FALTA DE NUTRIENTES

Fome oculta coloca a saúde humana em risco

22:28 · 04.06.2011
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Em lanchonetes de escolas e nos cardápios de creches/escolas é comum a oferta de alimentos ricos - de forma excessiva - em gorduras e açúcares e pobres e nutrientes
Em lanchonetes de escolas e nos cardápios de creches/escolas é comum a oferta de alimentos ricos - de forma excessiva - em gorduras e açúcares e pobres e nutrientes ( FOTO: ALEX COSTA )
Os alimentos foram preparados atendendo a todas as necessidades nutricionais e higiênicas
Os alimentos foram preparados atendendo a todas as necessidades nutricionais e higiênicas ( Foto: Alex Costa )
Por se tratar de um processo onde os estoques de vitaminas e minerais diminuem silenciosamente - sem apresentar sintomas - a fome oculta é considerada hoje o problema nutricional mais frequente no mundo. Tal condição compromete o desenvolvimento físico e mental, além de atingir o sistema imunológico da criança.

A falta de cinco vitaminas e minerais (iodo, ácido fólico, zinco, vitamina A e ferro) ainda precisa ser melhor explicada quanto aos efeitos negativos de sua ausência na alimentação. Segundo a pediatra Regina Lucia Portela Diniz, Doutora em Ciências pela USP, Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente pela UECE, "a deficiência do iodo gera repercussões negativas na criança desde a gestação, podendo ocasionar retardo mental e danos cerebrais no bebê".

Fome de nutrientes

O número de pessoas acometidas por carências de micronutrientes vem crescendo: já são cerca de 250 milhões de crianças sob o risco de vitamina A, a principal causa de cegueira na infância. "E, em países onde as campanhas de imunização não estão bem implantadas, milhões de crianças morrem por complicações infecciosas decorrentes desta deficiência, a exemplo do sarampo", destaca a pediatra Junaura Rocha Barretto, que falou sobre "Fome oculta", na mesa redonda "Da prevenção ao dignóstico: como proceder", durante a 68ª edição do Curso Nestlé de Atualização em Pediatria.

Sobre a carência de ácido fólico desde a gestação, Dra. Regina Portela, médica do Hospital Infantil Albert Sabin, diz que pode gerar problemas de formação no tubo neural do bebê. A pobreza do zinco compromete o crescimento e o desenvolvimento, reduzindo a imunidade e interferindo na maturação sexual da criança. Além de prejudicar o desenvolvimento físico, a deficiência de vitamina A (frequente em algumas regiões do país),tem repercussões negativas na visão da criança, enquanto a de ferro pode levar ao comprometimento motor, mental, assim como baixa imunidade.

Em decorrência de tudo isso, explica Dra. Regina Portela, há que se ressaltar a importância da qualidade dos alimentos a serem incluídos na dieta. É o caso da carne vermelha como excelente fonte de ferro, ao lado das hortaliças, particularmente o brócolis pela sua biodisponibilidade do ferro, assim como as vísceras e o leite materno. Em relação ao zinco, a carne bovina, o frango, o peixe, o fígado e os grãos integrais são itens a serem incluídos. Presente nos legumes e frutas de cor amarela, a vitamina A deve constar alimentação infantil a partir do sexto mês. O peixe deve fazer parte da dieta pelo menos duas vezes por semana por ser rica em zinco e ácidos graxos essenciais (ômega 3 e ômega 6).

Carência marginal

O Brasil foi classificado como um país de carência sub-clínica grave (marginal), segundo a Organização Mundial de Saúde. Calcula-se que o número de crianças com carência marginal de vitamina A seja de cinco a 10 vezes maior do que o número de crianças com sintomas decorrentes da deficiência desta vitamina, diz Junaura Barreto, professora da Pediatria da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública.

Em relação à deficiência de ferro, informa que, embora ainda não exista um levantamento nacional, estudos apontam que aproximadamente metade dos pré-escolares brasileiros sejam anêmicos (cerca de 4,8 milhões de crianças) com a prevalência chegando a 67,6% nas idades entre 6 e 24 meses. No caso de gestantes, estima-se uma média nacional de prevalência de anemia em torno de 30%.

No Brasil, a deficiência de iodo foi vista como um problema de saúde pública na década de 1950, época onde cerca de 20% da população apresentava bócio. Através da iodização do sal, após cerca de cinco décadas, observa-se uma significativa redução nas prevalências de bócio, estando o Brasil atualmente entre os países que praticamente eliminaram as alterações decorrentes da deficiência de iodo (20,7% em 1955; 14,1% em 1974;1,3% em 1994; e 1,4% no ano de 2000).

Má alimentação

A introdução precoce do leite de vaca integral não modificado é frequente. Dra. Regina Portela cita o estudo realizado em 2010 em três capitais (São Paulo, Curitiba e Recife), onde 76,1% (menores de 6 meses) das 179 crianças (de quatro a 12 meses de vida) eram alimentadas com leite de vaca integral não modificado.

A baixa disponibilidade de ferro, a reduzida concentração de zinco e das vitaminas D, E e C, além do baixo teor de ácidos graxos essenciais presentes no leite de vaca integral, "nos permite desaconselhar sua introdução no primeiro ano de vida", destaca a pediatra cearense.

Também considera essencial chamar atenção para uma prática - igualmente frequente nas famílias brasileiras - de inclusão de gorduras (notadamente as saturadas e trans) na dieta alimentar das crianças. Tais condições, quando associadas ao alto teor de sódio presente na maioria dos alimentos industrializados, potencializam o risco de doenças crônicas - a exemplo da hipertensão arterial e dislipidemias - na fase adulta.

Nutrientes essenciais

Vitamina A: é encontrada nos alimentos na forma de retinol. Nos de origem animal (leite e derivados, fígado, peixes); origem vegetal (óleos, frutas e vegetais). A deficiência de DVA é um problema de saúde pública em mais da metade dos países;

Ferro: é componente de várias proteínas (enzimas, citrocromos, mioglobina e hemoglobina). As carnes (vermelha e vísceras) são as melhores fontes. A anemia por deficiência de ferro é a mais comum das carências nutricionais;

Iodo: é adquirido exclusivamente da dieta. A deficiência pode causar, em crianças, cretinismo (retardo mental grave), surdo-mudez, anomalias congênitas e bócio;

Zinco: as principais fontes alimentares são as carnes, frutos do mar e leite. A OMS indica a suplementação de zinco em duas ocasiões: na diarreia aguda e na desnutrição grave.

Opções com toque gourmet para pacientes especiais

Se a alimentação nos primeiros anos de vida deve ter um cuidado especial a fim de suprir as necessidades nutricionais para um desenvolvimento sadio, a dieta de crianças e adultos portadores do vírus HIV precisa de atenção redobrada.

Adequar as necessidades desses pacientes a um cardápio dentro da realidade local é o desafio diário da Casa Sol Nascente. A ONG funciona há 10 anos em Fortaleza e acolhe adultos e crianças soropositivos divididos em duas residências.

A nutricionista Thalita Lisboa de Carvalho, uma das 30 profissionais da organização, é a responsável pelo cardápio atual, avaliação periódica dos pacientes e conservação e higiene dos alimentos. Ela explica que, por terem o sistema imunológico diretamente afetado pelo vírus, necessitam de cuidados alimentares e higiênicos especiais. "O consumo das drogas antirretrovirais no tratamento tende a provocar aumento do colesterol. Alguns têm diabetes e há um número pequeno de crianças com intolerância à lactose ou com o intestino muito sensível", relata. A conduta profissional é, portanto, voltada para evitar a piora desses quadros e melhorar o estado nutricional dos pacientes, já que muitos chegam em estado de desnutrição.

No caso da hipercolesterolemia, é preciso evitar alimentos ricos em gordura e carboidratos, além de incluir refeições ricas em fibras como linhaça e aveia. "No caso de não haver nenhum desvio, a alimentação das crianças, em geral, é o mais normal possível, cobrindo sempre as necessidades nutricionais proteico-energéticas, pois muitas já nasceram em condições de subnutrição", informa Thalita de Carvalho.

Sabores da cidade

Os cardápios são variados e desenvolvidos a partir de doações recebidas pela organização. Para isso, divulgação e ações voluntárias são essenciais. Dentro dessa perspectiva, a jornalista Izakeline Ribeiro, comemorou no dia 29 de maio os dois anos de seu blog de gastronomia, o "Sabores da Cidade" (http://www.saboresdacidade.blogspot.com), na sede infantil da Casa Sol Nascente, promovendo uma manhã especial para as crianças e adultos atendidos pela instituição. "O blog já me trouxe tanta coisa boa que nos aniversários decidi compartilhar com quem tem menos acesso", conta Izakeline.

Brincadeiras infantis e a entrega de presentes e lembrancinhas fizeram parte da programação, cuja atração principal foi o delicioso almoço feito pelo chef de cozinha Bruno Modolo e sua equipe de ajudantes. "Iniciativas como essa são ímpares, pois usar o conhecimento e trabalho para trazer ao próximo momentos agraváveis através dos sabores e aromas exprime a essência da gastronomia", diz o chef.

O cardápio do evento foi todo adaptado às necessidades e restrições alimentares dos pacientes. Nada de preparações ricas em gordura ou carboidratos. Frango, peixe, arroz, salada, sobremesas diet compuseram o menu, aprovado pela nutricionista da casa. O sucesso foi tanto que Izakeline Riberto e Bruno Monolo já pensam no próximo evento.

MAIS INFORMAÇÕES

Casa do Sol Nascente
Condomínio Espiritual Uirapuru (CEU), Av. Alberto Craveiro, 2222, Castelão.
Fone: (85)3469.4437

ENTREVISTA

Deficiências de nutrientes compromete a saúde e o desenvolvimento sócio-econômico do país

Apesar da fortificação obrigatória de farinhas de trigo e milho, é certo afirmar que a saúde de nossas crianças continua vulnerável a uma série de doenças?

Sim. Observamos ainda uma elevada prevalência de anemia ferropriva, independente do estado nutricional das crianças. A fortificação é mais um recurso utilizado na prevenção. A suplementação profilática de ferro a partir de 6 meses até os 2 anos de idade, através do uso do sulfato ferroso disponível nas farmácias dos postos de saúde, modificaria esse espectro, se assim fosse realizada pelos pediatras. Apesar de não haver estudos nacionais informando a cobertura da administração profilática de ferro, observamos na prática clínica ainda uma baixa cobertura em gestantes, lactantes e especialmente lactentes. Os pediatras devem seguir as recomendações do Ministério da Saúde, e Sociedade Brasileira de Pediatria, que orientam a suplementação profilática de ferro para crianças que não estejam usando pelo menos 500ml d e fórmula infantil, de seis meses até os 2 anos de idade.

Além da fortificação de farinhas, quais outros alimentos poderiam receber um aporte de nutrientes eficaz para fazer frente à carência nutricional?

Também são necessárias campanhas para seguimento dos protocolos já disponíveis pelo Ministério da Saúde, assim como a suplementação d e vitamina A e ferro. Também são necessários treinamentos periódicos para pediatras da rede pública, visando à orientação para identificação de situações de risco; a bio fortificação, que em alguns países já vem sendo realizada (através da bioengenharia são produzidos alimentos ricos em determinados micronutrientes); a melhoria na assistência nos serviços de saúde. E em se tratando de crianças, deve haver a priorização da puericultura realizada pelo médico pediatra, com treinamento para identificação e tratamento das situações de risco nutricional.

Como analisa a situação atual e quais ações - de largo alcance - poderiam influenciar de forma positiva a população no sentido de atentar mais para a alimentação de nossas crianças?

A educação é essencial, indispensável. A grande maioria das escolas de Medicina no Brasil não dispõe em sua grade curricular de graduação a disciplina de nutrição. O estudante aprende durante o curso ao estudar as patologias, mas é tudo muito superficial. A pediatria é a disciplina que mais aborda este tema, e vemos que os alunos chegam deficientes de conceitos básicos em nutrição. Portanto, penso que a introdução da disciplina de nutrição no currículo médico é uma ação fundamental. E mais: campanhas de informação voltadas para pediatras, com intuito de que se utilize os protocolos vigentes disponibilizados pelo Ministério da Saúde e pelas sociedades da classe; estes devem atentar, especialmente, a preencher a caderneta de saúde da criança, na qual já constam informações valiosas sobre o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento. Considero fundamental o treinamento para pediatras e profissionais de saúde para identificação de situações de risco em crianças, lactantes, gestantes e idosos.

A carência de nutrientes essenciais é uma condição que afeta mais drasticamente a população de baixa renda, ou tais deficiências também comprometem lares com poder aquisitivo mais elevado, mas que nem por isso adota uma alimentação adequada?

As micro deficiências podem acometer pessoas de qualquer classe social. Na população de baixa renda observamos uma maior prevalência em virtude da falta de recursos e informações para consumo de alimentos fontes de alguns nutrientes. É o caso dos alimentos ricos em ferro de maior biodisponibilidade que são os de origem animal: carne, frango, peixes, vísceras, etc. O custo desses alimentos é elevado, então essas pessoas reduzem o consumo. Em pessoas de renda elevada, observa-se deficiência quando existe restrição alimentar, modismos ou erro alimentar importante.

Dra. Junaura Barreto
Nutróloga, gastropediatra e membro do Departamento Científico de Nutrologia da SBP


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