Termologia

Mudanças térmicas no corpo apontam disfunções

00:38 · 23.07.2013
Complementar ao diagnóstico, a termografia relaciona fenômenos térmicos no organismo a doenças

A dor gera alterações térmicas no corpo, aspecto que permite identificar funções de estruturas e órgãos antes mesmo que as lesões ocorram. Trata-se de uma ciência médica chamada Termologia, que estuda os fenômenos térmicos relacionados às doenças. Para isso, utiliza-se a Termografia, um exame por infravermelho que capta a irradiação de calor do corpo humano e transforma em imagens que serão utilizadas para diagnóstico médico.

Paciente com cefaleia crônica apresenta áreas quentes no músculo supra-espinhal e contraturas nos músculos cervicais posteriores, possíveis causas Foto: Bruno Gomes

Segundo o termologista Marcos Brioschi, presidente da Associação Brasileira de Termologia (Abraterm), médico do Hospital Sírio Libanês em São Paulo, a termografia é como qualquer outro exame complementar de diagnóstico que consta entre os procedimentos médicos da Associação Brasileira de Medicina. Sua função é possibilitar a avaliação de alterações térmicas causadas pela dor.

"Geralmente, processos inflamatórios aquecem a pele e lesões de nervos resfriam o local onde a dor se irradia. Mas as mudanças de temperatura não são possíveis de serem percebidas pela mão humana, já que são décimos de graus. Após o exame, com laudo em mãos, o paciente retorna ao seu médico que lhe fará o tratamento ou encaminhamento para o profissional correto", descreve.

Procedimento

A técnica funciona da seguinte forma: "A câmera infravermelha transforma o calor em imagem, assim como o aparelho de ultrassonografia transforma som em imagem, permitindo ao médico avaliar as imagens e chegar a um diagnóstico da causa da dor. Se é artrite, tendinite, compressão de nervo ciático e etc", esclarece o termologista.

A máquina se assemelha a uma câmera fotográfica, mas filma o corpo em infravermelho. O exame é realizado sem contato, sem radiação, totalmente inócuo, sem nenhuma contraindicação ou necessidade de contraste. A máquina capta a emissão de calor própria do corpo como um olho de cobra (por infravermelho), como chamam informalmente, o software transforma essa radiação em valor de temperatura para assim formar uma imagem.

Paciente com sinais de fibromialgia: manto térmico na região do tórax (área quente) e amputação termográfica (os dedos não aparecem no exame) Foto: Bruno Gomes

"Termograficamente somos simétricos, ou seja, se você tem um processo de sinusite no seu seio maxilar direito, aquela secreção vai fazer diminuir a temperatura. A imagem que vai aparecer aqui será mais fria ao lado direito do que ao lado esquerdo. Pela interpretação da imagem, o médico saberá que há um processo de infecção no seu seio maxilar", exemplifica o médico clínico e termologista Marco Foltran, sócio-fundador do laboratório de Termologia Médica, MedThermo.

A acupunturista e anestesiologista, Fabiana Freire, também sócia-fundadora da MedThermo, explica que o corpo apresenta áreas quentes e áreas frias. Nas áreas quentes, pode-se dizer que está havendo um processo inflamatório, já nas frias, neuropatias ou distúrbios vasculares quando há diminuição de sangue para aquela região. Com isso, a termografia capta lesões que ainda ocorrerão. "Não só identifica a dor como detectar sua origem", destaca.

Previsão de lesões

Por esses aspectos, antes mesmo de um atleta sentir dor em suas articulações, haverá um aumento de temperatura, fator que já é um indício de anormalidade. Com isso, a disfunção pode ser corrigida e prevenida de modo a evitar o aparecimento da dor e, especialmente, da lesão. Característica que estimula o uso da tecnologia em diversos clubes de futebol do País e do mundo.

"Após o treino, termografam os atletas. Se nas imagens houver uma alteração de temperatura, já identificam que há uma disfunção. Caso pergunte ao atleta se ele sente dor, ele vai dizer que não. Daí você tira o atleta do treinamento normal e trabalha para evitar uma lesão futura", afirma Marco Foltran.

Complementar na avaliação clínica do médico, o exame avalia a fisiologia do corpo e identifica o que pode ser ou se tornar uma lesão. Diferente de outros exames que avaliam a anatomia, ressalta Fabiana Freire.

Geralmente, é indicado na avaliação de dores crônicas e documentação pericial. Com a termografia, é possível identificar áreas de inflamação, áreas de lesão nervosa, áreas de má circulação, músculos sobrecarregados e sinais de fibromialgia. O hospital é o local apropriado para realização do exame, pois atende diversas tipos de enfermidades, desde casos mais simples a pacientes mais debilitados.

Diagnóstico adequado

A avaliação é feita no corpo inteiro, em 38 posições que são termografadas. De acordo com Marco Foltran, isso é preciso porque o corpo está interligado. "Muitos pacientes chegam aqui sem esperanças quanto a identificar a origem da dor, tendo passado por diversos profissionais. Então, fazemos o exame e identificamos em qual região ocorre a disfunção. Não é porque a dor está na cabeça que o problema se origina na cabeça".

Antes de iniciar o procedimento, o paciente revela seu histórico e suas queixas para auxiliar na construção do laudo. Durante 15 minutos, irá passar pela termalização para que a temperatura corporal se iguale a 23ºC. Roupas e acessórios são retirados do corpo, pois interferem na emissão de calor durante a termografia.

Para o presidente da Abraterm, apesar de existirem remédios e procedimentos voltados a tratar a dor, ainda falta diagnóstico que aponte sua verdadeira causa. Diante dessa necessidade, o número de termologistas registrados na associação tem crescido em todos as capitais e estados do Brasil.

Mas ainda há um atraso no sistema de saúde, uma vez que, segundo o termologista, cerca de 80% dos pacientes com dores crônicas não apresentam exames que identifiquem a real causa da sua dor, já que os casos não provocam alteração anatômica.

"Os mais comuns são de dores de cabeça e dores em lombar, joelhos e ombros. Isso gera um problema enorme para a rede de saúde, pois os pacientes tratados de dor sem diagnóstico, sem ter a causa desta dor, não terão nenhum tratamento com eficácia. Este número de pacientes está sobrecarregando todo o sistema de saúde. É preciso respostas para seus sintomas e tratamentos dirigidos para combater corretamente a lesão", destaca Marcos Brioschi.

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

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