Entrevista com Nancy Stoianov

O disléxico pode usar a inteligência a seu favor

00:00 · 07.10.2013
A dislexia, direcionada de forma correta, pode trazer vantagens, pois pessoas disléxicas são inteligentes e criativas

Genética e hereditária, a dislexia é a dificuldade em compreender a linguagem, sendo um transtorno de aprendizagem?

A minha forma de entender a dislexia é diferente. A dislexia é a mãe de todos os transtornos, causa transtorno, mas não é uma doença. Temos que começar pela palavra. O "di" significa dificuldade, "lexia" quer dizer linguagem, ou seja é a dificuldade no processo da linguagem. E a linguagem é para tudo na vida. É a forma como a gente percebe todas as coisas.

Com mais de 30 anos de experiência, Nancy Stoianov é especializada em déficit de aprendizado, autora da metodologia Acrescer e criadora do programa metodológico P.S.I FOTO: DIVULGAÇÃO

Como se dá a dislexia no organismo?

O nosso cérebro é dividido em dois hemisférios: o esquerdo e o direito. O esquerdo é especializado na área de linguagem e tem duas partes muito importantes que é a área de broca, (processamento de fala), e a área de wernicke (identifica a palavra dando sentido a ela). Ambas existem apenas do lado esquerdo e a função é administrar o processo da linguagem. Já o lado direito é criativo. No cérebro, há um radar embaixo do córtex chamado tálamo, que capta tudo o que acontece ao nosso redor. Por exemplo, ao andar na rua vejo placas, carros, apesar da minha atenção estar em uma conversa, eu capto o que acontece através do tálamo, que seleciona, envia essas mensagens ao córtex do lado esquerdo, dando sentido. Por sua vez, o córtex esquerdo manda para o lado direito a fim de fazer a conexão. Para o disléxico, ele começa através do tálamo já passando as informações para o lado direito do cérebro, o qual não sabe interpretar o que recebeu e daí a dificuldade da linguagem. O lado direito quando recebe esse estímulo tem que fazer uma viagem de quatro tempos até chegar na área de broca (que fica no lóbulo frontal no lado esquerdo). Num processo de leitura, o cérebro do disléxico gasta mais energia, porque leva quatro vezes mais tempo para chegar na área de broca. Por isso, é preciso criar estruturas para que essa estrutura aprenda a lidar com o processo de linguagem.

Às vezes, na fala, ocorre uma disfasia (troca letras, sílabas ou palavras), como ocorre com o Cebolinha da Turma da Mônica FOTO: DIVULGAÇÃO

Quais os sinais que os filhos podem fornecer aos pais como sintomas da dislexia?

Primeiro é preciso tirar aquela visão de que dislexia é quando a criança não sabe ler. Nada disso. Em alguns momentos, nem se percebe a dislexia, porque ela lê e escreve como todo mundo. É a interpretação da leitura que fica mais complicada. Porém depende do nível da dislexia. Se a criança tiver um nível de dislexia leve, ela lê, escreve e terá dificuldade mais na disortografia (dificuldade em escrever as palavras, trocando letras ou não acentuando algumas palavras, tentando passar a ideia através da escrita, sem conseguir). Às vezes na fala, uma disfasia (trocando as letras, sílabas ou palavras), como o "Cebolinha" por exemplo. Até três ou quatro anos é normal acontecer, mas logo a criança consegue assimilar a informação quando corrigida e aprende, pronunciando de forma correta. Mas as crianças com disfasia continuam fazendo isso. A diferença é essa: a dislexia tem um tempo maior para o aprendizado. E, às vezes, nesse caso, precisa do acompanhamento de um fonoaudiólogo para exercitar essa área neural até que a criança possa fazer o processamento. Geralmente, o processamento auditivo também prejudica. Ela escuta perfeitamente bem, mas não processa da forma ideal as palavras, então escuta de forma diferente a palavra. Também há a dispraxia motora, é o que mais as pessoas identificam no filho. Aquela criança desajeitada que derruba tudo, que está sempre criando uma situação de perigo para ela mesma, às vezes tem um andar desajeitado. Pode-se ter ainda a dispraxia na fala que gera uma pequena gagueira ou os casos que falam tão rápido que não se entende. Isso se corrige e é um sintoma da dislexia.

Como podemos classificar o disléxico diante das pessoas?

Existem três tipos de pessoas: as intelectuais, as médias e as inteligentes. O intelectual é aquele nota 10 na escola, que entra nas melhores faculdades e que toda escola gosta bastante. O perfil dele é utilizar muito bem a área de broca e wernicke, ele tem a assimilação do conteúdo e consolida as memórias, reproduzindo fielmente tudo aquilo que ele aprende. Às vezes, o intelectual é antissocial já que, geralmente, pensa que é o dono da verdade, que é especial e cobra muito de si e dos outros. Já as pessoas da média vão bem na escola, entram em faculdades, trabalham bem, mas estão na média e são 50% das pessoas. E os inteligentes são os disléxicos, com nota vermelha, dão trabalho. Isso porque a dislexia oferece uma percepção sensitiva maior. A sensitividade está no tálamo que passa de forma potencializada para o lado direito, tornando-os extremamente inteligentes e capazes, a exemplo de Albert Einstein, Thomas Edson, Walt Disney, Leonardo Da Vinci, etc. Na escola, pode-se fazer esse trabalho paralelamente sem precisar reprovar, porque socialmente e emocionalmente está tudo bem. Nós precisamos abrir os nossos olhos para entender três níveis de alunos, porque são eles que sairão para o mercado de trabalho. Toda empresa precisa de um inteligente, um mediano e um intelectual para potencializar o ambiente de trabalho. As grandes empresas já estão aderindo a isso. Se contratar só os intelectuais não têm êxito, porque não irá criar nada novo. Só média, também não vai potencializar. Só a inteligente, sem disciplina, também vai quebrar. Os três são importantes.

Há como se adaptar diante dessa dificuldade?

Tudo começa pelo ensino. Isso se ensina. É um tempo diferenciado. Regras na escola e com os pais. Deve dar disciplina e palmada na criança quando é necessário. Não é agressão, é palmada. A criança quando é pequena ela entende a dor também. Ao dizer não e ela insistir e levar uma palmada, o cérebro avalia que o "não" representa um aviso para não sentir dor. As crianças devem ter hora para comer, dormir, brincar, devem ter regras. Os pais têm que ser orientados sobre isso.

A dislexia é confundida com preguiça ou desobediência ou outro problema?

Sim. Isso gera um desgaste na criança até chegar no diagnóstico. A criança disléxica é um adulto disléxico, o que gera transtornos e sintomas por falta de conhecimento. Tem que mudar essa situação e só o ensino faz isso. Muitos pais percebem que os filhos têm algo diferente, mas têm vergonha e medo que a escola descubra. Quando a gente passa a informação certa, que a dislexia pode ser usada a favor, que apresenta vantagens, a visão sobre a dislexia se modifica. O disléxico é muito inteligente e pode usar a inteligência de forma vantajosa por meio do ensino e da orientação dos pais e da sociedade como um todo. Um erro grande na educação é que as crianças estão sendo alfabetizadas aos cinco anos e meio. O cérebro não está preparado. Só 25% das crianças deveriam ter dificuldade no aprendizado porque seriam disléxicas, mas a média de alunos que consegue aprender a ler, a escrever e a interpretar está em torno de 25%. Ou seja, só os intelectuais estão conseguindo trabalhar. Os que estão na média também estão como disléxicos. O que é um erro, pois aos sete anos o cérebro consegue fazer a leitura e escrita ideal das palavras.

A partir de sete anos é que a dislexia é diagnosticada?

Geralmente, diagnostico uma criança com dislexia a partir do momento em que começa a andar e a falar, porque ela faz alguns atrasos significativos ou adianta muito o tempo dela. Por exemplo, uma criança que fala entre um ano e seis meses a dois anos, provavelmente é disléxica, mesmo não tendo disfasia ou dispraxia. Isso indica que esse ponto é um ponto que vai demorar também no processo de leitura e escrita. Há como perceber o risco de ser disléxico. Daí, inicia-se um trabalho que acelera o processo do lado direito para que a criança tenha menos prejuízo em sala de aula, estando mais no padrão.

Como os pais podem estimular o aprendizado?

É muito importante falar com o filho. Mas existe uma diferença entre falar com ele e falar muito com ele. Deve-se falar em uma linguagem apropriada à idade e na quantidade certa, a fim de que ele consolide o que está sendo dito. Não adianta falar muito, porque ele não vai entender nada do que está falando e ficará até cansado de ouvir a sua voz.

FIQUE POR DENTRO

Brincar em família estimula o cérebro

Sentar com as crianças para fazer o dever de casa ou contratar outra pessoa para ajudar a fazê-lo. Isso é errado. Segundo Nancy Stoianov, a lição deve ser um momento em que a criança se desafia sozinha. Ela tem que fazer a lição e a escola precisa perceber se há dificuldade e criar alternativas para ajudá-la.

Ao invés de fazer a lição junto, ela orienta que os pais podem comprar um livro para ela ler ou assistir a um filme e discutir como entendeu. "Brincar de quebra-cabeça ou jogar baralho é superlegal, e ainda junta a família e estimula o cérebro. Geralmente, quando os pais tentam alfabetizar desgasta muito a criança; algumas vezes, ambos se irritam. Então ter um profissional (P.S.I/Processo Seletivo de Informação) é importante", diz.

Para Nancy, não há problema se a criança não consegue entender um conteúdo. Espera-se a segunda poda neuronal (11/12 anos) e esclarece depois. Com isso, ela vai se tornar um autodidata. "Deixará muito conteúdo sem importância na escola, sem maltratar a criança com algo que ela não vai usar. O P.S.I reúne dados que são usuais no dia a dia. A meta é tornar a criança autodidata, potencializar o nível de aprendizado para desenvolver suas habilidades", explica.

A especialista ainda destaca que precisa-se entender que as pessoas não são iguais. "Não pode massificar o ensino e considerar incapaz quem não se adequa. A imprensa, os educadores e os pais devem alertar. Os pais sozinhos não conseguem tudo".

Vicky Nóbrega
Especial para o Vida

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