Cárie

Maus hábitos alimentares ampliam ação das bactérias

00:00 · 25.11.2013
O processo carioso existe bem antes que se possa visualizar a lesão. Daí a prevenção começar na 1ª infância

Se um dia a estrelinha (apelido à obturação) que colocávamos no dente quando criança era algo comum da idade, hoje, a cárie dentária é considerada no Brasil o principal problema de saúde bucal. Segundo a Federação Dentária Internacional (FDI), a cárie atinge cerca de 5 bilhões de pessoas no mundo (80% da população mundial).

Uma criança que se alimenta com seis mamadeiras de leite por dia (adicionada de alguma massa e açúcar) e que tem uma precária higiene bucal, será levada ao desenvolvimento de cáries, alerta a odontóloga Cristina Maia foto: reprodução

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2012 referem que ao redor do mundo, 60% a 90% das crianças em idade escolar e cerca de 100% dos adultos apresentam cárie.

Desmineralização

Doença transmissível (infectocontagiosa), causada pela interação de diversos fatores e crônica (ou seja, se instalada, perdura por um período prolongado de tempo), a cárie é caracterizada pela desmineralização e desintegração progressiva dos tecidos calcificados dos dentes sob uma camada de bactérias (biofilme). Ela é causada por ácidos produzidos pelos microorganismos que metabolizam os açúcares da dieta.

Não é à toa que é a doença crônica mais comum em crianças, sendo cinco vezes mais comum do que asma. A alimentação apresenta atuação decisiva no processo de formação da cárie. O surgimento da cárie se dá com a produção de ácidos pelos microrganismos que reduzem o pH para menos que 5,5, iniciando o processo de desmineralização dos tecidos do dente, afirma a odontóloga Cristina Maia, doutora em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte; mestre em Saúde Pública pela Universidade Estadual do Ceará (Uece); e coordenadora do curso de Odontologia da Universidade de Fortaleza (Unifor).

Como reverter o processo

"Fatores ligados ao hospedeiro, como quantidade e qualidade da saliva, presença de flúor no ambiente oral poderão reverter o processo. É o que chama-se remineralização", explica Cristina Maia.

O equilíbrio entre os fenômenos de desmineralização e remineralização é como uma batalha em gangorra. Assim, o desenvolvimento da cárie será determinado quando o hospedeiro colocar o peso final na forma de uma dieta rica em carboidratos que favorecerá a acidificação pelos microrganismos, complementa a especialista com pesquisa na área de saúde coletiva, com foco em saúde bucal. A profissional também atua em estudos em epidemiologia, odontopediatria, nutrição, desenvolvimento infantil, capacitação (TSB), educação a distância e formação docente.

Questão social

Os hábitos alimentares interferem incisivamente no desenvolvimento das cáries. Existem evidências que comprovam isso. Caso das populações mais primitivas, cuja alimentação se restringia à caça, frutas e pesca, e que não havia prevalência de cárie.

"A incidência de cárie aumentou com a introdução dos açúcares na dieta. Globalmente, a redução da cárie em países desenvolvidos se deu por medidas de prevenção como a fluoretação das águas de abastecimento público e pelo uso difundido no mundo ocidental de creme dental fluoretado", discorre Cristina Maia.

Crianças na mira

A cárie é o resultado da ação de bactérias que produzem ácidos a partir do açúcar contido na dieta, principalmente de carboidratos fermentáveis e em especial a sacarose. Parte daí o fato da dieta poder ser tão prejudicial à saúde bucal.

"Uma criança que se alimenta com seis mamadeiras de leite por dia, adicionada de alguma massa e açúcar, junto a precária higiene bucal, será levada ao desenvolvimento de cáries. O mesmo pode-se dizer dos lanches com biscoitos recheados consumidos em grande quantidade e frequência, sem escovação associada", exemplifica Cristina Maia.

Apesar de todos esses fatores, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB 2010), houve uma melhora no período entre 2003 a 2010. Na idade de 12 anos, a doença atingia 69% da população em 2003, número que reduziu para 56% em 2010.

Como o processo carioso está instalado bem antes que se possa visualizar o sintoma mais clássico, a lesão cariosa formando a cavidade preta e profunda, é preciso ficar atento aos sinais visíveis da cárie: manchas brancas, geralmente localizadas nas superfícies da frente e do colo dos dentes, além do local de maior predileção da bactéria, a superfície de mordida dos dentes, nas cicatrículas e fissuras.

Diante desses indícios, ignorá-los pode levar à perda dentária por cárie, o que influenciará no padrão de estética, fonação, mastigação e poderá levar a alterações da ATM (articulação temporomandibular).

A endocardite bacteriana (infecção no endocárdio e válvulas cardíacas) é o principal agravo que a doença pode acarretar ao indivíduo quando não tratada corretamente e em tempo hábil. É quando as bactérias alcançam a corrente sanguínea e daí pode chegar ao coração.

Por isso em ambos os casos identificados, é primordial buscar o tratamento. No estágio de cavitação, deverá ser restaurado. Já quando há manchas brancas, pode ser revertido com fluorterapia.

Afinal, o flúor é o grande fator de prevenção das cáries dentárias e o maior aliado no combate à desmineralização. "Seu principal efeito é dado por um regime de alta frequência e constância na cavidade bucal, que vai fazer com que, mesmo na presença de bactérias e açúcar, o fenômeno de desmineralização não ocorra ou seja retardado", acrescenta Cristina Maia.

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

FIQUE POR DENTRO

Afinal, quando iniciar o uso de creme dental?

Creme dental em crianças é assunto que normalmente gera polêmica e dúvidas entre as mães que já se preocupam com a saúde bucal de seu filho. A odontóloga Cristina Maia pontua o que diferentes órgãos oficiais recomendam.

Segundo a Associação Americana de Odontopediatria, a escovação dentária deve ser introduzida no instante da erupção do primeiro dente de leite e deve ser feita pelos responsáveis da criança duas vezes ao dia, utilizando uma escova dental macia apropriada para a idade.

No caso de crianças menores de dois anos, consideradas pela Associação como risco moderado ou alto à cárie, uma quantidade mínima de creme dental com flúor deve ser usada. Em todas as crianças na faixa etária de 2 a 5 anos, aplica-se uma quantidade correspondente ao tamanho de uma ervilha.

O Guia de Fluoretos do Ministério da Saúde do Brasil defende que o uso de dentifrício fluoretado infantil com baixo teor de flúor (500 ppm, 600ppm, 1000 ppm - partes por milhão de flúor) não previne a cárie dentária. A justificativa de uso para que crianças pequenas não corram o risco de deglutir um produto com maior teor e venham a sofrer fluorose na dentição permanente deve ser revista em função do risco à cárie.

O uso de creme dental com baixo teor é considerado muito mais pelos especialistas no sentido que seja criado o hábito da escovação em crianças pequenas com baixo risco à cárie. A indicação é que logo deve ser substituído pelo creme dental adulto de 1.500 ppm, nas quantidades referidas acima.

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