CONSCIENTIZAÇÃO

Juventude sem cigarro

23:13 · 27.08.2011
( )
Pesquisa realizada pela Aliança Contra o Tabagismo e pelo Instituto Datafolha, em São Paulo, constatou que em 84% dos estabelecimentos que vendem cigarros, o produto é facilmente visto por crianças e adolescentes
Pesquisa realizada pela Aliança Contra o Tabagismo e pelo Instituto Datafolha, em São Paulo, constatou que em 84% dos estabelecimentos que vendem cigarros, o produto é facilmente visto por crianças e adolescentes ( Alana Sampaio )
Teste do monoxímetro mede a quantidade de monóxido de carbono na respiração, maior nos fumantes
Teste do monoxímetro mede a quantidade de monóxido de carbono na respiração, maior nos fumantes ( José Leomar )

Dia de combate ao fumo alerta para os perigos do vício entre os jovens

Nas mãos de Marilyn Monroe, o cigarro era um símbolo de sensualidade e elegância. Já Marlon Brando, entre uma aventura e outra sempre fazia uma pausa para uma tragada. Os astros de Hollywood trouxeram o cigarro para o imaginário dos jovens, tornando o fumo um ato de desejo que perdura até hoje. "O fator da imagem que foi construída do cigarro, que podia trazer benefício para os jovens ainda hoje está presente", afirma Mônica Andreis, psicóloga e vice-diretora da Aliança de Controle do Tabagismo (ACT).

Embora a publicidade de cigarros em grandes veículos de comunicação esteja proibida no Brasil desde 2001, a indústria tabagista desenvolveu novas estratégias para alcançar o público alvo. "A indústria do tabaco preocupada em repor o cliente de amanhã, investe pesado no público jovem", afirma Dra. Penha Uchôa Sales, pneumologista e coordenadora do Programa de Controle ao Tabagismo do Hospital de Messejana.

Objeto de desejo

Uma das principais medidas dos fabricantes de cigarro para aproximar-se dos jovens foi aumentar o número dos pontos de venda e garantir presença em festas populares entre a juventude. Nos pontos de venda, é comum que os cigarros fiquem próximos ao caixa e à produtos como balas e chocolates. Além de chamar a atenção dos mais novos, a posição favorece a compra impulsiva do produto, ou seja, mesmo não tendo planejado a compra do cigarro, a pessoa acaba adquirindo o produto apenas porque conseguiu visualizá-lo. Uma pesquisa feita pela ACT em 2010, junto ao Instituto Datafolha, em São Paulo, revelou que a maioria dos pontos de venda ficam a menos de um quilômetro de alguma escola, facilitando o acesso ao produto.

A iniciação ao vício acontece principalmente pela influência de amigos. "É muito comum que os ambientes onde as pessoas fumam sejam frequentados por jovens. O jovem pensa que precisa fumar para que o aceitem num grupo de amigos", afirma Mônica. Além disso, a fabricação de produtos que induzem os jovens a fumar reforçam o início do vício. Em 1996, um doce bastante popular foi proibido de ser vendido: os cigarrinhos de chocolate traziam em suas embalagens, desde o ano de 1952, duas crianças imitando o ato de fumar, utilizando, porém, os chocolates. Hoje são comuns entre as marcas de cigarro, fumos com sabores como menta e chocolate, que diminuem o gosto amargo dos primeiros cigarros.

Outro perigo cada vez mais comum nos bares noturnos é o narguilé (espécie de cachimbo que utiliza a água para filtrar as partículas da fumaça). "O narguilé possui as mesmas substâncias prejudiciais, porque tem tabaco. As pessoas pensam que o uso da água torna o narguilé um produto que seja inócuo, pelo contrário, isso não é verdadeiro. Existem diversos estudos sobre o uso do narguilé que comprovam os mesmos males do cigarro, inclusive a dependência", garante Mônica Andreis.

Danos à saúde

Quanto mais cedo o jovem tem contato com o fumo, maiores são os riscos para a saúde. "O tabaco é a segunda droga mais consumida entre os jovens e quanto mais cedo o individuo começa a fumar, maiores são os riscos de desenvolver doenças, inclusive com maior gravidade. É fundamental lembrar também que o tabagismo como dependência representa uma ponte para o uso de drogas mais pesadas, além de produzir uma gama de malefícios para o organismo", alerta Dra. Penha Uchoa.

É comum pensar que os danos causados pelo cigarro só se manifestarão a longo prazo, mas desde o início do vício, já é possível observar a perda de fôlego, além da dependência quase imediata. Mulheres que fazem uso de anticoncepcionais em paralelo ao cigarro, têm as chances aumentadas de sofrer um acidente vascular cerebral.

Combate ao fumo

O alerta de associações médicas e Organizações Não-Governamentais contribuiram para o avanço de projetos de leis que buscam inibir a presença do cigarro na sociedade. Além da proibição das propagandas do produto em veículos de grande alcance, de acordo com Dr. Penha Uchôa Sales a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) realizou em novembro de 2010 consulta pública sobre a revisão das resoluções que impõe os níveis máximos de nicotina, alcatrão e monóxido de carbono nos cigarros e proíbe a adição de sabores e aromas.

"É importante salientar que o recente aumento de impostos sobre o cigarro e, consequentemente, sobre o seu preço, representa uma medida importante para inibir a iniciação no vício por parte de crianças e adolescentes e reduzir o consumo total. Há evidência cientifica de que esta elevação de preços é efetiva para combater a epidemia que é o consumo de cigarros", informa Dra. Penha.

Dia D

Embora as campanhas feitas no Brasil estejam dando resultados (em 1989, 35% da população brasileira fumava; em 2010, o índice caiu para 15%) é preciso reforçar as mensagens com foco mais direto nos jovens. Para marcar a luta contra o cigarro, amanhã (29), comemora-se o Dia Nacional de Combate ao Fumo.

Em Fortaleza, a Sociedade Cearense de Pneumologia realiza às 7:00h, na Praça do Ferreira, a Corrida Cearense Contra o Fumo que, através da prática de uma atividade física, busca alertar a população para os problemas causados pelo cigarro.

Vício Sob controle

Aos 12 anos, Nildemar Ferreira começou a fumar por incentivo do irmão mais velho. Hoje, aos 43, descobriu que está com um cisto no seio, em decorrência do cigarro. Decidida a parar de fumar, procurou o Programa de Controle ao Tabagismo do Hospital de Messejana. Desde o início do Programa, em 2002, mais de 1900 pessoas foram atendidas. Segundo Dra. Penha Uchoa Sales, pneumologista e coordenadora do Programa, 56% dos casos conseguem obter o êxito na perda do vício. Diz ainda que a maioria das pessoas que procuram as unidades de tratamento encontram-se na faixa etária acima de 40 anos, mas que iniciaram o tabagismo ainda adolescentes. São abertas 100 inscrições por semestre para aqueles que desejam parar de fumar. No último semestre, porém, devido a forte demanda, o número de vagas passou para 250. O tratamento dura um ano (a 1ª fase é presencial e a segunda acompanhada à distância) e conta com uma equipe de médicos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e assistentes sociais.

Mais informações

Programa de Controle ao Tabagismo do Hospital de Messejana

Av. Frei Cirilo, 3480
Tel: (85) 3101-4062

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.