Lipoaspiração

Na busca pelo corpo perfeito

00:51 · 26.02.2013
Crescimento do número de cirurgias plásticas estéticas alerta para a necessidade de critérios rigorosos. Na sociedade que cultua o corpo pelo corpo, o indicado é o bom senso

O Brasil é o segundo país que mais realiza cirurgias plásticas estéticas no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos. Aqui, de acordo com pesquisa da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), só em 2011 foram feitas mais de 900 mil intervenções, representando um aumento de 43,9% em relação a 2007.

A advogada Renata Fernandes , 24 anos, se prepara para a terceira lipoaspiração. Após uma experiência traumática, garante que procura médicos credenciados e só realiza os procedimentos em hospital FOTO: Marília Camelo


Crescimento tão significativo levanta a discussão sobre a qualidade desses procedimentos e a busca por um padrão quase impossível de ser atingido sem uma intervenção estética, seja de pequeno porte (tratamentos de pele e cabelo), dietas e exercícios físicos que modelam o corpo e até cirurgias.

Mas até onde a sociedade incentiva essas práticas e as legitimam? Para a psicóloga e psicanalista Juçara Soares Mapurunga, doutoranda e professora de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor), "é legitimado por uma biopolítica (a crescente implicação da vida natural do homem nos mecanismos e cálculos do poder) que conclama a uma administração eficaz da vida, onde o sujeito tem direito de fazer tudo o que lhe parece adequado. O corpo adquire valor máximo, o culto do corpo pelo corpo, com pouca mediação com ideais simbólicos".

Apesar da inexistência de dados específicos sobre o número de cirurgias plásticas realizadas no Estado, o presidente da SBCP- Regional Ceará, Paulo Régis, ressalta que a estatística deve ser similar à nacional. "O resultado mostra a competência dos médicos brasileiros e o maior acesso da classe média a esse tipo de tratamento". Também credita ao fato de a rede pública de saúde oferecer mais serviços neste segmento em decorrência do aumento de residências em cirurgia plástica. Apenas em Fortaleza, são quatro hospitais públicos: Hospital Geral, Instituto Dr. José Frota, Santa Casa de Misericórdia e a Faculdade de Medicina (UFC).

Sazonalidade x modismo

Segundo pesquisa da SBCP, a lipoaspiração voltou a ocupar o primeiro lugar na preferência dos brasileiros. Com 211.108 cirurgias realizadas em 2011, a lipo cresceu 129% nos últimos quatro anos. Aumento de mamas (148.962) e abdominoplastia (95.004) ocuparam o segundo e terceiro postos, enquanto a blefaroplastia que mesmo na quarta posição no ranking registrou um aumento de 120% no período.

Em parte, a sazonalidade é o que justifica o retorno da lipo ao título de cirurgia-desejo. De acordo com Paulo Régis, "é uma questão de modismo mesmo. Por alguns anos, a da mama ficou no topo e agora está em segundo lugar". Mas vale lembrar que tal retração pode ter sido gerada pelos casos de implantes de silicone rompidos das marcas PIP e Rofil. Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, esse cenário é o mesmo no Brasil, França, Itália e Espanha, países onde as próteses foram muito utilizadas.

Outra preocupação diz respeito aos inúmeros casos de imperícia profissional e/ou inadequação dos locais onde são feitas as cirurgias. Ao mesmo tempo em que se populariza, a lipo também contribui para as estatísticas de óbitos. Conforme dados da Isaps, oito brasileiros morrem por ano durante o ato cirúrgico.

"Há uma invasão da especialidade. Nosso principal alerta é esse. Temos 11 anos de formação até receber o título de especialista em cirurgia plástica. Tudo para dar uma garantia maior. Mas tem gente operando com um título de medicina estética, especialidade que não é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina". E mais: "Às vezes, escolhem um médico sem referência ou apenas pelo preço. São muitos os pacientes que tiveram problemas em cirurgias feitas nestas condições".

Cuidados e critérios

Para reduzir tais riscos, é indicado um passo a passo criterioso. Primeiro, a pessoa interessada em realizar uma cirurgia plástica deve procurar referências do médico e verificar se ele possui o título de especialista. Para isso, basta entrar no site da SBCP ou ligar para o CRM. Depois, é preciso fazer, pelo menos três consultas e realizar os exames pré-operatórios. O terceiro passo é exigir que o hospital seja equipado com Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Protocolo lançado pela SBCP orienta evitar passar mais de 6 horas em procedimento cirúrgico.

Contudo, nem sempre esses critérios são seguidos. Um caso que envolveu grandes riscos foi o da advogada Renata Fernandes. Aos 18 anos, fez sua primeira lipoaspiração, realizada numa clínica, com anestesia local. "Foi a maior loucura que fiz na vida. Na época, não tinha maturidade". Hoje, com 24 anos, Renata já passou por mais duas cirurgias: outra lipo (nas coxas) e implante de silicone nos seios. "Dessa vez, foi melhor. Tinha um aparato correto. Fiquei no hospital, tinha anestesista e fui para casa só no dia seguinte", explica.

Apesar do susto que sofreu na primeira cirurgia, Renata continua a ser uma entusiasta das plásticas. "Aqui em casa, eu, minha mãe, irmã e tia já fizemos. Acho que se algo lhe incomoda, você pode mudar".

Após a terceira gestação, a funcionária pública Aurileuda Colares, 39 anos, decidiu eliminar a barriguinha que a incomodá-la apesar da rotina de exercícios e dieta. Por indicação de uma amiga, chegou ao cirurgião que realizou não só a lipo, mas também uma abdominoplastia. Antes, porém, Aurileuda foi cautelosa ao conversar com outros pacientes, além de verificar se o médico estava cadastrado na SBCP. "Tudo transcorreu dentro da normalidade", afirma ela, feliz com o resultado.

KARINE ZARANZA
REPÓRTER

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