Profissional da saúde

O jaleco branco exige responsabilidades

00:00 · 15.10.2013
Diário do Nordeste
O excesso de peso pode provocar aumento da pressão arterial e dos níveis de glicose no sangue
A peça segue um estilo, credencia o médico, pode causar pânico e requer cuidados para evitar contaminação

Nesta sexta-feira (18) comemora-se o Dia do Médico, cujo símbolo que melhor o identifica é o jaleco branco. Fundamental para protegê-lo, a peça segue um estilo, apresenta detalhes importantes inclusive sobre a vida acadêmica do médico. Novelas e séries de TV usam-na como adereço de seus personagens que, às vezes, vestem o jaleco na maior parte do tempo.

Patrícia Silva, da marca Just for Doctor que há 15 anos confecciona o produto, afirma que esse público é exigente. O branco ainda é o mais procurado, mas a cor aparece no bordado do nome e da especialidade. É neste instante que a peça é personalizada. Geralmente, os homens preferem o grafite ou azul escuro, enquanto as mulheres ousam com cores vibrantes como o rosa e o laranja.

Também são bordados os símbolos de hospitais e das universidades por onde o médico estudou. "Fica semelhante a um currículo no jaleco. Eles escolhem letras legíveis, o que denota respeito ao paciente. Afinal, todos estão sujeitos a atender uma pessoa com problema de visão", descreve. Diante do paciente, todo cuidado é pouco, principalmente quando se trata de criança. Segundo Patrícia, os médicos que as atendem são os que mais adotam o colorido no jaleco. A cor permite a aproximação da criança sem a associação imediata de que se trata de um profissional de saúde.

Síndrome do jaleco

Contudo, o medo de médicos não pertence apenas às crianças, pelo contrário, há adultos que apresentam reação similar. Durante muito tempo, ir ao médico significava "estar doente" e, com isso, o medo da revelação. A resposta é a mesma em qualquer situação que amedronte: o coração dispara, a pressão sobe, as mãos ficam frias e suadas. Diante de um médico, ela tem nome: ´Síndrome do jaleco branco´.

"Sempre que uma pessoa está diante de uma situação de risco, naturalmente, ela provoca fisiologicamente, essa violenta descarga de adrenalina, hormônio que mexe com as emoções e as defesas/alerta do organismo", esclarece o psiquiatra Antônio Mourão, doutor em Psiquiatria e Antropologia, professor titular de Psiquiatria da UFC e chefe do Serviço de Saúde Mental do Hospital Walter Cantídio.

Para ele, a dinâmica é psico-fisiológica e natural. Só será patológica, nos casos em que a reação é desproporcional ao fato. "Os sentidos informam a situação, o cérebro interpreta como ameaça e dá ordens ao organismo de reagir liberando o hormônio que interferirá na conduta dos órgãos e sistemas autônomos", afirma.

A cardiologista Ana Lúcia Ramos, futura presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia - Regional Ceará, ressalta que a síndrome também é denominada ´hipertensão do jaleco branco´ por conta da elevação da pressão arterial quando medida no consultório ou em clínicas, desencadeada pelo estresse emocional, mas que, em outras circunstâncias, mantém-se normal.

A síndrome acomete geralmente o sexo feminino em faixas etárias mais elevadas. Ana Lúcia Ramos afirma que a prevalência da hipertensão do jaleco branco é de 20% a 40%.

Quanto à fisiologia, a cardiologista ressalta que a síndrome não é considerada benigna uma vez que estudos recentes demonstram que pacientes com diagnóstico de ´hipertensão do jaleco branco´ se tornam hipertensos, atingindo risco cardiovascular intermediário entre aqueles com diagnóstico de hipertensão arterial continuada e os normotensos (pressão arterial normal).

Por outro lado, o psiquiatra destaca que também deve-se avaliar a chance da síndrome resultar da rememoração de vivências, mesmo da infância, que podem ter sido registradas como experiências negativas e agora são vivenciadas na mesma situação.

O que fazer

Amenizar os sinais é possível. Conforme Antônio Mourão, o primeiro passo é passar confiança ao paciente, mostrando que quer ajudá-lo. Tratar do assunto mais delicado quando ele estiver relaxado ou menos tenso. "A pressa agrava a situação. Alguns serviços e ambulatórios, antes da consulta, realizam rodas de conversa. Isso descontrai o ambiente e as pessoas que serão atendidas. A sala de espera precisa ser um ambiente acolhedor, sem ameaças médicas", pontua.

Sobre o paciente, segundo Ana Lúcia Ramos, a síndrome não causa sintomas, porém pode vir junto ao quadro de pânico, com mal-estar, taquicardia e a sensação de morte iminente. Neste caso, a conduta será a de buscar ajuda médica (do cardiologista e do psiquiatra), conclui.


A manutenção da higiene é vital

Por ser uma peça usada todos os dias pelos profissionais de saúde, o jaleco exige cuidados especiais. Afinal, sua finalidade é a proteção de profissionais e pacientes na realização de procedimentos. Uma das medidas é retirar a peça antes de ir para rua.

Segundo Everardo Albuquerque Menezes, doutor em microbiologia pela USP, pós-doutor em Microbiologia pela Universidad Complutense de Madrid, o uso indevido do jaleco e de outros dispositivos médicos (ex: estetoscópio) são ameaças ao paciente e ao médico, pois aumenta o risco de contaminação por agentes infecciosos (veiculados ao ambiente). "O jaleco deve ser usado apenas enquanto os profissionais exercem suas funções".

Segundo o professor associado de Microbiologia do Departamento de Análises Clínicas da Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem da UFC recomenda-se que esses profissionais a adotem medidas de biossegurança, principalmente, aos que trabalham em hospitais.

"Biossegurança é o conjunto de ações para a prevenção, minimização ou eliminação de riscos inerentes às atividades de pesquisa, produção, ensino, desenvolvimento tecnológico e prestação de serviços, que podem comprometer a saúde do homem, dos animais, do meio ambiente ou a qualidade dos trabalhos desenvolvidos", define.

Para isso, Everardo Menezes frisa a importância de campanhas educativas sobre técnicas assépticas e o estabelecimento de condutas para um tratamento sem perigo de contaminação.

SAIBA MAIS

O ideal seria os hospitais assumirem a lavagem e a descontaminação dos jalecos, porém geralmente isso não ocorre.

São necessários, no mínimo, dois jalecos para cada profissional.

A peça deve ser lavada uma vez por semana ou sempre que for necessário.

A lavagem precisa ser isolada. Não pode misturar com outras roupas.

Use água sanitária para matar todos os agentes infecciosos. Daí a importância de serem brancos.

Fonte: Prof. Everardo Menezes

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

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