´vidrados´

Na telinha

00:00 · 12.01.2014
´Além de fragilizar a saúde, o manuseio incorreto de dispositivos eletrônicos interfere no convívio social. Na infância, eles ajudam no desenvolvimento cognitivo, mas é preciso a adequação das ferramentas

Dentro de mil anos, os nossos descendentes serão mais altos, terão cérebros menores e extremidades - mãos e dedos - mais alongadas. A previsão é de um grupo de especialistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e demonstra o quanto a evolução leva o homem a se adaptar e utilizar os recursos dos quais dispõe. Para os pesquisadores, no entanto, o processo já ocorre, graças às novas tecnologias e ao fato de estarmos sempre teclando ou digitando.

As relações familiares estão em primeiro lugar, diz a psicóloga Sarah Castelo Branco Foto: Divulgação

De acordo com o estudo, os dedos serão mais extensos para reduzir a necessidade de chegar mais longe e as terminações nervosas tendem a crescer devido ao uso frequente de dispositivos eletrônicos (tablets e smartphones), que necessitam de coordenação entre mãos e olhos.

"Especialistas calculam que, agora, existam mais de um bilhão de telefones móveis sendo usados ao redor do mundo. Uma em cada sete pessoas possui um smartphone", afirma o psicólogo Marcelo Salgado, especialista em psico-informática e professor do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor).

O "phubbing"

Imersos numa cibercultura, tablets e smartphones interferem não só nas práticas individuais, mas também nas formas de sociabilidade. Imagine a cena: você sai para jantar com um grupo de amigos e sempre tem aquele usuário que, ao invés de interagir com as pessoas que estão ao redor, deixa a conversa de lado e mantém-se fixo no celular. O fenômeno é expresso pela total atenção ao dispositivo em um ambiente de contato social e já tem nome: phubbing.

"A origem da expressão vem da fusão de ´phone´ (telefone) e ´snubbing´ (esnobar, em inglês). As motivações para a prática podem ser desde o vício pela Internet ou rede social online até a dificuldade em lidar com outras pessoas. É comum observar isso nos restaurantes de Fortaleza, principalmente aos domingos, quando a família se reúne", diz.

Vibração fantasma

Checar mensagens e ligações no celular tornou-se quase um reflexo condicionado. E à sensação de sentir o aparelho vibrando, quando na verdade não está, dá-se o nome de síndrome da ´vibração fantasma´.

O comportamento é uma alucinação comum a usuários que não desgrudam do smartphone. Um estudo feito pela Division of General Medicine do Baystate Medical Center (EUA) sugere que a atitude pode resultar de uma má interpretação de sinais sensoriais aferidos pelo córtex cerebral. E que 68% dos participantes já passaram pela situação de sentir o celular vibrando, quando o mesmo estava silencioso. Já 87% enfrentam isso pelo menos uma vez por semana e 13% se deparam todos os dias.

Elemento compulsivo

"Alguns psicólogos acham que há um elemento compulsivo no sentir da sensação fantasma, ou mesmo que ela ocorre apenas quando há atrito no bolso. O fenômeno é recente e as pesquisas não são conclusivas", afirma Salgado. A tendência, entretanto, é que essa alucinação tátil chamada de "vibransiedade" poderá crescer e tornar-se comum entre os usuários de celulares, tablets e smartphones.

Cada vez mais cedo

Os especialistas que descrevem como serão os nossos descendentes são os mesmos que já notam os dedos mais longos em crianças nascidas nos últimos anos. E não é à toa. Estudo da organização Commom Sense Media aponta que 38% dos menores de dois anos já usaram um dispositivo móvel para jogar ou ver vídeos.

Tais eletrônicos, segundo a psicóloga infantil Sarah Castelo Branco, podem ajudar no desenvolvimento cognitivo. Se, na infância, o uso é voltado para os jogos, muitas funções intelectuais são estimuladas em uma partida e, assim, aprimoradas, a exemplo da capacidade de planejamento e previsão, visuo-percepção, raciocínio abstrato, memória, atenção seletiva, controle inibitório, velocidade de processamento de dados e praxias.

"Além de ser uma atividade lúdica, esses jogos contêm desafios progressivos. O acesso precoce à tecnologia estimula e acelera a maturação cognitiva. É fácil perceber isso. Devemos cuidar para que o desenvolvimento seja saudável e pautado em ferramentas adequadas", explica a psicóloga.

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