Minimalismo

Muito treino antes de pendurar o tênis

00:04 · 30.04.2013
Diante das mudanças e transformações provenientes de uma nova modalidade esportiva, teve início um mercado em que os tênis minimalistas fazem sucesso. O fisioterapeuta Rafael Temóteo explica que a tendência influenciou a indústria calçadista, que investiu em tênis cujas características principais são a leveza e o "drop" (diferença de altura da parte anterior do pé para o calcanhar), variando entre 0 a 6 milímetros. As medidas diferem dos tênis tradicionais, cujo "drop" varia de 1 a 1,5 centímetros.

No método Barefoot, o praticante realiza o contato com o terreno por meio do médio pé ao invés do calcanhar. É tudo uma questão de treino fotos: kléber alves gonçalves

"Seguindo as questões de ordem mercadológica, os tênis aparecem com conceito inverso ao do pensamento ´quanto mais amortecimento melhor´, tendo pouco material e tecnologia", afirma o educador físico Luciano Oliveira que não considera Barefoot uma corrida feita com tênis minimalista.

Ele defende que o certo seria proceder da seguinte forma: "O praticante deve primeiro aprender a correr descalço. A transição deveria ser em ordem inversa, primeiro aprender a correr descalço, depois usar um tênis, seja ele minimalista ou não. Melhorar a técnica de corrida, depois escolher um tênis se você ainda quiser", justifica o educador físico.

Na pisada certa

Existem diversos tipos de pisadas que são caracterizadas pela região do pé. Segundo os especialistas, pisar com o calcanhar é a expressão da biomecânica tradicional do corpo humano.

No método Barefoot, o praticante promove o contato com o terreno por meio do médio pé ao invés do calcanhar. O movimento pode ser até o mesmo independente da técnica escolhida para a corrida. De acordo com Rafael Temóteo, o impacto pode ser menor, mas há o aumento da rigidez no tornozelo para proporcionar estabilidade ao corpo, o que pode aumentar a tensão sobre a planta do pé.

"Essa biodinâmica reduz o impacto sobre algumas estruturas (calcâneo). Em contrapartida, aumenta sobre outras regiões (metatarsos). O calcâneo é um osso relativamente grande que suporta carga. Abaixo desse osso, temos um coxim gorduroso que também atua como uma espécie de amortecedor", afirma Rafael Temóteo.

Outro ponto a ser levantado, questiona, é a respeito da articulação da tíbia com o tálus (chamada de articulação subtalar), fundamental para atenuar esses impactos às outras articulações do corpo. "Os desenhos atuais dos tênis favorecem o automatismo do gesto esportivo, facilitando a passada", explica.

Impacto

Os tênis minimalistas e os five fingers (ao lado) são um mercado em expansão. É preciso adaptar-se ao novo tipo de pisada para usá-los

Mas para Luciano Oliveira não é bem assim. O impacto é elevado, e utilizar o médio pé ou o ante pé é uma reação natural que, executada corretamente, deve ser conservada. "Exemplo simples é saltar várias vezes aterrissando com o calcanhar descalço. Isso irá machucar, pois é incorreto do ponto de vista biomecânico. Agora, procure saltar caindo com a ponta dos pés. É melhor. O calcanhar não foi feito para ser receptor de impacto, pois temos diversas estruturas nos pés que servem para este propósito", complementa.

Discussões à parte, ambos concordam que antes de sair correndo descalço por aí, é preciso cautela e conhecimento do método de corrida.

O educador físico revela que a forma correta envolve uma série de fatores, os quais, muitas vezes, são negligenciados por corredores sem preparo, o que é grave. "Por exemplo, boa periodização, ganho de condicionamento físico específico para corrida e uma boa técnica são fundamentais para o bom desempenho. Correr descalço requer vontade, entendimento e estudo de conceitos e técnicas que precisam ser aprendidas e treinadas".

Bons resultados

A professora universitária Glaciane Gonçalves está entre os casos que alcançou benefícios com a modalidade. Ela conta que sempre praticou esportes, entre eles, a corrida.

Contudo, os problemas nas costas e nos quadris se tornaram frequentes até que em 2010 conheceu o Barefoot, após se matricular em uma academia onde os educadores físicos são adeptos da técnica. "Ao fazer avaliação, o educador percebeu que meus movimentos no quadril e nos joelhos provocavam as dores após a corrida", relembra.

A partir daí, Glaciane iniciou as mudanças para se adaptar, trocando o tênis pelo five fingers e depois por correr com os pés descalços. Com o Barefoot, ela participa de corridas de rua e revela que tem plena consciência dos movimentos: "É bom verificar os horários e os lugares onde vai pisar, porque a pele do pé tem que se adaptar também ao chão", indica aos iniciantes.

SAIBA MAIS

Terreno: As ruas da cidade não nos deixam seguros em relação a objetos que podemos encontrar pela frente. Vidros, latas, pedras e outros objetos cortantes podem causar lesões muito graves ao atleta;

Corpo: Respeite os limites do seu corpo. Realize exercícios que promovam um fortalecimento específico da musculatura, já que alguns músculos serão mais exigidos durante a corrida do que o normal;

Conhecimento: A técnica deve ser aprendida para desenvolvê-la corretamente. A orientação de educador físico contribui para o melhor desempenho, reduzindo a possibilidade de lesões;

Monitoramento: O acompanhamento de um educador físico é fundamental para que a adaptação ocorra naturalmente, sem gerar danos;

Adaptação: É importante um período para que o corpo possa se acostumar com as mudanças promovidas pelo Barefoot. A dica é reduzir a quilometragem percorrida, mudar o terreno e diminuir a velocidade da corrida, mudanças que ajudam a evitar os riscos de novas lesões.

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