câncer

O impacto na hora do diagnóstico

20:44 · 24.09.2011
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Sárvia Abreu: "Com o avanço do tratamento, as pessoas vão percebendo o tempo de vida que desperdiçaram"
Sárvia Abreu: "Com o avanço do tratamento, as pessoas vão percebendo o tempo de vida que desperdiçaram" ( Marília Camelo )
O somatório de elementos diretos como o cigarro e o álcool, associados ao estresse diário, má alimentação e falta de cuidados consigo mesmo podem resultar numa série de doenças. "Mesmo assim, as pessoas pensam que o estilo de vida não vai gerar um câncer, mas ele vai propiciar, se você já tem uma tendência, um fator hereditário muito forte. Juntando vários fatores, corre-se um risco bem maior de desenvolver a doença", explica a psicóloga Sárvia Abreu, do Instituto do Câncer do Ceará (ICC).

Por pensarem que o problema nunca vai acometê-las, o medo é a reação mais comum ao receber o diagnóstico, de acordo com a pesquisa. Os temores mais comuns são a morte, a dor do tratamento, o trabalho que dará a outras pessoas, além de o tratamento prejudicar a vida profissional. "Para a maioria das pessoas, pensar em câncer é achar que não tem nada a ser feito. Quando os pacientes observam que existem possibilidades terapêuticas, que pode ter cura, ou de pelo menos um tempo de sobrevida razoável, eles tendem a se tranquilizar", afirma a psicóloga.

A culpa é outro sentimento frequente, principalmente naqueles que mantinham hábitos pouco saudáveis. A pesquisa revelou que, entre os fumantes que adquiriram câncer de pulmão, 59% se arrependiam da prática.

De acordo com Sárvia Abreu, o ser humano tem muita vontade de se justificar, querer encontrar uma resposta para tudo. Por isso, em meio a esse processo, tende a se culpar. As pessoas também se questionam muito sobre o motivo de estarem doentes, dai ser a revolta outra sensação recorrente nos pacientes.

A pesquisa indica que 22% das pessoas que nunca fumaram ficaram revoltadas ao saber do diagnóstico. O número dos pacientes fumantes que mostraram-se indignados é ainda maior: " É extremamente contraditório que 39% dos fumantes que desenvolveram a doença se sintam revoltados com algo que eles mesmos poderiam ter evitado", expõe Dr. Arthur Katz.

De acordo com o médico, há ainda um fator determinista, essencialmente naqueles que são tabagistas. "Os fumantes pensam que um câncer pode acometer qualquer pessoa, independente da vida que cada um leva. Sempre conhecem o caso de alguém que levava uma vida regrada, mas acabou doente", diz o médico. Esse é o motivo pelo qual 83% dos pacientes que fumavam acreditar que jamais desenvolveriam um câncer.

A busca por apoio

Passado o choque inicial do diagnóstico, as várias etapas do tratamento devem ser acompanhadas num ambiente que proporcione conforto e segurança ao paciente. A pesquisa aponta ser recorrente uma busca maior pela espiritualidade nas pessoas com câncer: o número de portadores que indicam ter uma religião passou de 79% para 88% depois de descoberta a doença. A religiosidade possui um papel importante no tratamento, auxiliando o paciente a ter mais confiança.

"Percebe-se que pacientes céticos, que não se apegam a nada e são mais egocêntricos, tendem a sofrer mais. Eles não têm espaço de expressão, não buscam formas de apoio. Já o paciente que consegue fortalecer a espiritualidade e a fé, costuma ter um enfrentamento melhor", afirma a psicóloga.

A família e os amigos são outro fator indispensável na cura. "O paciente que se sente bem acolhido pela família, que tem pessoas que lhe passam carinho e atenção, também vai estar mais fortalecido", garante Sárvia. Mas há certos cuidados que a família deve observar na maneira como irá tratar o paciente. A psicóloga afirma que, em certos casos, há uma cobrança excessiva para que o paciente melhore, o que deprime ainda mais o doente. "A família também adoece no momento do câncer. No entanto, ela dever ´adoecer´ de uma forma mais para frente, ajudando o paciente a superar esse processo", informa a psicóloga.

Cuidado o quanto antes

"O paciente tem uma relação de amor e ódio por si mesmo", complementa. Enquanto faz o possível para que o tratamento dê certo, martiriza-se pela falta de cuidados com a própria vida. "Ser saudável não é compreendido como algo no qual se precise investir. As pessoas acham que a saúde é uma dádiva divina automática, ou seja, já nascem para serem saudáveis, não precisam fazer nada para isso", diz Dr. Arthur Katz. Por isso o cuidado com a própria vida deve existir em todas as fases da vida. Abandonar maus costumes como o fumo e construir uma rotina em que, além do trabalho, haja espaço para a família, os amigos e para si mesmo é fundamental.O Viva viajou a convite do Laboratório Pfizer

Fique por dentro

Projeto Quiro

Para trabalhar as diversas questões emocionais que envolvem o paciente e a família, os hospitais oncológicos contam com um serviço de psicologia. De acordo com Sárvia Abreu, psicóloga especializada em oncologia, o Instituto do Câncer do Ceará conta atualmente com três profissionais voltados para este fim. "O psicólogo está presente em todos os momentos, de acordo com a necessidade do paciente. Desde o recebimento da notícia da doença até os momentos cirúrgicos", afirma. A função desse profissional é permitir que o paciente reflita sobre a experiência, para que possa criar um novo significado para a sua vida, pensando sempre que no futuro sua vida será remodelada.

Além dos pacientes, o quadro funcional do hospital também recebe apoio psicológico. "A equipe de oncologia carrega um fardo muito pesado, que lida diariamente com a morte, com sofrimento muito intenso; também precisa ser cuidada", informa a psicóloga. Pensando nisso, há três anos o ICC criou o projeto Quiro, no qual um psicólogo de uma instituição convidada estimula a reflexão do exercício profissional naqueles que trabalham na instituição.

Mais informações

Serviço de Psoco-Oncologia do Instituto do Câncer do Ceará (ICC) - Rua Papi Júnior, 1222, Rodolfo Teófilo (85) 3288.4400

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