TERAPIAS EXPRESSIVAS

O espírito criativo na arte e na vida

23:41 · 21.05.2011
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Arte e cura sempre estiveram entrelaçadas. Enquanto forma de comunicação e linguagem, a arte expressa forte simbolismo seja qual for a modalidade - desenho, pintura, música, dança, escrita, teatro - traz a hora de criar
Arte e cura sempre estiveram entrelaçadas. Enquanto forma de comunicação e linguagem, a arte expressa forte simbolismo seja qual for a modalidade - desenho, pintura, música, dança, escrita, teatro - traz a hora de criar ( )
Sérgio Sá é compositor, arranjador, produtor de discos e, também, escritor. A restrição visual não foi impedimento para desenvolver seu ouvido musical e expressar sua imaginação
Sérgio Sá é compositor, arranjador, produtor de discos e, também, escritor. A restrição visual não foi impedimento para desenvolver seu ouvido musical e expressar sua imaginação ( FOTO: REPRODUÇÃO )
Adentrar no processo de criação é um dos impulsos humanos mais genuínos e naturais. Seu saldo positivo resulta sobretudo da união do movimento interno e externo (psicofísico), quando o ser, em sua expressão, se preenche e se esvazia, permanecendo, no entanto, com a sensação de completude e satisfação que o próprio poder de auto-expressão traz.

Abertos os canais da criatividade, conforme o físico indiano Amit Goswami, em sua obra "Criatividade Quântica - Como despertar nosso potencial criativo" (Editora Aleph), ocorre a integração de várias partes, aparentemente desconexas, a partir de um salto quântico da mente do próprio criador, que vai além de si mesma.

O prazer de criar

Criar significa dar permissão ao prazer, representado pelo fluxo liberado de energia vital, com seu campo infinito de
possibilidades. O que tem consequências imediatas, uma vez que favorece ao equilíbrio da saúde, seja física, seja psíquica.

As dores e limitações incitam o interior humano a oferecer novas respostas criativas e ir além de si mesmo e dos problemas. Foi justamente o que fez ao sentir em seu corpo as consequências de um acidente vascular cerebral, o artista plástico e professor de artes visuais Ney Robson Amâncio de Oliveira, 32 anos. Com várias sequelas decorrentes do AVC a que foi acometido ainda na faixa dos 20, ele não desistiu de seu grande amor pela arte.

“Desenho desde criança e com 19 anos comecei a pintar de forma autodidata, pesquisando em livros de artes e praticando. Meus quadros ficavam expostos em galerias e lojas de molduras. Nesta época, minha expressão era o figurativo, e ainda permanece”, conta Ney.

Foi cursar belas artes em Salvador, chegando a passar alguns anos lá. Ao ter a oportunidade de fazer uma exposição nos Estados Unidos, começou a prepará-la com afinco, retornando à Fortaleza, quando sofreu o AVC.

“A pintura, para mim, é uma forma de comunicação. Filosoficamente, a arte (a pintura, por exemplo) é uma espécie de RNA da sociedade, pela transmissão de códigos. Você tem condição de, com esses códigos, contar uma história na tela”.

A linguagem imagética é um atributo feminino, ou seja, do hemisfério cerebral direito. Já a fala e escrita são impetuosamente expressas através do hemisfério cerebral esquerdo, racional. Ney, ao perder os movimentos do lado direito do corpo (relativo ao hemisfério esquerdo, uma vez que a lateralidade se expressa no físico de forma cruzada) passou a exercitar a mão esquerda, superando-se com seus próprios recursos e executando a difícil troca de dominância das mãos. Hoje desenha e pinta bem melhor do que antes.

Passou, então, a dar aulas de desenho e pintura para sobreviver. Vem acompanhando muitas pessoas com restrições, sejam físicas ou mentais. Comenta que já ministrou aulas para muitos autistas, alguns até em faixas mais adiantadas de idade.

Com vários diagnósticos desencontrados - o último de Síndrome de Asperger, transtorno do espectro autista - Ricardo Vasconcelos Parente, 35, é talentoso com as artes visuais desde muito pequeno. É por meio da arte que ele consegue se manter por algum tempo tranquilo, sem a agitação costumeira. Seus encontros com Ney Amâncio, há pouco mais de um ano, já resultaram em uma exposição de obras muito expressivas, que, pela força e beleza, causa admiração não somente entre os seus familiares, mas em todos que a observaram.

A mãe de Ricardo, a fisioterapeuta e terapeuta corporal Rosa de Lourdes Vasconcelos conta que o filho sempre foi muito especial. Aprecia música, e todas as formas artísticas conseguem, por alguns momentos, prender um pouco sua atenção.

Agressividade e prazer

Aos 10 anos, lembra, uma das professoras, que ele gostava muito, usava a musicoterapia e o movimento para que interagisse. “Ela chegava a se abraçar com ele e rolavam os dois no chão. Ricardo adorava. Depois foi a fase das esculturas em argila. Ele também se acalmava muito”.

Ricardo frequenta a Casa da Esperança, que proporciona às pessoas com espectro do autismo um atendimento integral. Foi lá, diz Rosa de Lourdes, a partir de aulas de pintura, que também observaram o talento de Ricardo para as artes plásticas.

Indivíduos com Síndrome de Asperger, em geral, demonstram interesses específicos e intensos. Esta intensidade é uma de suas características mais marcantes. Rosa de Lourdes diz o filho sempre aguarda Ney com muita ansiedade e, no dia da aula, fica muito concentrado e pinta sem parar. “Ele mesmo diz que gosta de pintar porque se sente muito calmo”, relata a mãe.

Ney Amâncio comenta que o contato inicial com Ricardo não foi tão fácil. Logo os dois se identificaram. Ney pegava na mão do aluno para que ele sentisse firmeza e fosse criando habilidade e familiaridade com o pincel e as tintas, ficando aos poucos independente. “Sua expressão é de pinceladas fortes, lembra muito os traços de Van Gogh e a última fase de Pablo Picasso. Joga toda sua agressividade na tela, esfregando o pincel. Isso deixa transparecer nos quadro muito de suas emoções”, destaca.

A linguagem visual requer rapidez, agilidade e uma visão do todo, explica Ney. Revela que a pintura já é uma motivação em si para cada um ultrapassar seus limites, alcançando o prazer de se expressar, a partir de atitude de renovação contínua.

Música e escrita

A superação de uma restrição visual também tocou a vida do músico e escritor cearense Sérgio Sá, 58, que enxergou somente até os seis meses de vida. Desde pequeno, já revelava seu interesse pela música, brincando com os sons. Com apoio da família pode seguir a carreira de músico.

A música, para ele, ajuda a trabalhar a abstração, a percepção, a memória, ferramentas importantes para qualquer pessoa, sobretudo para quem não enxerga.

São mais de 40 anos fazendo arte, transitando entre a música e a literatura. A tecnologia, segundo Sérgio Sá, tem sido muito útil nessas navegações artísticas. No computador e nos teclados, o som torna-se seu instrumento de orientação.

Rose Mary Bezerra
Redatora

ENTREVISTA

Pela ausência da visão, a leitura da vida do músico se vincula à sonoridade, com uma conotação espiritual

Como você toca e compõe?

Aprendi, desde cedo (com três, quatro anos), a ver cores nos sons. Então, cantar era igual a brincar. Aos sete anos, passei a receber aulas de piano com Vanda Ribeiro Costa. Tocava de ouvido, porque para ela aprender braile e me ensinar demoraria muito (um código dentro de outro código). Ela tocava um trecho, eu memorizava e tocava.

A família o apoiou nesta jornada?

Sem dúvida, recebi apoio integral de minha família, que me enviou aos 13 anos para estudar em São Paulo. Um ano depois, todos acabaram se mudando para lá para ficarmos perto. Estudei música, após ter concluído o ginásio e o colégio, cursando a faculdade de Educação Artística e dando aulas por algum tempo. Hoje sou compositor, arranjador e produtor de discos.

Você conhece música?

Leio e toco com todo o corpo. A percepção sem a visão é outra. Abstraímos e acabamos desenvolvendo outras ferramentas.

As pessoas desenvolvem audição mais avantajada sem a visão?

As pessoas, para se concentrarem, precisam fechar os olhos. Não dispensamos a visão, a não ser que não possamos ver. Mas, não precisamos dos olhos ou os ouvidos para criar música. O ouvido musical não tem nada a ver com o ouvido físico. Se não fosse assim, Beethoven não teria composto várias de suas obras surdo.

Como, então, isto ocorre?

Quem tem o dom musical (ou o desenvolve, ao longo da vida) adquire a capacidade de captar a vibração. O som é vibração e não visão ou audição. Lembro apenas que o dom confere uma responsabilidade de utilizá-lo entre sua comunidade.

E quanto à literatura?

Dentre os livros que escrevi, publicados pela Sá Editora, “Ecos do amanhã” é uma ficção, em que um ruído ininterrupto toma a conta da Terra, vibrando no corpo das pessoas e em tudo; surgem pesquisadores que vão desvendar isso. “Feche os olhos para ver melhor” escrevi ao atravessar um ano difícil, após a perda de minha mãe. Explico porque a supervalorização da imagem pode sabotar os outros canais sensoriais importantes.

Qual seu projeto atual?

Escrevo no momento“Aos olhos de um cego”. Quem enxerga não sabe o que é não ver. São reflexões de como um cego se conduz nos dias de hoje.

Sérgio Sá (*) musicosergiosá@gmail.com
Músico, compositor e escritor

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