Saúde e Doença

O valor dos vínculos

22:20 · 28.05.2011
Um provérbio africano traz uma imagem forte para nossos dias: "Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá acompanhado".

Dois estudiosos do comportamento humano, o psicólogo John Cacioppo e o editor científico, William Patrick, abrem com esta citação a obra "Solidão", recém-lançada pela Editora Record. A partir de diversas pesquisas científicas realizadas nos últimos anos, eles mostram como a necessidade de vínculos sociais se encontra na natureza humana.

A dor do isolamento, vivenciada nas sociedades contemporâneas, fundadas no individualismo extremo, conforme Cacioppo e Patrick, está na raiz da maior parte dos problemas de saúde, violência, vícios e conflitos.

Estresse

Uma mulher de 56 anos, enviou carta aos estudiosos após ler os resultados de suas pesquisas. O teor se referia aos seus sentimentos de solidão e profundo isolamento: "Quando ainda estava com meu marido e contava a alguém que me sentia sozinha, todos me diziam: mas você é casada! Com o divórcio, aprendi a diferença entre estar sozinha e me sentir sozinha. No meio da multidão, no trabalho, mesmo em um ambiente familiar, sempre me sinto sozinha. Chega a ser devastador, às vezes, uma sensação física. Meus médicos já chamaram de depressão, mas é diferente".

Questionando os autores sobre suas questões internas, ela cita a frase que todos falam para aplacar um pouco a dor "nascemos sozinhos e morremos sós". E, já que comprar, comer ou sexo casual não resolve ou faz o sentimento interior de estar sozinho desaparecer, há algo que faz?

Quase todos sentem a pontada da solidão em algum momento, afirmam Cacioppo e Patrick, lembrando ser a solidão transitória tão comum que a aceitamos como parte da vida. No entanto, como nós, humanos, somos seres inerentemente sociais, a necessidade de estabelecimento e cultivo de amor, intimidade e proximidade social é tida como elemento essencial (muito maior do que a fama e a riqueza) para a felicidade.

O mais grave, ainda, revelam, é que o isolamento social tem um impacto na saúde, comparável ao efeito da pressão sanguínea elevada, da falta de exercícios físicos, da obesidade e do tabaco. "Nossa pesquisa da última década demonstra que o réu que se esconde atrás dessas horríveis estatísticas não costuma ser o fato de alguém estar literalmente só, mas a experiência subjetiva conhecida como solidão".

Centro integrador

O isolamento e o sentimento de solidão (ou falta de conexão) é reflexo da falta de integração do ser com suas partes. Conforme a psicóloga e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), Gisneide Ervedosa, as psicoterapias ajudam a fazer a negociação das duas dimensões do ser em conflito, para se viver relativamente bem e em equilíbrio.

O desenvolvimento espiritual, em seu entender, contribui ainda mais para a superação da dualidade da mente, a qual é a responsável na verdade pelo sofrimento. A perspectiva transpessoal, que inclui a dimensão espiritual, ajuda cada ser a desenvolver sua verdadeira natureza.

Gisneide busca nas tradições espirituais, sobretudo no diálogo entre o budismo tibetano e o xamanismo, recursos para ajuda no processo de integração e equilíbrio do ser. Em linguagem psicológica, a busca da unidade realizada nessas tradições se aproxima do conceito de Self, como o centro integrador da psique.

A meditação e alguns rituais, utilizados nessas tradições se assemelham pelo propósito final, ou seja, a intenção de conexão com esta unidade maior.

Por vezes, essa busca é encarada como fuga da realidade presente. No entanto, o anseio pela possibilidade de transcendência das dificuldades e limitações, realizada de forma disciplinada e direcionada, ajuda a purificar a mente das dificuldades e bloqueios, dissolvendo essas barreiras que se interpõem sobre a clareza da mente do ser integral.

No xamanismo, por exemplo, utiliza-se os chamados ritos de poder. Nesses eventos, trabalha-se com pedras, folhas, fumaça, calor, caracteres e poder dos animais e da natureza, além da convocação de guias interiores.

Um desses rituais empregados pela psicoterapeuta é a cabana de suar (tenda de suor) da tradição da tribo indígena americana lakota, aprendida por ela com o psiquiatra Celso Fortes. Gisneide programa mensalmente estas cerimônias, com o propósito de ajudar as pessoas a fecharem bem certos ciclos da vida, já que a tenda de suor tem clara analogia ao desprendimento do que quer se deixar partir (morrer) para um novo nascimento.

Realizada em grupo, a cabana de suar fortalece a intenção de dissolução de bloqueios e apegos inúteis, ajudando cada um a se conectar com o que há de mais sábio, mais amoroso em sua verdadeira natureza. "Aciona em cada um seu poder de transformação, o vir a ser, dentro de um campo de infinitas possibilidades".

A verdadeira natureza humana é, desta forma, aberta a essas possibilidades. Por isso, a psicóloga observa neste e em outros cerimoniais xamânicos, uma forma poderosa de reconexão.

Gisneide observa que a clareza da intenção ajuda a se ultrapassar o medo da morte. A dificuldade que se tem de fechar ciclos e iniciar coisas novas ou recomeçar se encontra justamente neste ponto. A cabana de suar conta com uma simbologia de se colocar novamente no útero da mãe terra e se entregar para a vida.


Sinais de isolamento

O corpo muda sua fisiologia:

Pressão sanguínea se eleva;

Hormônios do estresse passam a ser produzidos e liberados em maior volume;

Funções imunológicas são alteradas (para mais ou menos);

Eventos cardiovasculares começam a se suceder com alterações;

Aumento de sinais de dor (costas, cabeça, pescoço, membros);

Diminuição dos hormônios do prazer (endorfinas, dopaminas);

Mudanças no humor e sono.


Fique por dentro

Saúde é integração

No artigo "A dimensão espiritual da psicologia e o novo xamanismo", o médico e psiquiatra chileno Claudio Naranjo revela que a psicoterapia e a espiritualidade são dois caminhos para uma mesma meta, uma vez que as dimensões emocional e espiritual não podem ser separadas.

Naranjo cita o xamã - o médico, curandeiro primitivo - que usava todos os recursos disponíveis para promover a integração do ser (adoecido) com o todo, seja com o uso de ervas, orações, cantos e danças. O xamã, na cura, já unia então arte e ciência.


ROSE MARY BEZERRA
REDATORA

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