CUIDAR

No novo aprendizado, o cuidar vira prazer

20:07 · 07.05.2011
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Ofertar os cuidados, para as quatro irmãs, resulta sempre em respeitar às necessidades pessoais e do outro. O servir é algo natural e inerente ao humano e começa a ser valorizado pela necessidade. Com o servir transparece o vi&
Ofertar os cuidados, para as quatro irmãs, resulta sempre em respeitar às necessidades pessoais e do outro. O servir é algo natural e inerente ao humano e começa a ser valorizado pela necessidade. Com o servir transparece o vi& ( Foto: Thiago Gaspar )
Um amigo me chamou para cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso e fui.

O sentido poético do ato de cuidar, dado aqui pela escritora Clarice Lispector, expressa ao mesmo tempo o modo pelo qual cuidadores costumam oferecer seus cuidados, por terem aprendido isso desde tenra idade, e seu sacrifício pelo bem-estar e alegria do outro.

Em termos de justa medida, nem sempre é fácil avaliar o ponto de cuidar do outro. Reconhecer as necessidades reais de atenção, carinho e zelo, esbarra na clareza de se nutrir o suficiente para não confundir carências de ambas as partes, as quais viram sobrecarga que afeta a saúde e equilíbrio de quem cuida.

Além disso, ao sair de si, o cuidador ainda corre o risco de criar hábitos não muito saudáveis, tornando outros dependentes de seus cuidados, quando se coloca de tal forma disponível ao sofrimento do outro, esquecendo de si sem enxergar que necessita e também merece cuidados.

Grupos de ajuda

As dificuldades em administrar seus próprios problemas, seja de qual ordem for(econômico, familiar ou afetivo) tem levado muita gente a adoecer, por conta da ansiedade, do estresse e, sobretudo, do sentimento de incapacidade de gerenciar a própria vida, registram Lothar Carlo Hoch e Sidnei Vilmar Noé, na obra "Comunidade Terapêutica - Cuidando do ser através das relações de ajuda" (Sinodel).

A crescente busca por ajuda médica, psicológica e, agora intensamente por auxílio espiritual (nas igrejas e fora delas), são sinais claros desse momento difícil e de vazio existencial, dizem Hoch e Noé. Para eles, o anseio para sanar essa dor tem levado as pessoas a se agruparem em uma rede de cuidados coletivos.

Ao lado dos componentes físico, psicológico e social, o dilema presente se configura também como um problema da alma humana, atestam. "Mais do que nunca, as pessoas buscam redes de apoio, espaços de encontro com outros que vivem situações parecidas, grupos onde possam vivenciar relações humanas confiáveis e cultivar a espiritualidade", registram. A comunidade terapêutica e o cuidado do ser, para eles, só podem ser viabilizados na perspectiva do o amor que anseia por ser vivido.

Foi exatamente este amor que levou a farmacêutica Graça Lopes a abraçar o cuidado de outros como nova profissão. Utilizando recursos da terapia energética (vibracional) consigo, além de todo o arsenal da medicina convencional, Princeza (como Graça é conhecida), conseguiu atravessa um difícil ponto de ruptura e transformação.

Bem assistida nos dois episódios de câncer em que foi acometida, decidiu oferecer sua grata devolutiva à vida com o mesmo cuidar também profissional, como gesto genuíno de amor.

Já a irmã, a psicóloga Lucy Lopes, veio de uma carreira bem sucedida no campo da publicidade até receber seu chamado pessoal e mudar sua rota para o cuidado, cursando nova faculdade e abrindo o Espaço de Renascer. Trata-se de um espaço de acolhimento, com sensibilidade, carinho e presença, diz.

Sua larga experiência em anos trabalhando com grupos de ajuda no Bom Jardim a inspiraram a criar também seminários para repassar os cuidados também a quem cuida, como arte.

Cuidar do ser, conforme Lucy, tem várias dimensões, porque inclui não somente oferecer o cuidado ao outro, mas também cuidar de si, da casa, da comunidade, enfim, do próprio planeta.

Atenção ao social

Princeza logo entendeu que para cuidar de alguém tem que priorizar os cuidados consigo mesma. "Não atendo ninguém sem antes realizar uma oração, uma meditação, enfim, cuidar da minha própria energia e perceber se estou muito bem alinhada".

A irmã mais nova, Iana Lopes, é psicóloga e psicopedagoga. Atua no Centro de Atendimento Social (Caps), como especialista em dependências (tabagismo, álcool, drogas). Iana também assiste pais e estudantes de uma escola em Maranguape. E como se cuida (escolheu trabalhar menos, após descobrir um pequeno sinal de câncer), entrando em contato com a natureza, caminhando e meditando. Diz se sentir contente em passar isso para os grupos que acompanha.

Nas escolas, tem verificado como os pais vivem atribulações e não priorizam seus cuidados pessoais, o que reflete no aprendizado das crianças. "Estas crianças são órfãs de pais vivos e ausentes. São crianças ansiosas e com muito medo da vida".

A observação de crianças carentes de tudo (amor, afeto, alimento, família, educação, saúde, lazer), e o questionamento de como esses pequenos iriam constituir sua autoestima levaram Isabel Lopes a voltar seu cuidado para a área da pedagogia social e, nos últimos anos, para a família de uma forma atenciosa e com uma consciência mais sutil, como especialista em Constelações Familiares e facilitadora de grupos de Pathwork, em seu espaço Criando União.

Marcadas pela trajetória da mãe, Oda Lopes, as irmãs honram a tarefa de cuidar, a qual começa no próprio interior, se conhecendo a fundo e a suas necessidades. A satisfação é constatarem, na prática, o respeito que este legado do cuidar consciente adquire com todos os que compartilham, incluindo irmãos, filhos e sobrinhos (também do sexo masculino). A compreensão do cuidado como amor é valorizar tanto o ato de dar como o d e receber.


FIQUE POR DENTRO

Médico-paciente

As necessidades humanas dos pacientes muitas vezes não são atendidas pelos médicos, fazendo com que essa relação pareça distante. Esse fato, no entanto, tem despertado incômodo não só nos pacientes, mas também nos próprios médicos e futuros profissionais. Atentos à necessidade de repensar essa relação, estudantes e professores do curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) criaram o Projeto de Vivência na Integração Médico Paciente (Provimp) que, desde 1997 promove vários programas de inserção dos estudantes de medicina no convívio com pacientes em hospitais.

Uma nova iniciativa do projeto é o I Concurso de Fotografia do Provimp. Com o tema "Relação médico-paciente", é destinado a universitários e profissionais de todo o Brasil que tenham a fotografia como hobby. As inscrições estão abertas e vão até o dia 30 de junho. O regulamento está disponível no site www.provimp-ufc.webnode.com.br.

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