Enfermidades

O corpo impõe paradas obrigatórias

23:32 · 18.03.2013
Distorções entre o corpo físico e a mente são mensagens simbólicas para se rever a forma de ser e agir no mundo

O sintoma não é apenas a expressão de uma disfunção biológica. "É também um apelo, um grito de alerta de que eu preciso mudar alguma coisa (rever atitudes, valores, comportamentos) e, com isso, possa ter uma vida mais autônoma e geradora de saúde. Não se trata de uma verdade reduzindo a outra, mas de uma leitura complementar que permite ao leigo dar sentido ao seu sintoma. É a linguagem do inconsciente manifestada por meio dos sintomas", explica Adalberto de Paula Barreto, professor do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e criador da Terapia Comunitária Sistêmica Integrativa.

Em seu recém-lançado livro "Quando a boca cala, os órgãos falam - desvendando as mensagens dos sintomas", Barreto faz uma síntese de 15 anos de estudos, práticas clínicas, etnopsiquiátricas e psicopedagógicas. Trata-se de uma obra muito mais interrogativa do que afirmativa. Ela não propõe a contrapor os conhecimentos científicos e os avanços da biomedicina, tão necessários, segundo ele, mas a trazer elementos que nos permitam observar a doença como um processo "biopsicossocio-espiritual".

Processo de adoecimento

A proposta, descreve, é agregar diversas leituras culturais "para que possamos entender o processo de adoecimento, com todas as suas subjetividades e sutilezas".

De formação cartesiana, é Doutor em Psiquiatria pela Universidade René Descartes Paris e em Antropologia pela Universidade Lyon, Adalberto Barreto começou a dedicar-se ao estudo das medicinas populares e seus sistemas de crenças quando fundou o projeto de pesquisa e extensão na área de saúde comunitária na Comunidade Quatro Varas, no bairro do Pirambu. A partir daí, começou a observar mais atentamente as relações entre as queixas e os sintomas.

Fundamentado na vasta literatura alemã, francesa e americana existente sobre a temática, "comecei a pesquisar para ver o fundamento do que os curandeiros faziam, e passei a desmistificar, compreendendo que havia uma lógica em tudo aquilo. Alguns curandeiros conhecem esses códigos. Não há nada de mundo espiritual, são códigos do corpo", revela.

Enfermidade x doença

Embora em muitos momentos do livro Adalberto Barreto cite a palavra doença, esclarece que em todas elas está se referindo à enfermidade.

Faz questão de pontuar essa diferença. Doença ("disease") refere-se à explicação científica universal das doenças estudadas na Academia, de domínio biomédico. Enfermidade ("illness") é a percepção que o indivíduo tem sobre sua doença a partir de sua cultura e valores, e cujos sintomas envolvem todas as dimensões do ser humano (física, psíquica, espiritual, social) situada no campo da subjetividade. Ou seja, a doença é vista na perspectiva cultural. Assim, informa Barreto, um mesmo sintoma pode ser lido de diferentes formas, em função da história da pessoa e dos diversos contextos em que ela vive.

Diálogo mente e corpo

O corpo tem muitas formas de comunicar suas dores, sofrimentos e enfermidades. Adalberto Barreto menciona Michel Odoul, autor do livro "Diga-me onde dói e eu te direi porque: os gritos do corpo são as mensagens das emoções", o qual identifica três mensagens que assinalam as distorções entre o espírito invisível e o corpo físico.

Na primeira, representada pelas tensões físicas e psicológicas, o corpo fala por meio de mensagens sutis que se manifestam em problemas fisiológico e psicológico. Insônia, pesadelos, mal estar, dor na cabeça e nas costas sinalizam que nosso mestre interior está nos chamando a observar este final e dar uma parada.

Tomando como exemplo o mal-estar gástrico, Adalberto Barreto cita o caso de alguém que sente ânsia de vômito após um jantar afetivo. Tal situação, segundo ele, tanto pode representar a má qualidade do elemento material que foi ingerido, como também pode falar de uma relação que também não é considerada sadia. Como órgão que aloja memórias (mágoas e ressentimentos), o estômago representa nossa necessidade de amor, principalmente quando vivemos um conflito entre nossos desejos e necessidades no contexto familiar e no trabalho.

No momento em que a primeira mensagem do corpo não é entendida, a parada seguinte é realmente obrigatória. É nesse instante que o organismo grita, bate com força por meio de traumatismos do corpo e dos membros (fraturas, entorses), que devem ser interpretados como mensagens codificadas e a evacuação das energias tensionais armazenadas.

Para os orientais não existe acaso. Possivelmente, a fratura vai acontecer numa determinada região do corpo onde há uma maior tensão energética. Ao se quebrar o punho a leitura pode ser: o que eu estava querendo fazer e não estava sendo possível?

Quando as mensagens sutis não foram devidamente decifradas e os traumatismos não foram levados a sério como deveriam, o corpo reage de forma mais contundente, momento em que a doença se instala. Para Barreto, "as doenças nos convidam a uma reflexão sobre nossos limites, dificuldades de aceitar mudanças e de admitir nossas limitações. Elas enfraquecem ou revigoram a imunidade interior".

Entre a parte e o todo

Assim como as palavras, o corpo tem vários sentidos. "Do mesmo jeito que uma palavra para ser entendida precisa do contexto da frase, um sintoma precisa estar ligado ao contexto em que vivemos".

No livro, Barreto propõe ao leitor um diálogo (chaves de leitura) com cada parte e função do corpo humano ao longo de 38 capítulos, tendo a coluna vertebral como ponto de partida. Pilar da estrutura óssea e muscular, em seu aspecto psicológico a coluna simboliza as raízes genealógicas e tudo o que suportamos dos desafios impostos pela vida.

O corpo é apresentado de forma fragmentada, uma forma didática para facilitar o diálogo e favorecer o autocuidado e o cuidado com o outro, descreve Barreto. Cada parte do corpo é apresentada com suas palavras-chaves, ou seja, que sintetizam sua função psicoemocional, apontando os possíveis desconfortos somatizados e manifestados em um determinado local.

FIQUE POR DENTRO

Formação visa à decodificação dos sintomas

"Você quer saber como está seu corpo hoje? Lembre-se do que pensou ontem. Quer saber como estará seu corpo amanhã? Olhe seus pensamentos hoje".

A citação de Deepak Chopra dá o mote para a temática dos dois cursos de formação "Decodificando a linguagem corporal", que serão ministrados por Adalberto Barreto no espaço Oca dos Índios, na Praia do Morro Branco (CE): de 16 a 22 de junho e de 20 a 25 de outubro. Cada um terá 40 horas/aula.

As tensões e traumatismos físicos e psicológicos; a lateralidade (direita simbólica da mãe e esquerda simbólica do pai) e os três tipos de mensagens serão alguns dos pontos abordados na formação, destinada tanto a leigos como profissionais da escuta. Mais informações podem ser obtidas no site: www.4varas.com.br ou pelo telefone: (85) 3228.3848.

Visão holística

Quando a boca cala, os órgãos falam... Desvendando as mensagens dos sintomas
Adalberto de Paula Barreto - editora LCR
400 páginas - R$ 60,00

GIOVANNA SAMPAIO
EDITORA DO VIDA

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