Dieta infantil

Nutrir sem compensar, punir ou chantagear

02:58 · 06.08.2013
Em meio à busca em fazer a criança comer bem, os pais cometem erros comuns que podem gerar restrições

A influência dos pais, principalmente da mãe, é tão significativa na construção da escolha nutricional da criança que estudos constatam essa interferência a partir da gestação por meio dos produtos ingeridos pela mãe. Ali se dá o primeiro contato com os sabores; se a mãe for seletiva, a criança também será.

Selecionar os alimentos dos filhos é dever dos pais para criar hábitos saudáveis, mas a criança tem capacidade de definir a quantidade suficiente Foto: Divulgação

Para garantir que o pequeno coma de forma saudável e espontânea, o ideal é educar desde cedo. "Oferecer uma dieta preparada somente com temperos naturais; incentivar o consumo de frutas, verduras e integrais; evitar comidas ricas em gordura e açúcar (refrigerantes, doces, bebidas açucaradas, biscoitos recheados e fast foods) são medidas essenciais", diz Lívia Campos.

Isso porque, segundo Samara Mesquita, a formação do paladar depende da oferta às quais a criança é exposta. "Se você apresenta um alimento azedo ou amargo, ela pode estranhar inicialmente. O comum é os pais desistirem na segunda tentativa, mas o item deve ser ofertado de 8 a 12 vezes em intervalos de tempo significativos para que a criança decida se gosta ou não. Os pais devem estimular, e não forçar a comer".

A professora destaca outro erro frequente: a transferência de aversão dos adultos a determinados alimentos, os quais passam a não oferecer ou, quando o fazem, introjetam na criança que ela não irá gostar também.

Indisciplina e seletividade

Lívia Campos conta que, na prática, a maioria das crianças que põem obstáculos agem por indisciplina (ingestão de salgadinhos ou guloseimas antes das refeições, substituição por beliscos em horários irregulares) e seletividade alimentar (preferência por certos alimentos). Há casos em que a recusa pode indicar rebeldia ou a tentativa de independência correspondente à idade.

As nutricionistas não recomendam o ato de beliscar. "Mas se a criança pede para beliscar antes do almoço, dê cenoura ou beterraba cortada em florzinhas. Um erro maior é oferecer biscoitinho ou outra comida inadequada", orienta Samara Mesquita.

Atitudes como recompensas, chantagens, subornos, punições e castigos para forçar a criança a comer devem ser evitadas, pois podem causar distúrbios nutricionais no futuro. Segundo Lívia Campos, "a recusa insistente de um determinado alimento pode mostrar que a criança não o aprecia. O ideal é substituí-lo por outro que possua os mesmos nutrientes ou variar o seu preparo se ele for fundamental".

Samara Mesquita complementa que recompensas, especialmente com doces, geram um efeito negativo, pois incentiva a criança a gostar mais da guloseima e associar a refeição a algo ruim. "Use reforços positivos como dizer que ficará mais forte, inteligente e que terá mais energia para brincar. Jamais force a comer ou deixe de castigo. A proibição fará com que a criança queira compensar a falta nos momentos em que não estiver acompanhada dos pais".

Isso se aplica também ao fast food. Uma boa forma de evitar o interesse é não criar uma rotina para ingerir esses alimentos. É comum ver os próprios pais influenciarem e reforçarem isso, dedicando, o programa do sábado a comer determinado alimento, ou fazendo a coleção de brinquedos que trazem brindes ao consumir o produto. Pode levar uma vez no mês ou esporadicamente, mas não ser rotina.

"O comportamento da criança é moldado pelos pais, assim como os outros hábitos. Se você lê, a criança vai querer ler, se você come bem, o mesmo ocorrerá. As influências externas irão interferir, mas se a criança tiver uma base bem formada, ela estará de certa forma mais ´protegida´ a fast food e industrializados".

Quantidade x qualidade

Quanto à quantidade, muitas vezes, o fato de a criança não querer comer gera angústia nos pais que acabam exagerando no volume ofertado ou substituindo-o.

Samara Mesquita esclarece que tudo não passa de uma fase. Em geral, algumas criança entre 2 a 3 anos reduzem a quantidade de energia gasta e, com isso, reduzem o apetite.

Outras distrações como televisão ou não comer sentado à mesa geram alterações no interesse pela comida. Diante disso, os pais se assustam e formam na criança um hábito inadequado quando deveria persistir no alimento mesmo que ela insista em comer pouco.

A preocupação não deve estar focada na quantidade, mas na qualidade. Os pais podem selecionar os alimentos, mas devem saber que a criança é capaz de regular a quantidade ingerida, tendo consciência até que ponto é suficiente. Aos pequenos que fazem das refeições um momento de tensão, há métodos eficazes, mas que exigem paciência.

Uma boa forma é estimular a criança a experimentar novos alimentos. A culinária criativa é uma forte aliada da boa nutrição. Os alimentos devem ter textura e sabor apropriados à idade. As preferências individuais da criança devem ser respeitadas na medida do possível.

FIQUE POR DENTRO

O afeto pontua as relações com o alimento

Muito além de uma necessidade fisiológica, a alimentação tem um papel importante na vida do indivíduo e sofre forte interferência da dinâmica familiar, pois nela estão envolvidas grandes quantidades de afeto. É o que afirma a psicóloga Nadine Filgueiras, pós-graduanda em Psicoterapia Psicanalítica e integrante da equipe pediátrica do Instituto AMO.

A relação entre mãe e bebê perpassa a amamentação. Por meio dela, são acalmadas as primeiras angústias e sensações, como também é possibilitada a formação de prazer. A constituição do bebê como sujeito se dá exatamente nesse momento. Diante disso, a alimentação ganha importante significado e pode representar inúmeras demandas.

"É como se o ´problema alimentar´ apontasse para outras questões do sujeito. Por trazerem as primeiras demandas, os pais devem estar envolvidos ao longo de todo o processo psicoterapêutico. A entrada da criança nesse processo resultará na formulação de uma demanda própria, que aos poucos se desenrola da demanda parental", destaca a psicóloga.

Além disso, é por meio da articulação da psicoterapia da criança com a escuta dos pais, em paralelo, que o psicólogo poderá desvendar os sintomas da criança.

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