ESQUIZOFRENIA

O impasse entre a ilusão e a realidade

03:48 · 16.10.2011
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Dedicação do cuidador é essencial para impedir a evolução da doença nos portadores

A vida de José Alberto Orsi sempre indicou que teria uma grande carreira profissional. Estudou em boas escolas, cursou Engenharia, fez estágio em Londres por dois meses e cursou mestrado na Universidade do Sul do Mississippi, nos Estados Unidos. Faltando dois meses para completar o curso no exterior, José Alberto estava em casa, quando ouviu alguém dizer que sua mãe fora assassinada pela Agência Central de Inteligência norte-americana, a CIA. Ele não sabia de quem era a voz ou de onde ela vinha, mas teve a certeza de que lhe falava a verdade. "Na mesma hora liguei para a minha mãe, que estava no Brasil, e mesmo escutando a sua voz, mandei que fosse imediatamente para a casa da minha tia, pois achava que ela estava sob ameaça de morte", relata.

José procurou saber do que se tratava, mas sem obter sucesso concluiu o curso e foi contratado por uma grande empresa de desenvolvimento de softwares. Ao sofrer um novo episódio, decidiu retornar ao Brasil para chegar ao diagnóstico. Aquela voz que informava sobre o assassinato da mãe era, na verdade, uma alucinação criada pela sua mente, um transtorno psicótico que, mais tarde, seria diagnosticado como esquizofrenia.

Alucinações e delírios

"A principal característica da esquizofrenia é a dificuldade da pessoa de diferenciar a realidade e suas crenças e percepções muito incomuns", afirma Rodrigo Bressan, professor de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É comum que as pessoas conversem com os próprios pensamentos, cantarolem músicas apenas na mente e imaginem situações. O que ocorre é que os portadores de esquizofrenia não têm consciência de que essa ação é fruto de suas atividades cerebrais.

As alucinações e delírios são o primeiro passo para se identificar a doença. Os delírios, de acordo com o psiquiatra, se caracterizam por ideias muito prevalentes, distorcidas e tomadas como verdades absolutas. Já as alucinações são experiências sensoriais, auditivas, olfativas e visuais, que costumam ser desvirtuadas da realidade normal.

Além desse quadro, é preciso também observar sinais como o isolamento social, a perda da capacidade de interação com outras pessoas, a desorganização do pensamento e o comprometimento de algumas funções cognitivas, como reter informações na memória.

Alterações

Os episódios psicóticos podem acontecer das mais variadas formas.

Alucinações como a de José são um exemplo, mas ações como conversar com a televisão, fugir do lar, andar nu pela casa, ter despudor em locais públicos, mania de perseguição, agitação, insônia, delírios de grandeza (pensar ser alguma personalidade), possessão por alguma entidade, sentir a ausência de órgãos no próprio corpo, ameaçar suicídio e agredir familiares são comportamentos que sinalizam o diagnóstico de esquizofrenia, embora o portador não apresente todas as situações citadas.

Fatores de risco

O diagnóstico depende principalmente da avaliação clínica. Além disso, a forma como a doença se manifesta diferencia muito entre cada portador. Outro obstáculo se deve às alterações sutis da personalidade, que podem acontecer antes dos sintomas mais característicos.

As causas da doença também são desconhecidas. Já é comprovado que antecedentes familiares têm influência direta - o pai de José Alberto, por exemplo, também sofria com a esquizofrenia. Outros desencadeadores são o consumo de drogas e grandes traumas (sequestros e perdas importantes).

É frequente o pensamento de que uma família desestruturada é um fator que pode levar à doença, mas não é um determinante. "Tanto a esquizofrenia causa rupturas nas relações familiares como a família desestruturada contribui para seu aparecimento", diz Cecília Villares, cofundadora da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (Abre).

Diagnóstico tardio

Pesquisa realizada pela Abre em parceria com o Programa de Esquizofrenia da Unifesp, com o objetivo de dimensionar o impacto da esquizofrenia na vida dos cuidadores revelou que o diagnóstico costuma ser mais difícil, em função da falta de informação.

Como a doença normalmente se manifesta ainda na juventude, é comumente associada uma crise própria dessa fase da vida. Quando os sintomas se intensificam, a não aceitação da doença adia a consulta a um psiquiatra, de forma que as pessoas preferem procurar por respostas não convencionais, como a religião.

Missão de cuidar

Quando a esquizofrenia é diagnosticada, o portador deve viver sob permanente observação de alguém mais próximo. O papel do cuidador, de acordo com Rodrigo Bressan, é evitar a recaída dos acometidos pela doença.

A ocorrência de novos surtos torna-se um grande transtorno para os cuidadores, pois além de participar dos momentos de sofrimento, é quase sempre necessário que deixe de trabalhar para acompanhar o paciente. 83% dos cuidadores acompanham o portador diariamente.

"A dinâmica familiar é alterada com possíveis consequências nas relações entre os membros e, certamente, com aumento dos custos para o núcleo", afirma o psiquiatra.

A pesquisa mostrou que os próprios cuidadores também precisam de um acompanhamento especializado, pois carregam um compromisso em tempo integral, além do isolamento social, da resignação e dos sentimentos como culpa e raiva. Também sofre com a perda da liberdade, complicações financeiras e o risco iminente de sofrer uma agressão física ou verbal.

Apesar de toda a dedicação, a pesquisa constatou que o esforço é compensado através de sentimentos positivos, como a união familiar que a adversidade pode causar, além da sensação de tornar-se alguém insubstituível para o paciente. "Do ponto de vista clínico, eu tenho liberdade para realizar minhas atividades. Mas eu também tenho uma dependência afetiva da minha mãe que remete aos tempos de criança", relata José Alberto.

Evitar a recaída

O psiquiatra deve esclarecer a família, estabelecendo laços de confiança e prescrever o tratamento , enquanto o cuidador deve responder pela logística, prover a infraestrutura adequada, não isolar o paciente e não abdicar dos cuidados. Cabe ao paciente se conscientizar da doença, aceitar os cuidados, as terapias e aderir ao tratamento.

"O último surto foi em 2001. Hoje tento deixar o meu cérebro em atividade para evitar novos episódios. Leio bastante em inglês, um jornal por dia, assisto pelo menos um filme por semana e tenho minhas atividades como diretor adjunto da Abre, o que inclui desde o controle administrativo e financeiro até o atendimento ao público", diz José.

"Dizem que a esquizofrenia não tem cura, mas não é verdade. Alguns apresentam o quadro apenas uma vez e nunca mais têm outro episódio. Outros terão vários episódios ao longo da vida. Se o tratamento for respeitado, é possível que vivam com autonomia", garante Bressan.

O Viva viajou a convite da Janssen Farmacêutica

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