Doenças respiratórias

Floração agrava quadro de quem é sensível à natureza

00:34 · 24.09.2013
Os pólens (caju, ipê, milho) suspensos no ar tornam os dias dos alérgicos mais difíceis nesta época do ano

Tem um período do ano que os espirros, congestão nasal, coceira no nariz, nos olhos e na garganta surgem com maior intensidade. Bem, esses sintomas são decorrentes da época dos ventos e da floração, característica dos meses de agosto, setembro e outubro, quando as plantas começam a florescer e os pólens ficam suspensos no ar.

O pólen do ipê, assim como do caju, do jacarandá, do milho e da cana-de-açúcar potencializam as alergias FOTO: AGÊNCIA DN

No Ceará, o pólen do caju é o mais conhecido, mas se dissemina ainda os da jaca, do ipê, do jacarandá, do milho e da cana-de-açúcar.

Com o fenômeno aumentam os casos de doenças respiratórias como crises alérgicas. O pólen contém uma proteína com alto potencial de causar alergia, que sensibiliza e desencadeia uma resposta alérgica do sistema imunológico.

"A alergia resulta da tentativa do sistema imune de impedir a entrada e o contato com uma substância considerada prejudicial ao organismo", esclarece Jorge Evandro, membro benemérito da Fundação de Otorrinolaringologia, especialista pela Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial.

Quadro difuso

No Brasil, a alergia a pólen pode não se manifestar de forma clássica, e sim encoberta por outras sensibilizações capazes de alterar o quadro clínico. Em decorrência à sensibilização ao pólen, a alergia é conhecida como febre do feno (polinose) e, apesar do nome, não existe febre, mas uma sensação febril, simulando um estado gripal.

"Em geral, os pólens devem ser leves e de pequenas dimensões (de 20 a 40 micros de diâmetro) e necessitam de uma concentração de 50 grãos por metro de ar para desencadear crises alérgicas", pontua a alergista e imunologista Lorena Madeira, diretora do Centro de Pneumologia e Alergia do Ceará

O fenômeno provoca uma sobreposição de alergia respiratória perene (rinite alérgica, conjuntivite alérgica e asma brônquica), provocada pelo contato com alérgenos do ambiente domiciliar, como a poeira os ácaros, o epitélio de animais e baratas, com a alergia a pólens.

Segundo Madeira, que também preside a Câmara Técnica de Alergia e Imunopatologia (Regional Ceará), é mais habitual encontrar paciente alérgico à pólen que já são alérgicos a ácaros. "É raro encontrar reações positivas unicamente a pólens", frisa.

Crises sazonais

Dessa forma, quando se fala em sintomas próprios de alergia sazonal, a atenção é direcionada para os quadros de rinoconjuntivite.

Para Lorena Madeira, os sintomas oculares são importantes no diagnóstico de rinite estacional, porque a maioria dos indivíduos com polinose possui conjuntivite alérgica associada à rinite, fator que os diferencia do resfriado comum. A imunologista reforça que os sintomas de lacrimejamento, acompanhados de prurido (no período da primavera), referem-se à polinose.

Explica que surgem simultaneamente ou após secreção nasal aquosa, obstrução da mucosa nasal com prurido e espirros. "O quadro ocular mostra vasos da conjuntivite dilatados, hiperemia (vermelhidão leve a intensa), com ou sem lacrimejamento. Pode levar à rarefação discreta ou intensa dos cílios e supercílios (sobrancelhas) pelo ato de coçar. Geralmente, os pacientes relatam fotofobia (incomodo ocular a exposição à luz", diz a especialista.

Casos mais graves

Nos quadros mais graves, os efeitos podem evoluir para crises de falta de ar ou chiado no peito. No entanto, não há como determinar as doenças respiratórias que a floração pode acarretar. Para o otorrinolaringologista Jorge Evandro, em todo quadro alérgico pode ocorrer uma complicação, a exemplo de sinusite, conjuntivite, pneumonia e asma.

Na sinusite, o paciente pode apresentar dor de cabeça constante, mudança da cor da secreção nasal, indisposição e dor na face. "Na asma, o quadro é mais grave, com sintomas de chiado no peito e falta de ar, entre outros", descreve.

Segundo a imunologista Lorena Madeira, existe uma tendência elevada à ocorrência de infecção nos tratos respiratórios inferiores, como inflamação na garganta e na mucosa da laringe levando a uma sensação de ressecamento da orofaringe.

Sobretudo, há preocupação quanto ao risco aumentado de ceratocone (deformidade da córnea), gerando distorções da visão pelo ato de prurido persistente, podendo evoluir ao ponto de ser necessário o uso de um anel ou ao extremo de um transplante de córnea.

Tanto Jorge Evandro como Lorena Madeira são unânimes na indicação do indivíduo buscar ajuda médica logo aos primeiros sintomas. "Toda crise alérgica pode levar a complicações graves. Existem doenças bacterianas e virais que apresentam sinais muito semelhantes ao de uma crise alérgica. Assim, somente o médico será capaz de fazer o diagnóstico adequado e prescrever o tratamento correto", concordam.

Precaução

Àqueles que possuem predisposição alérgica, as medidas preventivas podem ser tão eficazes quanto o tratamento em si. Empreender algumas mudanças na rotina é o primeiro passo.

Para tanto, o otorrinolaringologista Jorge Evandro destaca a importância de ficar atento à limpeza da residência, usando pano úmido em substituição à vassoura e, assim, evitar que a poeira se propague no ambiente.

Para realizar a higiene correta das narinas, o médico indica a formulação de cloreto de sódio 0,9%, na forma de spray (Nasa), que já se encontra disponível na rede de farmácias da cidade.

Recomendações não faltam. Entre as essenciais estão a de manter as janelas fechadas durante a noite; utilizar somente ar condicionado com filtros (e realizar a limpeza semanal dos mesmos); ao sair do carro, deixar os vidros fechados; usar óculos com proteção lateral para diminuir o contato com os pólens; lavar os cabelos todos os dias a fim de evitar o acúmulo de pólens no travesseiro; secar as roupas dentro de casa; evitar a proximidade com queimadas ou cigarros; e, principalmente, evitar a automedicação.

 FIQUE POR DENTRO

Quais as espécies que produzem mais pólen

Segundo a Revista Brasileira de Alergia e Imunopatologia, o milho possui pólens de grande dimensão (86-122mm), o qual é transportado a pequena distância (100 a 500 metros) e por curto período de tempo (5-8 dias). Pela sua vastidão de áreas de plantio, a cana-de-açúcar poderia tornar-se um problema; são todas híbridas, sendo selecionada para o não florescimento.

O cajueiro (Anacardium occidentale) é considerado anemófila (pólem transportado pelo vento), e entemofilia (polinização por inseto). Estudo divulgado no "Journal of Investigation Allergology on Clinical Immunolooy" do Prof. Dr. Everardo Albuquerque, pesquisador da Universidade Federal do Ceará (UFC), com a colaboração do Dr. Geraldo Madeira Sobrinho (médico fundador da Asbai-CE) identificaram sensibilização ao pólen do caju no Ceará por meio da realização de testes cutâneos.

Para considerarmos a planta produtora de polinose, é necessário que seja anemófila, possui pólen alergógeno, ser abundante e próximo no homem. No Ceará as plantações de cajueiros estão aumentando. O cajueiro (mesmo considerando sua principal polinização como entomófila), pode ser responsável por sintomas alérgicos em trabalhadores das plantações e populações mais próximas.

Outro estudo, realizado no sul do país, revela que a polinose por gramíneas (plantas sazonais) foi identificado em 1,8% nas crianças e 10,4% em adultos. Geralmente, as crianças muito pequenas não sofrem dessa doença, pois é preciso exposição ao pólen que são mais comuns fora de casa. "É importante ressaltar que portadores de rinoconjuntivite sazonal podem também ser portadores de rinite ou rinoconjuntivite alérgica perene (não estacional). Isso pode mascarar a característica estacional dos sintomas". Geralmente, esse tipo de alergia (pólens) atinge crianças acima de 5 anos, adolescentes e adultos.

Apesar dos estudos citados, as pesquisas epidemiológicas relacionadas a ronoconjuntivite estacional continuam escassas.

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

Cuidados

"Não evitar as frutas da floração, pois elas têm vitaminas que ajudam no desenvolvimento do sistema imunológico"

Dr. Jorge Evandro
Otorrinolaringologista

"O fenômeno da floração causa uma sobreposição de alergia respiratória perene e a alergia aos vários tipos de pólens"

Lorena Madeira
Alergista e imunologista

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