Mastectomia preventiva

O que fazer quando a mama sinaliza risco?

00:59 · 20.08.2013
Ante as ocorrências de câncer de mama, indica-se o "tratamento paletó", cada caso com uma conduta específica

Apesar de ser uma prática médica reconhecida para evitar o câncer de mama, a mastectomia profilática ou redutora de risco se tornou assunto mundialmente após a decisão da atriz Angelina Jolie em realizá-la.

No Brasil, a conduta ainda é pouco utilizada, direcionada apenas a mulheres em que o procedimento pode ser empregado (diagnosticadas com risco elevado). Quanto ao grupo de risco com gravidade mediana, restam medidas de prevenção e diagnóstico precoce. Essa conduta tem prevalência no País?

Com mais de 40 anos de experiência, o mastologista Luiz Porto, chefe do Serviço de Mastologia da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC) e do Hospital das Clínicas, afirma que não.

Contexto local

A situação é a seguinte: no Ceará, espera-se 62 casos de carcinoma mamário a cada 100 mil habitantes, dos quais 92% são representados pelo sexo feminino e 2%, masculino. Por ano, apenas o Serviço de Mastologia da MEAC registra 150 casos novos de câncer. Dos quais 10% deles estão associados à hereditariedade (mães e irmãs), sendo apenas 3% com o padrão de distribuição igual ao de Angelina Jolie, ou seja, sugerem mutações nos genes BRCA1 e BRCA2. Essas mulheres desenvolvem câncer de mama em 70% dos casos e câncer no ovário em 50% das ocorrências. E o padrão são mulheres com menos de 50 anos.

Tais mutações genéticas foram possíveis de identificar por meio do projeto Genoma Humano (do qual extrai-se o genoma e identificam o DNA, que oferece informações sobre atributos físicos, suscetibilidade a doenças, entre outros aspectos), permitindo conhecer a probabilidade de câncer por herança familiar e as causas da sua distribuição.

"Trazendo para o Ceará, pode-se dizer que nossa formação étnica é endogâmica, originada da relação entre dois indivíduos que tenham parentesco, ou seja, possuem genes relacionados. E a endogamia é um dos fatores que gera essa mutação genética BRCA1 e BRCA2. Por isso, há um contingente maior de ocorrências do câncer de mama no Estado do que em outros do Nordeste, onde o padrão sociocultural é semelhante", esclarece.

Diante desse quadro, os riscos são maiores às mulheres cearenses que possuem parentes de primeiro grau que adquiriram câncer de mama, pois apresentam dois fatores de risco. No entanto, Luiz Porto ressalta: "Essa parcela da população representa um percentual baixo na comunidade, 3% a cada 100 mil".

Grupo de risco

Ainda segundo o mastologista, presidente do Grupo de Educação e Estudos Oncológicos, coordenador do Comitê Estadual de Controle do Câncer, o grupo de risco não se resume somente às mulheres com herança familiar em primeiro ou segundo grau, mas àquelas que não têm filhos (nulíparas) ou menos de três filhos (paucíparas); mulheres com primeira gestação após 30 anos; usuárias de hormônios anovulatórios há mais de cinco anos ou de reposição hormonal; menarca precoce (antes de 12 anos) e primeira gestação antes do 12 anos; menopausa tardia (depois dos 50 anos); obesidade; sedentarismo; mamas densas; mulheres fumantes ou que consomem bebida alcoólica.

Precaução

A prevenção é uma forma de atenuar a influência dos fatores de risco. O primeiro passo é a prática de exercício físico regularmente, no mínimo três vezes na semana com duração média de 45 minutos. "Isso diminui em até 30% o risco de câncer de mama", destaca Luiz Porto. A manutenção do peso, junto a uma dieta adequada, com pouca carne vermelha e doces, também reduzem os riscos.

Além disso, ênfase na mamografia periódica realizada a partir de uma idade definida (50 anos) ou ressonância magnética das mamas. O mastologista explica que para cada caso há um procedimento.

"Hoje o mastologista pode recomendar a mamografia em pessoas mais jovens. Há uma estratégia para cada quadro. É o que chamamos de ´tratamento paletó´, uma conduta adequada para cada pessoa. Se uma mulher não tem filho, é usuária de hormônio anovulatório há mais de cinco anos e tem sobrepeso, é preciso fazer a mamografia mais cedo do que em quem não é grupo de risco, que iniciará a partir de 50 anos", exemplifica o médico.

Quanto ao autoexame, sua eficiência é reduzida, já que depende da capacidade da mulher de identificar um tumor em si mesma, o que é improvável nas lesões pequenas e, caso ocorra, o tumor já terá oito anos de evolução.

FIQUE POR DENTRO

A lei restringe a mastectomia profilática

Luiz Porto explica que a opção da mastectomia preventiva no Brasil tem limitações legais. "É considerado lesão corporal de natureza grave destruir um órgão ou sistema sadio, mesmo que seja uma decisão da paciente", pontua.

Além disso, os resultados de reconstrução mamária após mastectomia profilática ainda não são ideais. "A paciente que apresenta risco e solicita cirurgia, posteriormente pode se arrepender ante as limitações legais, emocionais e estéticos, podendo assim acionar legalmente o médico", complementa.

A intervenção só deve ser utilizada a partir de uma avaliação interdisciplinar da paciente onde será diagnosticado um risco elevado e com autorização escrita da paciente. Outra limitação dessa cirurgia é o alto custo dos testes BRCA1 e BRCA2 que não é disponível ao sistema público de saúde. Diante disso, questiona-se se vale a pena priorizá-lo.

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

FRASES

O autoexame tem eficácia reduzida. Mesmo que a mulher identifique um tumor em si mesma, ele já terá oito anos de evolução

Luiz Porto
Mastologista

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