Entrevista Vandereide Luna

Fome também pode ser oculta

00:58 · 02.07.2013
Nem sempre o peso adequado mostra que o indivíduo está bem nutrido de vitaminas e minerais essenciais

Especialista em Nutrição Clínica, a nutricionista Antônia Vandereide Luna, atende a crianças e adolescentes no ambulatório do Iprede FOTO: ALEX COSTA

O que caracteriza a patologia conhecida como fome oculta?

Trata-se de uma carência não aparente de um ou mais micronutrientes no organismo, ou seja, os estoques de vitaminas e minerais são reduzidos silenciosamente sem apresentar sinais e sintomas iniciais. Isso ocorre até que surjam doenças resultantes de tais deficiências como anemia, osteoporose, hipovitaminose A e doenças crônicas, entre outras.

Quais as principais causas que levam o indivíduo a apresentar carência nutricional?

A ingestão de dietas inadequadas em qualidade e quantidade, com refeições realizadas em horários irregulares, alta ingestão de alimentos fast food. Também ao aumento da propaganda de alimentos de baixa qualidade nutricional, facilidade de acesso a alimentos pouco nutritivos, monotonia alimentar, uso abusivo de álcool, drogas, além de algumas doenças que prejudicam a absorção de nutrientes. O culto exagerado ao corpo perfeito promovido pela mídia e que leva as pessoas a restringirem o consumo de alimentos sem o conhecimento adequado, substituindo itens naturais por industrializados (os quais nem sempre conservam todas as vitaminas e minerais).

Em quais situações ocorre erro na seleção e na composição da dieta alimentar?

A escolha de alimentos com alta densidade energética (alto consumo de carboidratos simples e gorduras) ou pelo seu valor calórico no sentido de manter o corpo no peso adequado sem se preocupar com o balanceamento correto das refeições, as quais devem incluir todos os grupos de alimentos (carboidratos, proteínas, vitaminas e fibras em quantidades adequadas).

Qual a relação entre fome oculta e saciedade?

Devido a deficiências nutricionais, o organismo sinaliza ao cérebro a carência desses nutrientes, que estimula o mecanismo da fome e gera maior consumo alimentar. Isso nem sempre ocorre com a reposição desses nutrientes faltosos devido a inadequação da dieta. Como consequência, temos o sobrepeso e a obesidade.

Também há relação entre fome oculta e aparência física?

Essa relação existe à medida que pessoas preocupadas com a aparência passam a adotar dietas por conta própria para manter o peso adequado. Isso pode resultar em sobrepeso, obesidade, desnutrição ou em desordens metabólicas e doenças carenciais. Nem sempre o peso ideal significa que a pessoa está bem nutrida. Também o excesso de atividade física (sem plano alimentar correto) pode prejudicar as reservas do organismo.

Quais são os nutrientes mais deficientes e os prejuízos decorrentes dessa conduta?

As vitaminas e os minerais (presentes nas frutas e hortaliças) são os elementos mais deficientes. Sua ausência pode causar atraso no crescimento e desenvolvimento em crianças, anemias, desnutrição, obesidade, hipovitaminose A, cáries e baixa imunidade. Como resultado, surgem doenças crônicas, fraqueza, irritabilidade e quadros de insônia.

E quanto aos nutrientes para o bom funcionamento do corpo?

Devemos consumir entre cinco a seis refeições saudáveis por dia, de forma colorida e variada. Deve ter início com o aleitamento materno exclusivo até os seis meses e complementado até os dois anos. Para atingir as necessidades nutricionais, devemos incluir alimentos ricos em carboidratos: cereais integrais, tubérculos e raízes (6 porções/dia); frutas, legumes e verduras, fontes de vitaminas e minerais (3 a 4 porções de frutas e outras 3 de legumes e verduras); feijões e outros vegetais ricos em proteína (1 porção/dia); 3 de leite e derivados; 1 porção de carne, frango, peixe ou ovos; consumir 2 litros de água/dia; praticar exercícios e reduzir o consumo de álcool.

Em quais estágio ocorrem os primeiros sintomas?

Pode ocorrer em qualquer fase da vida desde que seja prolongada a ingestão incorreta de nutrientes. Porém, é mais prevalente no período gestacional, na lactação, crianças em idade pré-escolar, idosos e em portadores de doenças que atingem o trato gastrointestinal, nas alergias e intolerâncias alimentares. Sintomas: fraqueza, tontura, queda de cabelo, irritabilidade, diarreia, anemia, dificuldade de concentração, sonolência ou insônia, dermatites.

Como pode prejudicar o sistema metabólico?

Vitaminas e minerais participam de várias reações químicas presentes no processo de digestão, absorção e metabolismo do nosso corpo, como carreadores de nutrientes ou cofatores de reações de absorção, fazendo parte de enzimas e hormônios. Sua deficiência afeta o aproveitamento de nutrientes importantes, podendo alterar o perfil lipídico e acarretar em uma série de doenças para o paciente.

As pessoas que não repõem os nutrientes essenciais podem adquirir doenças não-transmissíveis?

Sim. Pode gerar a síndrome metabólica: doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão e obesidade, além de outras patologias como as doenças renais, baixa imunidade, desnutrição proteico calórica.

É possível que uma pessoa tenha uma alimentação rica em nutrientes, mas ainda assim o corpo não absorva? Por qual motivo isso ocorre?

Sim. Por doenças que comprometem a absorção como a Doença de Chron, colites ulcerativas, síndrome do intestino curto, hepatopatias, pancreatites. Por doenças que afetam o metabolismo: câncer, Aids, queimaduras, intolerâncias e alergias alimentares. Também pode afetar o aproveitamento dos nutrientes quando a dieta é desbalanceada . A falta de vitamina C afeta a absorção do ferro de alimentos de origem vegetal: o consumo de alimentos ricos em cálcio junto com os que contêm ferro competem na absorção. Alimentos que possuem fitatos e oxalatos prejudicam o aproveitamento de zinco; excesso de álcool reduz a absorção de vitaminas do complexo B.

Quais exames são necessários para detectar se uma criança ou adulto possui deficiências de nutrientes essenciais?

A antropometria (pesagem e medição), aferição de medidas (pregas cutâneas, circunferências do corpo, anamnese alimentar, exames clínicos e bioquímicos), hemograma e outros exames para detectar deficiências específicas. Recomenda-se uma consulta anual ao médico e ao nutricionista.

A carência nutricional na gestante gera perdas ao bebê?

A mulher pode ter diabetes gestacional, anemia, fraqueza, parto prematuro, hipertensão arterial, enquanto o bebê pode apresentar baixo peso ao nascer, desnutrição, macrossomia, anemia e até um defeito no tubo neural (que ocorre por deficiência de ácido fólico no período pré-gestacional). Também ocorre o aumento das chances de morbidade e mortalidade perinatal.

Durante a amamentação a criança pode ser afetada caso não receba uma nutrição correta?

Sim. A introdução de leite de vaca, mingaus, chás e outros alimentos de forma precoce prejudica o crescimento e o desenvolvimento da criança ao instalar várias carências como a anemia, hipovitaminoses, diarreia, desnutrição. Recomenda-se aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida e continuar com alimentos complementares de boa qualidade nutricional até os dois anos ou mais, respeitando a cultura alimentar na qual a família está inserida.

FIQUE POR DENTRO

Iprede atende crianças com nutrição em risco

O Instituto de Promoção da Nutrição e do Desenvolvimento Humano (Iprede) prioriza o atendimento de grupos vulneráveis com desnutrição e obesidade, como crianças e adolescentes, fases onde ocorre o aumento de necessidades nutricionais.

O Iprede mantém o Programa de Prevenção e Recuperação da Desnutrição, formado por uma equipe interdisciplinar (médicos, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais), com ações de educação nutricional, prescrição dietoterápica, incentivo ao aleitamento materno, mediação do desenvolvimento e atendimento clínico e psicossocial. Em média, são realizadas 100 consultas ambulatoriais/dia, totalizando 1.500/mês. Também há o Programa de Apoio à Família e o Projeto Mãe Colaboradora.

Já no Programa de Sobrepeso e Obesidade, médicos, nutricionistas, psicólogos e psicomotricistas do Iprede atendem, em média, 50 crianças/mês. Entre os programas de atendimento específico, há o de Puericultura para crianças e nutrizes de 0 a 12 meses (incentivo ao aleitamento materno e dieta complementar). No destinado à Promoção da Nutrição e do Desenvolvimento, a assistência é individual e em grupo para crianças de 0 a 6 anos com desnutrição, risco nutricional e/ou atraso no desenvolvimento; além do Programa de Sobrepeso e Obesidade, que assiste crianças e adolescentes.

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