DIAGNÓSTICO

Nova conduta para a esclerose múltipla

22:51 · 19.11.2011
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A esclerose múltipla pode afetar todas as funções cerebrais, incluindo movimentos, visão e ações mentais e sexuais
A esclerose múltipla pode afetar todas as funções cerebrais, incluindo movimentos, visão e ações mentais e sexuais ( Arquivo )
Surtos da EM indicam o local onde aconteceu a lesão no sistema nervoso central

Quando a técnica de enfermagem Margarida Barroso (31) descobriu ser portadora de esclerose múltipla, há seis anos, sentiu um grande choque. "O médico foi ríspido ao dizer que teria de escolher entre continuar trabalhando ou me cuidar. É difícil para quem tem a doença se manter no emprego, pois cada crise pode se estender por um período de duas a quatro semanas", relata.

Anualmente Margarida apresenta dois surtos de esclerose múltipla, sempre em algum local diferente do organismo. Para reduzir a intensidade das crises, faz uso diário de remédios injetáveis, até então único modo de tratamento medicamentoso. Uma nova conduta por via oral, através do composto fingolimode (Gilenya), pode colaborar com a diminuição do desconforto para o paciente, além de ter uma eficácia 52% superior em relação a outros tratamentos.

Manifestação

"O que caracteriza a doença é justamente o aparecimento de surtos, que acontecem em pontos diferentes do sistema nervoso central. O surto é uma expressão que depende do local onde ocorreu a lesão", relata dr. Fernando Figueira, chefe do serviço de neurologia do Hospital São Francisco da Penitência, no Rio de Janeiro e membro titular da Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (ABEM).

A esclerose múltipla é uma doença autoimune que ocorre quando os linfócitos - células de defesa do organismo - passam a atacar a mielina, membrana celular que reveste o neurônio (célula do sistema nervoso central responsável pela transmissão das informações por todo o corpo).

Quando se quer falar o nome de um objeto que está observando, por exemplo, a informação é transmitida do campo da visão para o campo da fala no cérebro através dos neurônios. Esse processo acontece de forma extremamente rápida. Entretanto, se a mielina é atacada, o processamento das informações no cérebro acontece de forma retardada, pois o nervo para de funcionar. Com o avançar da doença, o comprometimento cerebral torna o portador incapacitado para realizar qualquer atividade.

Razões desconhecidas

O motivo pelo qual os linfócitos começam a atacar as células do sistema nervoso central ainda é desconhecido. Os locais de prevalência da esclerose múltipla, porém, mostram alguns indicativos de fatores que podem estar relacionados à doença.

Os países com maior incidência são os da América do Norte, Europa e Oceania, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A população nessas regiões é menos exposta à luz solar, o que poderia ser uma das causas para o aparecimento da EM. O sol é fundamental para a síntese da vitamina D, substância que tem forte influência no sistema imunológico.

Outro ponto em comum entre os locais com maior prevalência são os altos índices de higienização da população. "Hábitos como andar descalços, tomar banho de chuva, são importantes para a ativação do sistema imunológico", declara Fernando Figueira. Em ambientes de higiene extrema, o sistema imunológico não é treinado para responder de forma adequada às situações do cotidiano.

O fator étnico é uma outra hipótese que pode estar relacionada ao aparecimento da EM. Nos Estados Unidos, por exemplo, a doença é mais recorrente em pessoas de origem caucasiana em relação aos afro-americanos. Outro forte candidato a desencadeador da esclerose é o vírus da mononucleose infecciosa. Segundo o médico, quem já foi infectado pela mononucleose aumenta em 17 vezes a chance de desenvolver uma doença autoimune.

Diagnóstico

O diagnóstico da doença é baseado principalmente na sua característica de disseminação espacial e temporal, ou seja, os surtos acontecem em diversos momentos da vida e acometem locais diferentes do sistema nervoso central. Muitas infecções, porém, podem acontecer sem sintomas clínicos. Dessa forma, é comum que o paciente que procura um especialista após o primeiro surto já tenha um histórico da doença que só é percebido após uma ressonância magnética. "Calcula-se que, para cada manifestação visível da esclerose múltipla, o paciente já passou por 15 lesões sem sentir nenhum sintoma", relata o médico.

Mesmo com o auxílio da ressonância magnética, é essencial que o paciente não tenha nenhuma outra condição que possa explicar melhor a sua doença. Segundo dr. Fernando Figueira, há uma infinidade de doenças que podem simular esse quadro.

"Há casos na Turquia de pacientes que após o primeiro surto foram diagnosticados com EM, mas 12 anos depois provaram ter lupus", relata. Tais fatos ocorrem porque as causas da doença ainda são desconhecidas. Dai ser importante que o médico mantenha um diálogo constante com o paciente e revise periodicamente o estado do portador para garantir o diagnóstico.

Nova alternativa de tratamento, o composto fingolimode (Gilenya) é o primeiro remédio para EM por via oral. Recém-chegado no Brasil, o fingolimode impõe uma barreira aos linfócitos, impedindo que ataquem a mielina, reduzindo os riscos de surto (retarda a incapacidade neurológica). O medicamento custa cerca de R$ 7 mil mensais, mas pode ser obtido gratuitamente através do SUS.*O Viva viajou a convite da Novartis.

Fique por dentro

Rodas de conversa e palestras

Buscando reunir os portadores de esclerose múltipla para a troca de experiências e esclarecimentos sobre a doença, um grupo de pacientes de Hospital Geral de Fortaleza (HGF) criou a Associação de Amigos e Portadores de Esclerose Múltipla do Ceará (AAPEMCE).

Segundo Margarida Barroso, tesoureira da associação, a AAPEMCE possui 50 pessoas cadastradas, embora a maioria não compareça aos encontros mensais. "As pessoas têm vergonha de serem identificadas com esclerose múltipla pelo preconceito que sofrem da sociedade. Muitos acham que é uma doença transmissível, o que não é verdade. A desinformação gera muito isolamento dos portadores", afirma.

A AAPEMCE realiza mensalmente rodas de conversa com os portadores, palestras com profissionais da saúde, além de possuir convênio com o serviço de terapia ocupacional do Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami) da Universidade de Fortaleza. Informações podem ser obtidas por e-mail (aapemce_aapemce@hotmail.com) ou pelo telefone (85) 9992.4987.

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