Cirurgia bariátrica

Mastigação pode influir na estética facial

00:00 · 28.10.2013

No caso do paciente com obesidade mórbida, entenda porque a forma de mastigar pode mudar com a perda de peso

A cirurgia bariátrica tem se mostrado uma solução às pessoas obesas que não obtiveram respostas clínicas durante, no mínimo dois anos, em outros tratamentos para redução de peso. Após a cirurgia, várias mudanças são necessárias no organismo, dentre elas, a mastigação.

O emagrecimento de até 40% do peso inicial pode influir na estética facial. A harmonia facial ocorre quando a estrutura da face, composta de músculos posicionados bilateralmente, é utilizada de forma mais simétrica possível foto: lucas de menezes

Estudos demonstram que, após uma cirurgia bariátrica, um percentual significativo de pacientes com obesidade mórbida apresenta atividade muscular orofacial (engloba todas as estruturas da boca e da face, e estão relacionadas à musculatura e à respiração) com diagnóstico de alteração em uma ou mais funções estomatognáticas (respiração, sucção, articulação/fonação, mastigação e deglutição), afirma a fonoaudióloga Andréa Cavalcante, da equipe do Núcleo do Obeso do Ceará, mestranda em Saúde Coletiva pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

Como, algumas vezes, o paciente obeso tem um comportamento mais voraz diante da comida e mastiga os alimentos de forma insuficiente, há contribuição para o exercício incorreto dessa função. Esse fato, aliado a escolhas alimentares mais pastosas e friáveis, pode enfraquecer a musculatura da mastigação.

Recomenda-se que o paciente passe por uma avaliação e um acompanhamento fonoaudiológico no pré e pós-operatório. "O paciente fica mais envolvido no processo, quando tem consciência das fases em que precisa se empenhar em mudar, para melhorar. Não mudamos a forma como mastigamos em uma vida inteira, em apenas dois ou três meses", diz.

Harmonia facial

O acompanhamento irá aprimorar a força muscular e a resposta pela atividade elétrica (transformação do comando neuronal na placa motora do músculo em ação, acionando as fibras que participarão do exercício, resultando em movimento) dessas ações, reorganizando os padrões e promovendo a harmonia facial e o autoconhecimento do paciente de suas estruturas envolvidas em uma função (propriocepção intraoral).

"Um exemplo: Quando a gente deglute/engole, seja um alimento ou a própria saliva, são necessários todos os músculos com boa força (tonicidade) para realizar o ato da forma eficiente. A língua toca todo o ´céu da boca´ (palato duro), do início até o fim. Outros movimentos são desencadeados a partir desse, com o objetivo de proteger a parte respiratória (via aérea). Quando não há essa eficiência, é observado o desconforto do engasgo (que acontece quando não se engole direito e a comida ´para no lugar errado´, causando vontade de tossir, que é uma defesa do organismo)".

À medida que utilizamos, de forma correta e simétrica, os pares de músculos da face e da boca, há uma evolução na harmonia bilateral e na força, bem como na resposta pela atividade elétrica da musculatura. Isso resulta na evolução da alimentação, de forma segura e com autonomia.

Mudanças na estética

Uma dieta saudável influi no desempenho dessas funções e de outros benefícios: redução de sódio no cardápio, níveis sanguíneos estáveis, saciedade disparada no tempo correto, dentes saudáveis, e estímulo na produção de saliva.

O auxílio não está ligado apenas à mastigação. Atualmente, a fonoaudióloga acompanha a evolução de estudos e do atendimento em outras áreas como: voz, estética facial, audição, articulação/fala e deglutição. Profissionais da voz que se submeteram a esse procedimento cirúrgico podem observar essas mudanças e a necessidade de maiores informações sobre o processo.

Andréa Cavalcante explica que após a produção da voz ao nível das pregas vocais, precisa ser amplificada na ´caixa ressonadora´, ou seja, todas as estruturas que temos, desde o tórax, a garganta ou glote, até a cabeça como um todo.

O paciente acima do peso apresenta partes moles em conjunto com as partes duras. Quando emagrece, perde uma porção das partes amolecidas e ganha em capacidade pulmonar (quando estimulada) e isso influencia na produção vocal. "Não há uma alteração extrema a ponto de mudar a voz. Um profissional da voz (cantor), sabe qual o potencial, o timbre e as características de sua voz. Quando perde uma porção das partes moles, percebe que algo muda e que, o fonoaudiólogo, com equipamento certo, pode medir e dizer o que e quanto mudou".

O emagrecimento de até 40% do peso inicial pode influenciar na estética facial. "A harmonia é quando temos a estrutura (formada de músculos posicionados bilateralmente), usados da forma mais simétrica possível. Se uso um determinado músculo esquerdo mais que o direito, toda a face irá desenvolver mais do lado esquerdo e levar a alterações funcionais e assimetria facial. Muitas vezes, o leigo não observa essa desarmonia, apenas o profissional habilitado".

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

FIQUE POR DENTRO

Momento da refeição deve ser respeitado

A mastigação deve ser bilateral, com quantidades que o paciente consiga controlar dentro da boca, para conseguir triturar bem o alimento e só engoli-lo. A boa salivação, ao mastigar bem, deve ser percebida. Com volume s excessivos, a língua tende a perder esse controle e engole o alimento rapidamente.

O ideal é manter um tempo exclusivo para dedicar ao momento da alimentação. O hábito de comer, pensando no que irá fazer logo após a refeição, costuma gerar ansiedade de forma a estimular a ingestão do alimento antes mesmo de ser triturado de forma adequada.

"Isso é só uma parte das informações, porque depende muito do que o paciente apresenta como dificuldade", afirma. A fonoaudióloga Andréa Cavalcante cita a frase do cirurgião Luiz Moreira (que integra a equipe) ao enaltecer que "o sucesso da cirurgia de redução de estômago, está na mastigação".

O paciente deve ser treinado para triturar bem os alimentos

O papel da fonoaudiologia objetiva minimizar ou evitar os desconfortos, entalos e vômitos uma vez que é treinada a mastigação eficiente, com a possibilidade de dieta livre de limitações funcionais, necessária para uma boa nutrição, principalmente pelo fato do estômago estar reduzido.

Os pacientes que não são conduzidos por um profissional habilitado, podem apresentar dificuldades, porém havendo orientação, independente do tempo em que a cirurgia foi realizada, a pessoa é capaz de entender suas dificuldades e buscar ajuda por meio do emponderamento, ou seja, o paciente é capaz de entender e decidir, em conjunto com o terapeuta, sobre o que ocorre em seu corpo, prezando sempre por um atendimento com corresponsabilidade.

"O paciente é tão responsável pelo tratamento cirúrgico da obesidade quanto os profissionais que o atendem, fazendo com que esta pessoa entenda que as atitudes que tomar são decisivas quanto à sua evolução em todo o processo. Hoje, com o advento da tecnologia, os pacientes já procuram saber mais das ordens médicas pela internet e, principalmente, dos "porquês" das regras, aprendendo melhor as condições e conseguindo tomar decisões diante dos fatos", discorre.

As consultas e o treinamento do paciente impedirão o retorno ao movimento mastigatório anterior à cirurgia. O alimento precisa ser ingerido em um volume menor e mastigado de forma adequada (não tão rápida) com a musculatura capaz de triturá-lo e pulverizá-lo. Tudo isso para que o neoestômago (novo estômago) o aceite com conforto, segurança e, principalmente, o prazer que a alimentação deve proporcionar. Bem triturado, o alimento também será envolvido pela saliva, que contém enzimas que auxiliam o processo de digestão iniciado na boca. Também são gerados hormônios da saciedade e absorvidos nutrientes.

Cada paciente é conduzido conforme sua necessidade. Todos os exercícios de motricidade orofacial envolvem essas estruturas. Estalos de língua, protrusão labial (fazer biquinhos e sustentar), retração labial (beijinhos estalados com lábios esticados), inflar bochechas de modo alternado e/ou simultâneo, dentre outros. Essas atividades devem ter acompanhamento, pois a força e a quantidade dos exercícios devem estar adequadas. Do contrário, podem gerar fadiga muscular, o que é nociva para o músculo, e causar alterações na ATM, além de sobrecarga de outros músculos e até rugas na pele da face.

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