Tratamentos

O incômodo de ´suar em bicas´

23:44 · 11.03.2013
Conhecido como hiperidrose, esse distúrbio possui tratamento àqueles que desejam uma solução duradoura

Suar é uma resposta do organismo às alterações térmicas que varia de indivíduo, raça e faixa etária. É potencializada por questões emocionais (ansiedade, tensão), as quais estimulam os neurotransmissores a produzir mais suor. Ou ainda por conta da sensibilidade às variações térmicas, seja o aumento da temperatura externa (do ambiente) ou interna, quando se produz uma quantidade maior de calor devido à prática de exercícios físicos, por exemplo. Mas quando é ultrapassada a barreira da normalidade e "suar em bicas" denota um problema orgânico mais significativo?

Yara Lima costumava usar um paninho para evitar o incômodo de ter as mãos sempre geladas e molhadas pelo suor excessivo Foto: José Leomar


Algumas vezes, o quadro indica a hiperidrose, doença caracterizada pela transpiração intensa em áreas onde há maior concentração de glândulas sudoríparas (responsáveis pela produção de suor e reguladoras da temperatura corporal) como mãos, pés, axilas, virilhas e couro cabeludo.

Segundo a dermatologista Maria Rosa Lui, há casos em que a hiperidrose é sintoma de doenças neurológicas e medulares, diabetes mellitus, hipertireoidismo, obesidade, menopausa e gravidez. O diagnóstico é feito tanto pelo suor excessivo, como pela aparência sempre úmida das mãos e dos pés.

Vergonha e desconforto

Desde criança, a universitária Yara Lima apresentava esses sintomas, que foram intensificados na adolescência. "As mãos pingavam e, para enxugá-las, sempre carregava um paninho". Os pés transpiravam muito, chegando a deslizar em determinados tipos de sandálias, principalmente nas de plástico, as quais passou a evitar.

Simples tarefas incomodavam Yara, pois a deixavam constrangida. "Ficava envergonhada quando cumprimentava alguém, já que as pessoas se incomodavam com a mão sempre molhada. As provas se rasgavam nas minhas mãos, a ponto de usar um pano para enxugá-las. Mas eu ficava mais frustrada por não poder pegar nos cabelos, pois a umidade das mãos deixavam-os oleosos", revela.

Utilizar loções antitranspirantes ou talcos, vestir roupas e meias de algodão (para favorecer a absorção do suor), tomar banhos frequentes e usar calçados abertos são medidas paliativas para minimizar e conter os efeitos da sudorese. Quando tais condutas não solucionam o problema, o portador dispõe de duas opções de tratamento: a aplicação de toxina botulínica ou a cirurgia (simpatectomia torácica), método que interfere no funcionamento do nervo simpático.

No caso de Yara, a solução foi a cirúrgica, realizada há quatro anos. "É um procedimento definitivo, não preciso refazê-lo. Fiquei tão feliz com o resultado que faria quantas vezes fosse preciso".

Após a mudança, Yara conta que o suor dos pés e das mãos diminuíram significativamente. Contudo, passou a suar em regiões onde não transpirava antes, como nas costas, entre os seios e nas coxas. A reação é conhecida como sudorese compensatória, menos incômoda se comparada à hiperidrose e comum em quem é submetido a simpatectomia. Em função disso, não é indicada para pessoas obesas e com sobrepeso.

Cirurgia ou botox?

De acordo com o cirurgião torácico, Antero Gomes Neto, a cirurgia é minimamente invasiva, feita por vídeo, com anestesia geral. Consiste em seccionar ou clipar o nervo que se direciona às mãos ou axilas. Isso porque a simpatectomia controla o suor apenas dessas áreas do corpo. O processo é definitivo, mas quando o nervo é clipado ainda há possibilidade de revertê-lo em até um mês.

Embora possa amenizar a transpiração excessiva também nos pés, o cirurgião afirma que isso não é uma regra. Com uma hora de duração, a cirurgia proporciona o controle instantâneo do suor. O paciente é liberado um dia após a cirurgia e pode retomar sua rotina em três dias (deve evitar sol e exercícios). As cicatrizes são pouco significativas, uma de cinco milímetros na altura abaixo dos seios e outra na axila.

A aplicação de toxina botulínica bloqueia a comunicação das terminações nervosas com as glândulas sudoríparas, perifericamente e de forma reversível. "Assim, são raros os casos de rebote em outras áreas após o tratamento. Por sua ação seletiva em certas glândulas sudoríparas, não influencia a sudorese necessária para a regulação térmica", diz o cirurgião plástico Fabiano Magacho.

A axila é a região de maior queixa (corresponde a mais de 90% dos casos), mas o tratamento pode ser efetuado também em outras áreas do corpo, como mãos, pés, fronte e colo.

O procedimento é ambulatorial, não cirúrgico, com duração média de 10 minutos. Após a assepsia e a anestesia local (dispensável no caso das axilas), a toxina é injetada com uma agulha de fino calibre na parte superficial da pele. Não há sangramento, nem dor ou inchaço. Os resultados são notados após dois a cinco dias (máximo de 15 dias) dependendo da quantidade injetada, da técnica usada, da região tratada e das características do paciente. O efeito dura de 7 a 12 meses, podendo ser repetido quando necessário.

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

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