Criatividade

Inversão no fluxo atemporal

17:55 · 02.07.2011
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Woody Allen em sua mais recente produção cinematográfica, Meia Noite em Paris, traz ao espectador uma criação autobiográfica que interrompe, de forma inusitada, a passagem linear do tempo. Há um anseio natu
Woody Allen em sua mais recente produção cinematográfica, Meia Noite em Paris, traz ao espectador uma criação autobiográfica que interrompe, de forma inusitada, a passagem linear do tempo. Há um anseio natu ( )
Clerton Martins: os momentos de estudos, ócio e trabalho tornam-se um só, sem divisões em vida trabalho ou vida lazer
Clerton Martins: os momentos de estudos, ócio e trabalho tornam-se um só, sem divisões em vida trabalho ou vida lazer ( )
O pensamento linear, dentro do enquadramento da estrutura encerrada em si mesma de tempo/espaço, é apenas uma dentre tantas possibilidades de referência do existir. Opções que incluam a imaginação criadora humana, ao se abstrair de conceitos e rígidos modelos estabelecidos, podem perfeitamente referendar outras opções.

Ousadia como essa apenas criadores como o escritor, roteirista, ator e diretor, Woody Allen, se atrevem a explorar. A discussão da atemporalidade e da viagem no tempo da imaginação criadora que, por exemplo, impulsiona a experiência de tecitura do texto de um escritor, aparece na obra mais recente de Allen, o filme "Meia-noite em Paris", em exibição no UCI, grupo Severiano Ribeiro e no Espaço Unibanco, do Dragão do Mar.

Allen faz um registro autobiográfico - um anseio seu de morar em Paris - no que concerne a sair do circuito convencional de intensa produção hollywoodiana, para tornar-se um romancista. De fato, uma extrema ousadia querer experienciar o convívio, as peculiaridades de um lugar especial, os locais bucólicos, as pessoas, enfim, o que impressiona o ser emocional para receber novos elementos e uma renovação íntima para criar. Nessa disponibilidade para o inusitado, o portal para adentrá-lo surge, na história do filme, à meia-noite.

Neste lugar sem tempo nem espaço, todos os personagens criadores (músicos, escritores, artistas plásticos, boêmios) se encontram, em um grande diálogo do possível. E, mesmo no âmbito da fantasia (ou não?), a vida segue em seu curso não linear.

Criar no estado de fluxo

O atemporal visita quem cria, como também a parada do tempo, porque uma das exigências para se criar o novo (detalhe - sem repetir-se) é transpor certas referências cotidianas impostas, infelizmente, por cada um a si e à sua própria vida e formas de viver, de modo refratário.

O modo como se vê o mundo depende da visão particular deste, se comportando como uma lente conceitual, diz o físico quântico Amit Goswami. Em, "Criatividade Quântica" (Editora Aleph), o físico pede para sermos cautelosos e atentar se nossa lente está fundamentada na verdade. Se o mundo parecer mecânico, a criatividade acaba perdendo o vigor com a falta de cuidado e atenção (pela pressa e urgência de resultados). Ele sugere: "ultrapasse a sua lente mecânica com a consciência e olhe mais uma vez, por meio dos olhos criativos", pois, o processo criativo se manifesta em várias escalas de tempo e, cada uma delas acaba sendo relevante.

Há destruidores de criatividade, sobretudo das crianças, conforme esclarecem Daniel Goleman, Paul Kaufman e Michel Ray em "O Espírito Criativo" (Editora Cultrix). São eles as pressões psicológicas, as inibidoras vigilâncias, as avaliações, as recompensas (que retiram o prazer que está no próprio ato de criar), a competição, o controle excessivo e a restrição de escolhas.

O estado natural do momento da criação é o fluxo, quando se mantém totalmente unido e absorto a ela, o que engendra o máximo de prazer e originalidade. No fluxo, indicam Goleman, Kaufman e Ray, o tempo não importa, pois existe apenas o momento atemporal. São as crianças e alguns artistas que mais conseguem estar neste estado de fluxo. Os adultos se dão mais conta da passagem do tempo.

Confirma isso Ann Lewin, quando afirma que um dos ingredientes da criatividade é o tempo ilimitado. Diretora do Capital Childrem´s Museum, de Washington, um espaço criado para as crianças absorverem-se no que estão fazendo e mergulharem no estado de fluxo, Lewin acha um crime que os pais interrompam as atividades de seus filhos, arrancando suas crianças de sua concentração, e sobretudo frustrando-as em seu processo de criação. Não dão a elas o direito de seguirem as próprias inclinações e sentirem em si seu próprio ritmo.

Ócio como exercício

O ócio acaba sendo um exercício na vida adulta. Muitas vezes, difícil de ser concebido e inserido no ritmo de um produzir compulsivo e repetitivo.

A psicóloga organizacional e do trabalho, também consultora em recursos humanos, Camile Gouveia Varela, investigou as rupturas no tempo da tarefa por trabalhadores de uma gráfica. Tais rupturas (assoviar ou cantar uma canção, parar para ajudar ou trocar uma ideia com um colega, se espreguiçar, entre outras) se revelaram uma possibilidade de resignificação do tempo no contexto do trabalho. "No meio da rotina enfadonha, muitos acabam descobrindo formas de identificação consigo mesmo, rompendo o tempo velho - de pressões - saindo dessas breves pausas revigorados para um novo momento". E confirma que muitas empresas compreendem essas paradas importantes inclusive para a própria produtividade e menor adoecimento.

Após ter realizado uma viagem ao Exterior e ter percebido outra dimensão do tempo, Rebeca Oliveira, professora, psicóloga do trabalho e pesquisadora do Laboratório Otium decidiu entrevistar algumas mulheres que também tiveram experiências similares à sua (viajaram para locais como Turquia, Grécia, França, Espanha, Argentina). Além da sensação de suspensão do tempo pela ruptura da rotina, outros sentimentos identificados foram de autonomia, reflexões sobre si e sua vida, socialização, estética e contemplação. Provas vivas de como o ócio pode se transformar em uma oportunidade especial para criar e recriar-se.

Fique por dentro
Visão unificada

Fractal surge de fractus ou fragmento. Fractais se referem à geometria do processo, de acordo com o professor da Universidade de Fortaleza, Júlio Torres, também estudioso do ócio. A concepção científica atual vê o fragmento como uma parte do todo e o todo estando em cada parte.

É a auto-similaridade, encontrada em tudo. Cita a samambaia, que em cada folha pode ser encontrada a constituição da planta em sua totalidade. "Os processos são semelhantes", diz.

Na Teoria da Complexidade, ócio e atividade não são observados de forma díspar, tampouco separadas. Um encontra-se totalmente intricado dentro do outro.

Solucionar problemas não deve ser visto enquanto execução de tarefas. De acordo com Torres, é essencial que hoje haja uma educação para o ócio, a fim de que as pessoas aprendam a conceber o ócio e o trabalho de forma unificada, onde em todas as situações se compreenda que se pode e deve desfrutar e viver a vida.

Ócio na teoria e prática

Estudiosos do ócio, como os professores Clerton Martins e Júlio Torres, entendem que a hora da criação, seja de invenções, de grandes sacadas e saídas, acontecem durante o envolvimento total do sujeito consigo e com o todo, ficando tomado por tal estado de forma intensa.

"Esse momento de integridade é do mais puro ócio, quando homem e universo se fundem. Aqui se é totalmente ancorado em seus próprios talentos e buscas, como uma criança que se envolve por completo na ludicidade nata, diante do brinquedo que para ela transcende aquilo que o brinquedo representa - um carro não é apenas um carro, pode ser um foguete, um robô, etc. - está para além, muito além da forma", sinaliza Martins, reforçando que o homem ciente de seus talentos empodera-se pelo reconhecimento de suas possibilidades, identificadas no momento onde se sente pleno de seu poder de criar.

Educação para o ócio

Separar atividade de trabalho e lazer ou ócio choca-se com as novas concepções da Teoria da Complexidade. Podemos perfeitamente solucionar problemas, executar tarefas ao mesmo tempo desfrutar a vida, diz o professor Júlio Torres, que estuda e dá cursos sobre a Teoria da Complexidade e vem investigando as possibilidades fractais da experiência do ócio. Neste enfoque, nada está separado e a vida é uma coisa só, sem divisões.

Hoje em dia é muito comum as pessoas tirarem férias do trabalho (ou estudos) e não saberem o que fazer com seu tempo livre. "Ócio, trabalho e tempo livre estão completamente intrincados. E cada um deles pode acontecer no trabalho, no tempo livre ou momentos de ócio".

Tal pensamento é libertador, crê Torres, uma vez que podemos compreender e viver a vida toda como uma experiência de puro ócio. Na música, na dança ou qualquer outra atividade, o músico, o dançarino o artífice se unificam com aquilo em que estão envolvidos no agora.

Clerton Martins confirma que o trabalho criativo envolve o ócio e envolve o prazer, independente do tempo pois, segundo quem vive a experiência do ócio (e quem os pesquisadores observam, investigam e questionam) o tempo instituído deixa de existir para sobressair o tempo da experiência prazerosa, seja no trabalho, seja no tempo livre, seja na semana dos dias úteis, seja nas férias.

"Uma viagem de turismo, na perspectiva do lazer consumista, pode se transformar em um tempo de descobertas subjetivas, reencontro consigo e com o mundo e reconhecimento de talentos e possibilidades perdidas em tempos normais de rotina".

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