PREVENÇÃO

Glicemia sob controle

03:37 · 13.02.2011
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Pesquisa analisa o índice glicêmico de cerca de 30 itens da culinária regional. O objetivo é medir seu impacto na saúde 

Poucos nordestinos não incluem em sua dieta frutas como goiaba, cajá, ata e graviola, além de boas porções de baião de dois, feijão de corda, farofa, macaxeira, além de água de coco, coalhada e rapadura. Todos estes alimentos possuem carboidrato e, portanto, interferem no controle glicêmico. A grande questão é o quanto e se os mesmos podem ser incluídos na dieta alimentar de diabéticos, por exemplo.

A resposta será conhecida provavelmente no segundo semestre, quando já terão sido analisados estatisticamente mais ou menos 400 testes glicêmicos dos cerca de 30 itens que constam da pesquisa “Padrão alimentar cearense: um estudo sobre as inter-relações entre índice glicêmico (IG), carga glicêmica e doenças crônicas não transmissíveis”.

Os trabalhos estão sendo realizados pelo Grupo de Pesquisa em Nutrição e Doenças Crônicas da Universidade Estadual do Ceará (UECE), com financiamento da Fundação Cearense de Amparo à Pesquisa (Funcap).

Tem como membros as nutricionistas Profa. Dra. Helena Alves de Carvalho Sampaio (coordenadora do grupo), Profa. Dra. Maria Luisa Pereira de Melo, profa. Ms. Maria Olganê Dantas Sabry. Profa. Ms. Maria Auristela Magalhães Coelho e Tatiana Uchôa, mestranda em Saúde Pública pela UECE e que está à frente dos testes glicêmicos, juntamente com a Profa. Helena Sampaio.

O interesse que o impacto glicêmico exerce no organismo humano vem crescendo nos últimos anos, principalmente em função da possível associação de uma dieta de alto IG com o desencadeamento de doenças crônicas, como diabetes, obesidade, câncer, hipertensão arterial, assim como doenças hepáticas e esteatose hepática.

“Entender como um alimento pode alterar a glicemia do ser humano pode nos auxiliar na prevenção e no tratamento destas doenças. Mas para que este entendimento seja possível, é necessário conhecer o IG do alimento (valor numérico que traduz o potencial de elevação da sua glicemia)”, descreve a pesquisadora Tatiana Uchôa.

Testes em andamento

Um grande diferencial desta pesquisa realizada no Laboratório Nutrindo da UECE é o de analisar o índice glicêmico justamente de alimentos que fazem parte da dieta da maioria dos cearenses.

Trata-se de um desafio, pois as tabelas de IG disponíveis incluem um grande número de alimentos, mas que possuem uma abrangência internacional. Embora existam estudos brasileiros, ainda são considerados restritos e pontuais já que incluem menos de cinco alimentos.

No caso da pesquisa da UECE, a intenção é investigar 30 itens, cujos testes glicêmicos já foram iniciados. “Através de comparações entre as curvas glicêmicas geradas pela glicose e pelo alimento (ingeridos por voluntários/estudantes da Universidade), será possível calcular e conhecer o IG de cada item.

Todos os voluntários são indivíduos sadios que têm sua glicemia verificada por duas horas, em cada visita (que acontecem em dias distintos),após ingerirem um concentrado de glicose e do alimento determinado (frutas regionais, baião de dois, farofa, coalhada, etc).

“Estes resultados facilitarão o trabalho de nutricionistas na avaliação e prescrição de dietas sob o ponto de vista do IG, de modo que possamos utilizar mais plenamente esta ferramenta na prevenção e tratamento de doenças crônicas, não havendo mais a necessidade de fazer inferências para avaliar uma refeição cotendo, por exemplo, um bom baião de dois”, conclui Tatiana.

Investigação

400 testes glicêmicos devem ser realizados até abril, envolvendo cerca de 30 itens da culinária típica do nordestino.

Variantes podem modificar o IG

O IG é a capacidade que um determinado alimento possui de aumentar a glicemia. O método, proposto por um pesquisador canadense na década de 80, foi popularizado em função da importância dada ao aumento da glicemia após a alimentação, (glicemia pós-prandial).

Cada alimento tem a particularidade de aumentar de forma diferenciada a glicemia. Com base nas tabelas existentes, o Dr. Ítalo Mota, preceptor da Residência de Endocrinologia do HGF e professor do curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor), diz que alimentos com baixo IG seriam melhores para os diabéticos, uma vez que aumentariam menos a glicemia ao serem consumidos.

"Mas essa avaliação deve ser feita por um profissional capacitado (médico ou nutricionista), pois vários aspectos modificam o IG, como o modo de preparo dos alimentos, a região do cultivo. Também pelas tabelas não refletirem os alimentos consumidos no Brasil, já que mostram a realidade de outros países", afirma.

A carga glicêmica é calculada multiplicando-se o IG do alimento pela quantidade de carboidrato do alimento numa refeição. "Mais importante que conhecer o IG e CG, é ter uma dieta saudável, fracionada e fazer exercícios físicos", diz.

GIOVANNA SAMPAIO
EDITORA

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