SUMI-Ê

Mente e pinceis em sintonia

02:09 · 27.03.2011
Mente, coração e mão são trabalhados energeticamente na arte Sumi-ê, destaca Kako Nabuco
Mente, coração e mão são trabalhados energeticamente na arte Sumi-ê, destaca Kako Nabuco ( )
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Arte e filosofia se completam e estabelecem um elo entre a criatividade e o relaxamento

A arte é uma forma de expressão que exige, acima de tudo, entrega. Não precisa ser perfeita, apenas livre. E essa sensação de liberdade, que pode ser experimentada por qualquer indivíduo, é capaz de despertar dentro de cada um, habilidades e qualidades antes desconhecidas. Por isso, a dança, a pintura, o teatro ou até mesmo a culinária podem ser usadas de forma terapêutica, relaxando e promovendo o auto-conhecimento.

Há 12 anos, Carlos Eduardo (Kako) Nabuco, artesão, pintor, fotógrafo, designer gráfico e, atualmente, coordenador de saúde mental em Ouro Preto (MG), desenvolve oficinas terapêuticas usando a arte como instrumento. "E realmente funciona. Vejo pacientes que chegam totalmente apáticos e são estimulados nas oficinas. De repente, estão desenhando, pintando, dançando", revela.

Mesmo não tendo formação em saúde, Kako desempenha papel importante no campo da Psiquiatria. Chega para acrescentar ao trabalho dos médicos as diversas artes que domina. Em sua vivência nas oficinas, pôde perceber a fragilidade dos pacientes e, usando suas habilidades, tem conseguido descobrir artistas geniais. "A doença mental exerce uma pressão muito forte sobre a personalidade deles e a expressão dela sucumbe. A medicação ainda não pode curar isso. Já a arte é capaz de arrancar devagarzinho todo aquele potencial que estava escondido nas profundezas. E se você estimular, de repente brota, e brota forte mesmo", explica.

Extensão do corpo

Uma das artes empregadas por Kako Nabuco é a pintura milenar chinesa, o Sumi-ê. Utilizando apenas papel de arroz, pinceis de bambu e tinta à base de cinzas vegetais e gelatina animal, a técnica é capaz de promover uma verdadeira revolução no modo de perceber o mundo. Isso porque, segundo o artista, a prática envolve a observação e leitura daquilo que será retratado - geralmente plantas, como bambu e ameixeiras, e animais - que depois é "escrito" no papel.

A pintura Sumi-ê está intimamente ligada à caligrafia chinesa, que é ideográfica. Para os orientais é comum essa percepção, já para os ocidentais, pode ser uma intensa forma de relaxamento. Kako Nabuco, que pratica esse tipo de pintura há 30 anos cita que quando passamos a ler a natureza, começamos a perceber coisas que durante toda a vida não havíamos nos dado conta. "Com o Sumi-ê selecionamos o mínimo de elementos para o máximo de interpretação", explica o terapeuta que está em Fortaleza para ministrar curso no Instituto Acus Natus.

A natureza é o principal tema da pintura chinesa. Monocromática, ela utiliza essencialmente tinta preta, mas pode haver pequenas variações de cores. Para conseguir as diversas tonalidades, o artista lança mão de técnicas de manuseio do pincel e diluição da tinta em bastão.

Além de uma arte, o Sumi-ê é uma filosofia. Nada é feito aleatoriamente. "A base é a união de mente, coração e mão; se acaba trabalhando energeticamente todos", informa Kako Nabuco.

Após a intensa observação, não deve haver mais dúvidas do que irá para o papel. A pintura já está definida na mente do artista. Durante o processo, a energia vital percorre o corpo e segue pelas costas, braço, mão, dedos e chega até o pincel, que se torna uma extensão corporal. Por isso ele é segurado de forma mais solta e leve. Os movimentos vão e voltam, gerando grande sensação de relaxamento.

Segundo Nabuco, a respiração é outra parte fundamental do processo de pintura Sumi-ê. Antes de começar, o artista inspira, retém o ar e só depois, durante os movimentos com o pincel é que ele expira. Depois recarrega a tinta refletindo sobre o que foi pintado, repetindo o processo de respiração.

Os movimentos corporais e energéticos, a reflexão, observação e respiração são ações terapêuticas que, em conjunto, promovem relaxamento. O resultado são desenhos simples, cheios de movimento e beleza. "A partir da prática do Sumi-ê se tem a capacidade de perceber como o seu próprio corpo se expressa", completa o arteterapeuta

Sutileza

"A paisagem tem outro valor porque se passa a ler o poema que a natureza te dá"

"O pincel torna-se uma extensão do movimento da mão; mais um osso do corpo"

Kako Nabuco
Coordenador de Saúde Mental de Ouro Preto (MG), orientador de pintura Sumi-ê, artista plástico e designer gráfico

Fique por dentro
Origem na caligrafia

A pintura chinesa Sumi-ê é uma arte milenar, desenvolvida pelos chineses e assimilada pela cultura japonesa cerca de 2.000 anos a. C. com a ajuda dos monges Zen-Budistas.

A pintura é monocromática (tinta preta) e originada a partir da caligrafia chinesa. Ao invés de descrever de forma realista a natureza, expressa a percepção do artista, capturando a essência do que é pintado.

Os pinceis utilizados são feitos de bambu e pêlos de ovelha ou texugo, capazes de reter a tinta feita de cinzas vegetais e gelatina animal. O papel, de fibra de arroz, é fino e absorvente. O material frágil é capaz de transmitir a delicadeza característica desse tipo de pintura. Por isso as pinceladas devem ser rápidas, sem hesitação, evitando que a tinta transponha o papel.

O papel branco representa o feminino pronto para receber as pinceladas de tinta que representam o masculino. Essa ação está cheia de energia (Ki - energia vital que existe em todas as coisas). Os principais temas relacionados à pintura Sumi-ê são bambus (representação do homem perfeito), ameixeiras (renascimento), flores, pássaros e paisagens, além de temas religiosos como pinturas de patriarcas ou parábolas. Dessa forma, a natureza, objetos e pessoas são frutos da total expressão do artista.

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