Saúde

Formas de expressão em cores e gestos

00:21 · 14.05.2013
A arteterapia contribui na aprendizagem, trazendo benefícios à saúde mental de pessoas portadoras de problemas psiquiátricos. Porém, sua indicação se estende a todos que buscam o autoconhecimento pela arte.

Construir uma mandala alivia tensão e expressa sentimentos. Acompanhado do psicólogo, o processo trará eficácia terapêutica e autoconhecimento Foto: Kid Junior

"O processo de desenvolvimento pessoal pela arte tem o intuito de fazer a pessoa se identificar como sujeito da própria vida. A criação solicita de nós uma atitude de saber lidar com o imprevisível e o incerto, aspectos inerentes à vida. Para criar, é preciso se lançar", explica o psiquiatra e psicoterapeuta Raimundo Severo.

A menina dança

Inserida no método terapêutico, a dançaterapia proporciona à psicóloga Daniele Tavares Alves o encontro consigo mesma e com seu corpo por meio dos movimentos que ela se permite realizar. Praticante há quatro anos, Daniele afirma que conheceu a técnica em 2002, e percebeu sua potência na vida dos participantes.

Com interesse e empenho, foi contemplada com uma bolsa de formação em arteterapia, inserindo o método à sua vida profissional e pessoal. "Após a formação, escolhi cuidar de mim também através da arte, da criação como produção de vida, de saúde e de sentidos", relembra.

A psicóloga conta que sempre gostou de dançar. Quando criança fez balé, porém interrompeu, devido a uma escoliose severa que lhe exigiu o uso de colete ortopédico por toda adolescência e o afastamento de atividades físicas. Na fase adulta, adquiriu lúpus articular e fibromialgia, chegando a pesar 113 quilos levada pela experiência das medicações tomadas e das fortes dores que sentia por todo o corpo.

As primeiras experiências foram marcantes: "Tinha um corpo distanciado do movimento orgânico e da dança, com articulações endurecidas, que se expressavam com a linguagem da dor. Estava retornando ao meu corpo. Hoje me sinto em sintonia com ele".

Daniele encontrou um espaço legítimo onde move-se livremente, dança, sente-se viva e apropria-se do corpo de acordo com suas limitações, além de aliviar as dores. "A dançaterapia trouxe para a minha vida uma outra forma de me expressar, autoestima, flexibilidade, sensação de ampliação dos meus espaços corporais, das percepções de mim e do outro. Enquanto danço, a dor vira pano de fundo, energia, sentimentos de bem-estar".

Ela reforça a proposta terapêutica presente na técnica: "Não há movimentos certos ou errados. Gosto da forma gradativa e sutil com que eles são sugeridos. Quando percebo, o movimento já virou dança. Dançar, apesar de me fazer afirmar a vida em mim e a minha história, mantém-me forte para acolher os desafios da existência", diz.

Sonhos em mandalas

Em meio à arte na terapia, as mandalas também são instrumentos que promovem o processo de autorregulação psíquica com o intuito de manter o equilíbrio mental, diz o psicólogo clínico de orientação junguiana, Evaldo Costa.

Define-se autorregulação psíquica como um mecanismo natural da psique para promover o equilíbrio mental. "Algumas vezes, em momento de crise pessoal, financeira ou de outro aspecto, a psique produz no indivíduo imagens através de fantasias ou de sonhos para ajudá-lo a superar. Essas imagens podem trazer formas de mandalas", destaca.

Há três características importantes nas mandalas: movimento ao centro, noção de ordem e de equilíbrio, e de totalidade, a percepção de que ele é partícula do todo. São esses os fatores que o indivíduo precisa encontrar nos momentos de crise. "O padrão de ordem diante do movimento circular em direção ao centro proporcionará o contato com o ponto de equilíbrio, denominado por Jung de ´si-mesmo´. É o núcleo da nossa psique, que corresponde à imagem de Deus, ou seja, a totalidade.

Segundo Evaldo Costa, o paciente chega ao consultório desorganizado, sem saber o que fazer. Perante à crise, ele pontua o sonho e depois de solicitado começa a desenhá-lo. Esse processo promove um sentimento de estruturação espontânea. "De início, não interpreto nada, apenas faço com que o indivíduo vivencie as fantasias, o que vai gerar o equilíbrio. Só depois, irei analisar junto com ele e questionar as associações e os aspectos no desenho", descreve.

As mandalas surgem em trabalhos de argila, pintura, fotografia, colagem, xilogravura e até de dança. "O símbolo pede uma forma de expressão que pode ser feita em diversos materiais". Por isso, o terapeuta reforça que pintar os sonhos deve ser um ato espontâneo.

Elivan Costa diz que as mandalas se encontram em simples atos do cotidiano. "Olhar o por do sol ou a lua cheia, reunir-se em círculo para tocar violão, jantar rodeado de amigos e familiares são exemplos de atitudes que trazem a união, o equilíbrio e a totalidade, pois todos estão unidos em torno de algo central. O símbolo de integração está na vida, basta que você se permita desfrutá-los", conclui.

FIQUE POR DENTRO

A arte de (re)criar a natureza em objetos utilitários

Enquanto alguns têm na arte sua terapia, outros a tomam como fonte de renda. Caso do artista Flávio Castro, conhecido como Dedé que, há 11 anos, transforma elementos da natureza em peças utilitárias como enfeites, incensário, luminária, abajur, entre outros. Foi durante um trabalho na fazenda de sua mãe, que Dedé tirou inspiração da natureza para materializar suas ideias. Não por acaso sua oficina se chama Natureza e Arte.

Para ele, a arte é um processo de desconstrução, construção e reconstrução da natureza. Morador de Maranguape, Dedé explica que sua criação se dá espontaneamente e a considera resgates de valores internos que se extrapolam em objetos. "Procuro o silêncio interno nesse momento entre mim e a peça. Crio com amor e busco mostrar o belo, o equilíbrio, a determinação, entre outros aspectos, a fim de inspirar quem a aprecia".

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