festas, presentes, comida, luzes, letreiros, promoções). Mas, paradoxalmente, nos leva a questionar ´qual nosso lugar´, porque somos tomados, arremetidos a toda essa parafernália de ´convocações´ e qual o sentido disso tudo. Quando nos voltamos para nós mesmos, verificamos o sentido de estar sendo arrastados pelo furacão do todo que invade a existência mais íntima e o desejo de retomar-se no seu ritmo, no seu tempo, com o que nos é mais inerente: o desejo de distanciar-se do todo e aproximar-se de si e dos seus. É quando se convoca um tempo mais acorde com o todo. Ainda que muitos não tenham se dado conta, esse tempo de gestão autônoma (elaborado por si, junto a uma experiência mais "presentificada de si") é o lugar da experiência de ócio.

"A experiência de viver está repleta de experiências", afirma José Clerton Martins, doutor em Psicologia e coordenador do Laboratório de Estudos do Ócio, Trabalho e Tempo Livre, da Universidade de Fortaleza (Unifor) FOTO: AGÊNCIA DIÁRIO

O atual estágio civilizatório é caracterizado pelo que Lipovetsky (2007) denomina de hipermodernidade, de expressões que advêm da dimensão hiper, tomada como um registro da cultura do excesso própria da contemporaneidade. Observa-se certa urgência por parte da sociedade - marcada pela aceleração temporal e uma realização pessoal individualista - sendo o consumo sua característica mais destacada. Neste contexto, convém situar as possibilidades e os encaminhamentos de nossos ócios, lazeres e tempos livres.

Como o consumo é elaborado neste contexto?

Não se trata apenas do ´consumo nosso de cada dia´, atividade corriqueira que possui intrínsecas relações com o fato de precisar se manter (existir/viver) no sistema capitalista. O consumo a que o autor (Lipovetsky) se refere é o que demarca nosso tempo: o consumo elevado ao extremo, sugerido pelos termos exagero e excessivo. Pensar o tempo livre volta-nos para o fenômeno da pressa. E, para compreender melhor este conceito, convém refletirmos sobre o apressamento dos ritmos sociais. Para isso, apropriamo-nos das reflexões de Beriain (2008), que aponta a aceleração social como produtora do ritmo da hipermodernidade, que conduz seus sujeitos a uma arritmia, capaz de transformar o presente na única dimensão temporal possível.

Até onde a pressa compromete a qualidade de vida?

O autor espanhol Josetxo Beriain (2008) afirma que no tempo social tomado pela ideia de aceleração, procura-se viver o máximo de experiências simultaneamente, o que acarreta o empobrecimento destas experiências e o aumento da vida nervosa, manifestado pela ansiedade, o estresse e a fadiga no trabalho. Mesmo com a presença de aspectos que limitam ao sujeito um usufruto do tempo livre com mais autonomia, podemos refletir (Lipovetsky (2007)), que o ser humano ainda aspira a conciliação da vida profissional e a individual.

Até que ponto as palavras explicam e traduzem valores éticos que aferem significados aos conceitos?

Nesta perspectiva, as palavras produzem sentido, criam realidades e, às vezes, funcionam como potentes mecanismos de dominação, criando/reafirmados valores, leis e teorias que perpassam todo o corpo social, segundo nos ensina o professor da Universidade de Barcelona Jorge Larrosa, (2002). Assim, não se pensa a partir de uma genialidade ou uma inteligência, mas a partir das palavras que carregamos em forma de valores (estes valores nos elaboram como indivíduos pertencentes a um grupo sociocultural). Se nos tornamos sujeitos ou ´assujeitados´ de nosso tempo, a questão é que, bombardeados de informações e com pouco tempo disponível para elaborar nossa sabedoria, vamos sobrevivendo em uma existência mais condicionada a atender demandas externas do que internas (uma existência mais voltada ´para fora´ do que ´para dentro´). Assim, o pensar não é somente argumentar ou calcular, mas, sobretudo, dar sentido a si e aos fenômenos que acontecem na realidade - e esta elaboração está relacionada com as palavras, pois pensar, refletir, é um processo que advém a partir destas. Basta pensar em afirmações como: "O ócio é o pai de todos os vícios"; "O ócio é a oficina do diabo". E aí temos mostras de como palavras e sentidos podem nos levar a conceitos, as vezes, apreendidos de forma a generalizar crenças, reafirmar valores que integram códigos maiores que mudam, como a cultura, mas que sempre se direcionam a um fim.

Usufruto do tempo livre: vivemos em uma época marcada pelo vazio existencial e pela pressa, em que não há tempo para o sujeito entrar em contato consigo mesmo, sem que isso seja considerado improdutivo para a sociedade FOTO: AGÊNCIA DIÁRIO

Como devemos treinar e nos comportar para tornar nosso dia a dia mais ameno e produtivo?


Na verdade para isso não há uma receita. No entanto, o homem consciente de si e de seu lugar no mundo, busca valores que possam colaborar com sua elaboração. Assim, quando mais se tem acesso ao que nos é inerente, mais responsável pela nossa busca de uma vida feliz somos. Tomado pelos valores do mercado, do consumo, vamos encontrar talvez o sucesso material que não é um passaporte para realização integral, mas da parte que se volta para o externo. Ao pensarmos no sujeito total e suas implicações existenciais, a busca interior e o conhecimento do uso do tempo em prol de si e da própria vida parece ser o que oferece algo mais duradouro.

Em qual sentido a educação contemporânea costuma sonegar o direito ao ócio?

Observamos que as escolas tendem a preparar a criança para a importância da profissão e do trabalho no futuro (sob o ponto de vista do mercado, das tendências, etc). Preparam crianças e jovens para a vida adulta moldada pelo trabalho, mas não para e pelo ócio, a partir de seus talentos, um fator de vital para a edificação de um indivíduo equilibrado. Isso porque a escola está profundamente demarcada pelo paradigma da produção industrial, afirmando que o trabalho é a atividade social dominante e determinante da configuração sociocultural. O aspecto educativo se volta para a qualificação do trabalhador, mais dirigido para a questão de execução de tarefas, o que limita seu potencial criativo, submetendo-o ao cerceamento de suas possibilidades, toldando-as de acordo com esta ou aquela função laboral. Russell em seu tempo já criticava a concepção estritamente utilitária de educação, afirmando que a mesma ignora as necessidades reais dos sujeitos e que a formação do conhecimento ocupa-se em treinar os indivíduos com meros propósitos de qualificação profissional - esquecendo os pensamentos e desejos pessoais, levando-os a preencherem boa parte de seu tempo livre com temas amplos, impessoais e sem sentido aparente, voltados mais para o interesse imediato.

GIOVANNA SAMPAIO
EDITORA DO VIDA

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