PARADOXO

Fome de nutrientes e excesso de calorias

22:28 · 04.06.2011
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O retrato da família brasileira - obesidade X deficiência de micronutrientes essenciais - também pode ser traduzido pela frase: além de não comermos o que é necessário, comemos em excesso o que não &e
O retrato da família brasileira - obesidade X deficiência de micronutrientes essenciais - também pode ser traduzido pela frase: além de não comermos o que é necessário, comemos em excesso o que não &e ( )
100 ml /dia é a quantidade máxima de suco de laranja a ser oferecida à criança. O objetivo é evitar que haja uma competição com alimentos nutricionalmente mais ricos
100 ml /dia é a quantidade máxima de suco de laranja a ser oferecida à criança. O objetivo é evitar que haja uma competição com alimentos nutricionalmente mais ricos ( FOTO: ALEX COSTA )
CONSEQUÊNCIAS DA TRANSIÇÃO NUTRICIONAL COMPROMETEM A SAÚDE COM O AUMENTO DA OBESIDADE INFANTIL

A coexistência de carência nutricional (anemia), redução significativa nas formas graves de desnutrição energético-proteica, aumento de sobrepeso e obesidade infantil numa mesma população e contexto histórico mostra que o Brasil (onde 38,8 milhões de adultos estão obesos) passa hoje por uma transição nutricional.

Trata-se de uma condição vivenciada por países em desenvolvimento, cujo processo de transição ocorreu em resposta aos novos padrões de hábitos alimentares (excesso de carboidratos e gorduras, carência de micronutrientes) e sedentarismo determinados por mudanças econômicas, demográficas, ambientais e culturais, destaca Dra. Vera Lúcia Sdepaniam, chefe da disciplina de Gastroenterologia Pediátrica da Universidade Federal de São Paulo.

Foi sobre este paradoxo que desencadeia processos de doenças crônicas não-transmissíveis (dislipidemia, hipertensão arterial, anemia, diabetes tipo 2, dermatite atópica, asma) já na adolescência e repercutem na vida adulta que tratou a 68ª edição do Curso Nestlé de Atualização em Pediatria, realizado de 17 a 20 de maio, no ExpoUnimed, em Curitiba. 50 professores das principais escolas de medicina de todo o País ministraram aulas para mais de 4 mil pediatras, com apoio da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Orientação nutricional

As práticas alimentares no primeiro ano de vida são um marco importante na formação dos hábitos alimentares da criança. Apesar disso, dados da pesquisa nacional do Ministério da Saúde (2008) mostram que o aleitamento materno exclusivo em menores de seis meses foi de 41% e em menores de 4 meses 51,2%. "É indício de que existe a introdução de alimentos líquidos ou sólidos em momento não oportuno", segundo a Dra. Virgínia Weffort, professora de Pediatria da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e presidente do departamento de Nutrologia da SBP.

"A amamentação exclusiva até os 6 meses, combinada (até os 2 anos), com outros itens, reduz a incidência de sobrepeso na idade adulta", comenta Weffort. A oferta calórica do leite materno torna-se insuficiente para suprir o metabolismo da criança a partir dos 6 meses, sendo hora de introduzir novos alimentos ricos em energia, proteínas, gorduras e micronutrientes, com ênfase para o ferro, o zinco, o cálcio, os folatos e as vitaminas A e C.

A introdução de novos alimentos sempre é motivo de receio, principalmente em relação à possibilidade do bebê apresentar alergia alimentar. Sobre isso, Dra. Mônica Lisboa Chang Wayhs, pediatra do Serviço de Metabologia e Nutrologia Pediátrica do Hospital Infantil Joana de Gusmão (SC) é taxativa: carnes, ovos e peixes devem ser introduzidos na dieta de todas as crianças, exceto nas de risco.

"A chance de uma criança apresentar clínica ou exames complementares compatíveis com alergia é três vezes maior se o pai e a mãe apresentam história de alergia, e duas vezes maior caso somente um dos pais apresente história positiva, quando comparado com filhos de pais sem antecedentes alérgicos", explica a especialista.

Dra. Mônica Wayhs, professora do Departamento de Pediatria da UFSC iInforma que o leite humano tem efeito protetor para alergia em lactentes com risco familiar, quando ofertado exclusivamente até no mínimo os 4 meses de idade, com redução do desenvolvimento de alergia alimentar, eczema atópico e manifestações alérgicas respiratórias. Destaca que o diagnóstico de alergias é clínico, sendo o teste de provocação oral e dieta de exclusão indicados em casos de suspeita.

Fique por dentro
Leite humano

O bebê que mama tem um microbiota diferenciada que o protege de doenças alérgicas e intestinais; a amamentação exclusiva - até os seis meses de vida- reduz em 25% a 30% as chances do bebê apresentar excesso de peso, informa a médica e pesquisadora Roseli Sarni, presidente do Departamento Científico de Nutrologia da SBP.

Apesar de todas as evidências que demonstram a superioridade da amamentação e os esforços de diversos organismos nacionais e internacionais, "as taxas de aleitamento materno no Brasil, em especial a exclusiva (até os 6 meses), estão bastante aquém do recomendado", diz o professor Severino Dantas Filho, do Departamento de Pediatria do Centro Biomédico da UFES. Dados indicam que é de 2,17 meses o tempo que as mães dedicam a amamentação exclusiva.

Mas para que as mães abracem a "causa" da amamentação exclusiva até os 6 meses, Severino Dantas enfatiza a necessidade da primeira visita da mãe ao pediatra ocorrer antes mesmo do parto. "Cabe a nós conscientizá-las, pois elas precisam ganhar confiança, apoio, segurança. O bebê precisa ser levado ao pediatra 3, 4 dias após o parto, quando devemos esclarecer a mãe sobre a forma mais confortável para a pega (da mama)". Para ajudá-la a amamentar corretamente, a mãe precisa criar uma rede de afeto em seu entorno e do bebê, formada pela mãe, irmã, avó e pelo pai do bebê.

Mudanças devem começar pela família

Cabe aos pais não só a responsabilidade pela educação formal e moral. A alimentar - com base do hábito adotado pela família - é igualmente decisiva para a saúde da criança. Ao pediatra é delegada a função de fazer com que essa família adote hábitos saudáveis e indique formas de manejo da obesidade.

Tais condutas são, na verdade, medidas simples, que de tão elementares, muitas vezes são relegadas a segundo plano pelos pais. Neste contexto estão atitudes do tipo: não insistir para que a criança "raspe" o prato; não instituir o hábito da sobremesa (muitas vezes como moeda de troca, recompensa); não saciar a sede com sucos e chás; não oferecer alimentos com altas densidades calóricas.

"A obesidade deve ser considerada uma doença crônica de difícil manejo. Trata-se de um traço complexo e multifatorial que envolve a interação de influências metabólicas, fisiológicas, comportamentais, sociais, celulares e moleculares", destaca a gastropediatra e nutróloga Elza Daniel de Mello.

Troca, jogo, recompensa

Segundo a professora de Pediatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), "a formação dos hábitos alimentares é uma espécie de jogo imbricado, resultado do processo biopsicológico, tecnológico, econômico, demográfico e, predominantemente, ambiental.

A Doutora em Pediatria também chama atenção para como normalmente é realizada a aquisição dos alimentos: os que são necessários e que fazem parte da alimentação central da família; os de que a família gosta; e aqueles adquiridos por influência da publicidade, por sugestão de amigos e que são periféricos, ou seja, consumidos irregularmente.

Manejo da obesidade

Fazer exercício, mas realizá-lo com prazer, pois o importante é adquirir este hábito para a vida;

Ter horário para refeições, comer num intervalo mínimo de 1h30min e máximo de 3 horas;

Não comer vendo TV;

Não ter em casa alimentos que possam fazer a criança sair do manejo (bolachas recheadas e salgadinhos);

Dar exemplo é fundamental;

Mudar o hábito familiar de comemorar situações comendo. Encontrar outras formas, como ir ao parque, ao cinema (sem pipoca);

Não usar adoçantes de formar indiscriminada, já que alteram hábito e estimulam mais o prazer doce;

Incluir a criança ativamente na escolha das diretrizes do manejo de sua obesidade, pois ela não merece outra frustração (como a de falhar em "seguir" a dieta), além do fato de ser gordo.

GIOVANNA SAMPAIO
EDITORA

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