Entrevista com Sandra Rebouças Macedo

O assoalho pélvico saudável aprimora a vida da mulher

00:00 · 30.09.2013
A consciência da região pélvica beneficia o funcionamento da uretra, do ânus, e das funções sexuais

Como se define o períneo e onde se localiza?

O períneo constitui a camada superficial do assoalho pélvico. Na mulher, localiza-se entre o ânus e a vulva, na entrada da vagina. No homem, o períneo localiza-se entre o saco escrotal e o ânus. Períneo e assoalho pélvico são termos usados rotineiramente como sinônimos, apesar disso não ser exatamente correto. Contudo, a palavra períneo traduz a localização que essa região ficou popularmente conhecida.

A fisioterapeuta atua há 15 anos na área de fisioterapia pélvica, é doutoranda em Ciências na Unifesp e docente do Centro Universitário Christus nas disciplinas fisioterapia na saúde da mulher e fisioterapia na saúde do idoso FOTO: HELOÍSA ARAÚJO

Como é a estrutura do assoalho pélvico e qual sua função no organismo?

É o conjunto de partes moles que fecham a pelve e é formado por músculos, ligamentos e fáscias. Sua função é sustentar as vísceras abdominais e pélvicas, resistindo às pressões exercidas pelo aumento da pressão intra-abdominal, principalmente sobre bexiga, útero e reto. Atua também com ação esfincteriana na região uretral, vaginal e anal, na defecação (auxiliando ou impedindo), na continência urinária; fixa os ramos do clitóris aos ramos inferiores do ísquio e púbis ao diafragma urogenital, potencializando os orgasmos. No parto, o assoalho pélvico sustenta a cabeça do feto durante a dilatação do colo do útero.

O descuido com o períneo pode acarretar em quais doenças?

Nas disfunções do assoalho pélvico como é o caso da incontinência urinária, incontinência anal, distopias genitais (todo e qualquer deslocamento dos órgãos genitais, desviando-se da posição típica e normal), disfunções sexuais e algias pélvicas (ou dores pélvicas).

Quais os benefícios que o períneo saudável pode trazer ao organismo?

Ter continência urinária, que é a capacidade normal de uma pessoa acumular urina com controle consciente do tempo e do lugar para urinar; ser continente anal, ou seja, controlar o desejo de defecar ou eliminar flatos (gases intestinais); e ter função sexual saudável.

Como podemos preveni-las?

O treinamento dos músculos do assoalho pélvico (TMAP) deve ser praticado no dia a dia. Preferencialmente na posição deitada, sentada e em pé. Sugere-se que use todas as possibilidades para realizar a ginástica perineal, como por exemplo antes de levantar, durante o banho e no carro, durante a parada em um semáforo.

É comum não se tratar do períneo por uma questão de falta de conhecimento do próprio corpo. Como percebe essa postura da população? Uma grande parte das mulheres não têm consciência corporal de sua região pélvica (perineal) e não conseguem contrair seus músculos perineais quando solicitadas em uma primeira vez. Em estudo mais recente foi relatado 44,9% de inabilidade de contração dos músculos perineais em mulheres sem disfunções. Já em mulheres incontinentes, a dificuldade é ainda maior, e abrange 65,5% dessas.

Há exercícios que utilizam o períneo para o bom desempenho? Pode citar alguns e explicar como a prática trabalha a região?

Para a boa realização do exercício indico avaliação fisioterapêutica com uso de biofeedback eletromiográfico, que utiliza um recurso de monitoramento (em forma de gráfico) dos músculos pélvicos durante os exercícios. Yoga e pilates podem ser ótimos aliados desse fortalecimento muscular para aquelas mulheres que já despertaram a consciência corporal (perineal), pois, caso contrário, irão fazer o movimento oposto e não fortalecerão as fibras musculares como deve acontecer com um treino localizado. A fisioterapia proporciona o treino específico dessa musculatura através do Biofeedback, como dito anteriormente, e outros recursos como a eletroestimulação e os cones vaginais (pesos vaginais para treino domiciliar).

Sobre o pompoarismo, é recomendada a prática apenas a pessoas que queiram utilizá-lo no ato sexual ou ele também é utilizado como método fisioterapêutico?

A fisioterapia e o pompoarismo têm apenas um ponto em comum quando o tema tratado é função sexual, exercitar a musculatura perineal. O pompoarismo é uma ginástica milenar que utiliza o pompoar (a bem wa ou as bolinhas tailandesas) com objetivo exclusivo de exercitar a musculatura vaginal para melhorar o desempenho sexual. A fisioterapia também aborda a função sexual, potencializando-a, "o que está bom pode ficar melhor". A distinção está nos recursos usados entre ambas e na atuação da fisioterapia na reabilitação dos casos de disfunções sexuais, como na anorgasmia (dificuldade de atingir o orgasmo ou ausência de orgasmo), no vaginismo (contração inconsciente dos músculos vaginais), na dispareunia (dor na relação sexual), vulvodínia (desconforto na região vulvar / genitália externa, principalmente entre os pequenos lábios, sem que haja sinais de inflamação ou de infecção). Nos homens, ambas atuam fortalecendo a musculatura com intuito de retardar a ejaculação precoce. Estudos mostram que 40% a 50% das mulheres apresentam pelo menos um sintoma referente à função sexual. Dessa forma, essa ginástica pélvica deveria fazer parte da rotina de toda mulher.

O vaginismo é um distúrbio também causado na região do períneo decorrente à contração involuntária do músculo da vagina. Trabalhar a musculatura do períneo por meio desses métodos auxilia na recuperação?

Correto, o vaginismo é a contração inconsciente dos músculos vaginais, geralmente associada a fatores psicológicos. A fisioterapia pélvica tem importante papel para orientar essa mulher no relaxamento dos músculos vaginais e na aceitação da penetração sem dor ou desconforto, atingindo uma vida sexual saudável. Nesse caso, indica-se a participação do ginecologista, do fisioterapeuta pélvico e do psicólogo/sexólogo para abordar de forma interdisciplinar as questões físicas, psicológicas e relacionais da paciente.

São as mulheres que sofrem mais com problemas no períneo? Isso se deve a que fatores?

Sim. As disfunções do assoalho pélvico têm causas multifatoriais, dentre elas partos vaginais, hipoestrogenismo (pós- menopausa), idade /envelhecimento, atividades de esforço físico intenso, obesidade e tosse crônica. Por exemplo, incontinência urinária (IU) é comum em mulheres, podendo acometer até 50% delas em alguma fase da vida. Na menopausa, 47,6% das mulheres sofrem de IU, contra 28,2% das que não atingiram o climatério (transição do período reprodutivo ao não reprodutivo). São cerca de 50% das mulheres multíparas (com dois ou mais partos) que apresentam algum grau de prolapso genital (queda dos órgãos pélvicos).

Qual a relação do períneo com a qualidade de vida e a saúde da mulher?

O termo Qualidade de Vida tem enfoque multidimensional e seu conceito é subjetivo, pois incorpora aspectos sociais, físicos e mentais do indivíduo. Nas mulheres com disfunções do assoalho pélvico a qualidade de vida destas mulheres pode ser afetada de modo significativo, interferindo negativamente nos aspectos psicológicos, físicos, profissionais, sexuais e sociais.

E quanto às gestantes, os exercícios e o trabalho constante com o períneo podem assegurar um parto natural?

Os exercícios dos músculos perineais nas gestantes que optam pelo parto vaginal têm um efeito protetor, assegurando mais segurança em relação aos possíveis danos gerados pelos traumas de parto. Contudo, é necessário que a gestante seja acompanhada por especialistas com o intuito de "proteger" o períneo, não só com exercícios, mas também com técnicas de relaxamento e massagens perineais para aumentar a elasticidade do períneo visando o momento do parto.

Uma vez que se trata de músculatura, é possível promover a reabilitação do períneo após a gestação? Os exercícios em casa podem auxiliar nesse processo?

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), a maioria das mulheres sofre algum tipo de trauma perineal no parto vaginal, em razão de lacerações perineais espontâneas ou de episiotomia (incisão na musculatura para alargar o canal de parto). Nesses casos, a fisioterapia pélvica age nas fibras musculares do assoalho pélvico, reabilitando a função comprometida (urinária, anal ou sexual). A eletroestimulação e os exercícios dos músculos perineais auxiliam no processo. Deve-se associar uma boa dieta para evitar a constipação e, consequentemente, o esforço na evacuação, o que promove o estiramento do assoalho pélvico, trazendo complicações.

SAIBA MAIS

Exercícios direcionados ao assoalho pélvico podem ser realizados em casa;

Antes, faça uma avaliação da consciência corporal para que se possa iniciar o treino muscular adequado;

Na musculatura pélvica predominam fibras musculares de resistência (fibras tipo I - 70%) e fibras rápidas (fibras tipo II - 30%), que representam atividades distintas e consequentemente treinos específicos;

Contraia a musculatura e mantenha a contração por 8 a 10 segundos e relaxe pelo mesmo tempo (fibras tipo I);

Treine as fibras do tipo II fazendo contrações rápidas (aperte e solte);

O tempo de treino deve aumentar gradativamente, para não promover fadiga muscular;

A prática do treinamento específico só terá efeito se a contração dos músculos do assoalho pélvico (MAP) for executada corretamente;

O fisioterapeuta pélvico garante a eficácia e os resultados positivos dos exercícios.

Vicky Nóbrega
Especial para o Vida

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