LAPAROSCOPIA

Menos invasiva, mais eficaz

02:31 · 27.11.2011
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Guiado por uma microcâmera, o cirurgião realiza o procedimento sem fazer grandes incisões no paciente
Guiado por uma microcâmera, o cirurgião realiza o procedimento sem fazer grandes incisões no paciente ( Divulgação )
Técnica cirúrgica vídeo-assistida diminui os riscos de infecções hospitalares

Realizar um procedimento cirúrgico com menos riscos é uma realidade cada vez mais presente nas salas de cirurgia. O desenvolvimento de aparelhos ópticos de alta precisão possibilita o avanço de vídeo-cirurgias, consideradas procedimentos minimamente invasivos, ou seja, com uma exposição menor do organismo ao meio externo.

De acordo com Paulo Campelo, cirurgião geral especialista em videolaparoscopia e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Laparoscópica (Sobracil), a prática teve início no final da década de 1980, com o objetivo de examinar os órgãos da região pélvica. O avanço da técnica permitiu explorar toda a região abdominal, recebendo a denominação de videolaparoscopia.

Vantagens na recuperação

Em substituição às grandes incisões feitas para ter acesso aos órgãos, na videolaparoscopia são realizadas cerca de três perfurações que medem até um centímetro. Dessa maneira, as cicatrizes são menos perceptíveis. "Não existe cirurgia sem cicatrizes, mas a videolaparoscopia traz uma insatisfação estética menor", aponta Paulo Campelo. Como não há uma abertura extensa do abdome durante o procedimento, o risco de infecções hospitalares também diminui.

O pós-operatório de uma videolaparoscopia representa também menos desconforto ao paciente e acontece num período menor em relação às cirurgias convencionais, permitindo um retorno mais rápido às atividades cotidianas. "Eu mesmo passei por uma retirada de apêndice há 23 dias por vídeo-cirurgia e dez dias depois eu já estava trabalhando normalmente, inclusive operando", relata o cirurgião.

Forma de acesso

A principal diferença entre as cirurgias convencionais e as videolaparoscopias, de acordo com Paulo Campelo é a forma de acesso ao local a ser tratado. "Em vez de quebrar a parede do órgão, nós perfuramos, diminuindo a área atingida", afirma.

Como os órgãos estão dispostos de maneira encaixada, o procedimento inicia-se com a insuflação do abdome com gás carbônico para criar o espaço adequado onde os instrumentos possam ser manipulados. Nos locais onde não é possível o acréscimo de ar, utiliza-se água ou uma outra substância líquida para facilitar o acesso. Nas articulações, por exemplo, onde os ortopedistas realizam uma intervenção vídeo-assistida chamada artroscopia, utiliza-se soro fisiológico.

Em seguida, faz-se uma incisão com cerca de um centímetro na região umbilical onde é colocado o trocater, aparelho onde se instala uma óptica conectada ao vídeo por meio do qual o cirurgião visualiza a área explorada. A partir de então, as outras incisões necessárias são realizadas para permitir a utilização das pinças que terão contato direto com o órgão afetado.

Outra diferença entre os tipos de intervenções é que o procedimento videocirúrgico é realizado sempre com anestesia geral, enquanto nas cirurgias tradicionais, dependendo do porte, é possível fazer apenas um bloqueio anestésico. Por isso, é importante o médico verificar se o paciente possui grandes problemas cardiorrespiratórios que podem se desencadear durante a cirurgia com a utilização de anestesia total.

Preparo médico

Paulo Campelo conta que a formação universitária dos médicos já inclui a realização de procedimentos vídeo-cirúrgicos, mas cabe ao profissional o aprimoramento. Como as cirurgias vídeo-assistidas são menos recorrentes nos hospitais públicos, muitos profissionais desse setor têm uma menor prática e, consequentemente, uma menor atualização na realização das videolaparoscopias.

Outro ponto que exige o preparo do especialista é em esclarecer corretamente como a videolaparoscopia é realizada. "Muitos pacientes já ouviram falar do procedimento, mas confundem com cirurgias a laser. Quando perguntam aos médicos, alguns deixam de dar uma explicação mais aprofundada. A decisão pela videolaparoscopia deve ser do médico em conjunto com o paciente", explica Campelo.

Embora ainda pouco difundida no Brasil, as cirurgias robóticas são uma tendência de evolução dos procedimentos minimamente invasivos. Nesse caso, o cirurgião não possui nenhum contato físico com o paciente durante a cirurgia e simula os movimentos do robô através de uma máquina, geralmente na mesma sala onde ocorre a cirurgia.

A tecnologia abre espaço ainda para o desenvolvimento de cirurgias à distância, onde o médico nem mesmo se encontra no mesmo hospital que o paciente. Segundo Paulo Campelo, o que pode auxiliar tais procedimentos é o desenvolvimento de softwares que tornem as respostas dos robôs aos movimentos dos cirurgiões cada vez mais preciso. "Em termos de intervenção no paciente, o princípio dos procedimentos robóticos é o mesmo que por videolaparoscopia, que é realizar a cirurgia com maior segurança para o paciente", afirma o cirurgião.

As cirurgias vídeo-assistidas são cada vez mais comuns, embora muitos convênios de saúde não autorizem a sua realização por representar custos mais altos em relação às cirurgias convencionais. Existe, porém, um movimento da Agência Nacional de Saúde (ANS) em aumentar o acesso à videolaparoscopia. Segundo Paulo Campelo, só em 2011 a ANS regulamentou 40 novos procedimentos por vídeo-cirurgia que antes não eram oferecidos nem aos pacientes de convênios.

"Os avanços na videolaparoscopia a tornam um procedimento cada vez mais seguro. Quando os cirurgiões começaram a realizar vídeo-cirurgias, era comum que acontecesse a conversão para uma cirurgia convencional. Hoje isso já acontece bem menos e a tendência é que a tecnologia avance cada vez mais à medida que os cirurgiões se adequam às novas técnicas", conclui Paulo Campelo.

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