Entrevsita com Christiani Amorim

Fertilidade de pacientes com câncer pode ser preservada

00:00 · 22.10.2013
Pesquisadora cearense desenvolve ovário artificial em laboratório na Bélgica, com resultados promissores

Desenvolvida na Université Catholique de Louvain, a técnica da criopreservação e transplante de tecido ovariano é esperança para pacientes com câncer? Por que?

Muitos tratamentos de câncer (quimioterapia ou radioterapia) levam à menopausa precoce. Então, a fim de preservar a fertilidade das pacientes, antes de iniciar o tratamento, nós retiramos parte do tecido ovariano e congelamos. Tão logo a paciente esteja curada e demonstre vontade de engravidar, nós descongelamos o tecido ovariano e transplantamos na paciente. Atualmente, no mundo inteiro, há mais de 60 mulheres transplantadas e 30 nascimentos de bebês a partir dessa técnica.

Christiani Amorim realiza pesquisa pioneira na criopreservação e transplante, única opção para preservar a fertilidade em meninas antes da puberdade e em pacientes que não podem retardar o início da quimio e da radioterapia foto: divulgação

Fale-nos sobre o criobanco de tecido ovariano e seu largo alcance social .

O criobanco do Hospital Universitário St. Luc possui atualmente tecido ovariano congelado de mais de 600 pacientes. Esse serviço foi iniciado em 1997 e em 2004 obtivemos o primeiro nascimento no mundo de um bebê de uma paciente que teve o tecido ovariano congelado e transplantado. Desde então, o número de pacientes que nos procuram tem aumentado consideravelmente. Nos últimos anos, temos uma média de 65 pacientes por ano, com idade que varia de dois a 35 anos. A maioria dessas pacientes mora na Bélgica, mas também temos muitas pacientes de outros países da Europa que nos procuram, atraídas pelos resultados que obtemos.

Como é viabilizada a participação das pacientes neste serviço?

Felizmente, podemos atingir um grande número de pacientes porque conseguimos que esse procedimento (laparoscopia para retirada do tecido ovariano, congelação e estocagem do tecido e posterior transplante) seja coberto pela sistema nacional de saúde. Assim, a paciente ou os seus pais não precisam arcar com nenhum custo, ao contrário de outros países onde essa técnica é utilizada. Apesar de nossa técnica de congelação e transplante de tecido ovariano ter proporcionado bons resultados - todas as pacientes restabeleceram a função ovariana (têm ciclo menstrual) após o transplante e quatro delas tiveram bebês estamos constantemente trabalhando para otimizá-la e entender o que se passa com o tecido quando congelado e transplantado. Para isso, temos um laboratório especializado que conta com um time de dez profissionais, entre pesquisadores (no qual me incluo), pós-doutorandos, estudantes de doutorado, técnicos e ginecologistas. No momento, não há nenhum outro brasileiro em nosso grupo.

Por que essa é a única opção para preservar a fertilidade? É indicada para quais casos?

Quando uma paciente é diagnosticada com câncer, se ela tiver que se submeter a um tratamento contra o câncer que seja gonadotóxico, ou seja, que destrua seus óvulos, o oncologista aconselha uma das três opções: congelação de embriões, ovócitos ou tecido ovariano. Para a congelação de embriões, a paciente precisa ter um parceiro estável ou aceitar doação de espermatozóide e ainda necessita de autorização de seu oncologista para retardar o tratamento para o câncer. Isso porque ela precisa de tempo para fazer um tratamento hormonal para recolher o maior número possível de óvulos. Para a congelação de óvulos, a paciente também precisa ser adulta e passar por esse tratamento hormonal. Assim, a congelação de tecido ovariano é a única opção de preservação da fertilidade para meninas que ainda não atingiram a puberdade e para pacientes que não podem retardar o começo da quimio ou radioterapia.

Para quais tipos e estágios do câncer o transplante de tecido ovariano não é indicado?

Apesar dessa técnica poder ser oferecida a um maior número de pacientes, há uma única restrição: o tipo de estágio de evolução do câncer. Em doenças como a leucemia, neuroblastoma e câncer de mama em estágio avançado, por exemplo, há a possibilidade de que células cancerígenas estejam presentes também no ovário. Assim, se o tecido ovariano for transplantado, há o risco de que essas células possam se multiplicar e causar a recidiva. Para essas pacientes, nós congelamos o tecido ovariano, mas não podemos realizar o transplante. A ideia é criar um ovário artificial para restaurar a fertilidade dessas pacientes.

Fale-nos sobre a criação de um ovário artificial para pacientes com câncer sistêmico ou de mama em estágio avançado.

Quando vim trabalhar aqui, em 2007, algumas pesquisas desenvolvidas no nosso laboratório e em outras universidades europeias e americanas já mostravam o risco para a possibilidade de transmissão de células malígnas em alguns tipos de câncer, de modo que meu chefe na época, me pediu para desenvolver uma alternativa para essas pacientes. Daí surgiu a ideia de criar um ovário artificial. Quando congelamos o tecido ovariano, nosso interesse está na preservação dos óvulos em estágio precoce de desenvolvimento. Esses óvulos são circundados por células responsáveis pelo seu crescimento, nutrição e sobrevivência. Ao redor dessas células encontra-se uma membrana que protege toda essa estrutura (conhecida como folículo pré-antral) da invasão de células malígnas. Então, o que fazemos é isolar esses folículos e colocá-los num suporte ou matriz (o ovário artificial), e assim transplantá-los na paciente, evitando, assim, o risco da presença de células malígnas. Esse suporte deve ser biocompatível, para que não ocorra uma rejeição por parte da paciente, e biodegradável, pois com o tempo, o tecido da paciente ao redor do ovário artificial deve ser infiltrar no suporte e criar uma estrutura similar ao ovário natural, fazendo com que os folículos se encontrem num ambiente favorável à sua sobrevivência e desenvolvimento.

Qual o estágio atual da patente (registrada desde 2007) e como se encontram as pesquisas?

Com o apoio da Sopartec (empresa de transferência de tecnologia e investimento da UCL), patenteamos a ideia inicialmente nos países europeus e no ano passado, depositamos o pedido de patente também nos Estados Unidos. Depois de vários anos testando diversos materiais diferentes para a criação do ovário artificial, finalmente começamos a obter alguns resultados promissores com o alginato, um carboidrato extraído de algas marinhas. Nossas pesquisas iniciais com camundongos mostram que folículos pré-antrais podem sobreviver e se desenvolver após encapsulamento em alginato e transplante. Esses resultados serão em breve publicados num jornal científico (Human Reproduction). Paralelamente, em um projeto com a participação de uma empresa farmacêutica Baxter, temos testado outros polímeros naturais, também com resultados bastante positivos, mas como o projeto é confidencial, não posso entrar em maiores detalhes.

Existem outras colaborações em andamento?

Nesse semestre também começamos uma colaboração com um grande centro de pesquisa em biomateriais e engenharia de tecidos da Universidade de Nottinghan (Reino Unido) e vamos passar a estudar também polímeros sintéticos para a elaboração do ovário artificial. É importante ressaltar que nós fomos os pioneiros na ideia de desenvolver um ovário artificial transplantável e nosso trabalho tem despertado interesse mundial no assunto. Então, a partir dos nossos estudos, acabamos de criar uma nova área no campo da bioengenharia, que decidimos chamar de Engenharia do Tecido Ovariano.

Quais outros projetos são tocados por você paralelo a essa pesquisa e qual o objetivo dos mesmos?

Trabalho também com alternativas para criopreservar o tecido ovariano, como a vitrificação. O objetivo da vitrificação é evitar a formação de gelo que ocorre com a congelação do tecido e que pode causar danos às células. Realizamos estudos pré-clínicos com babuínos, no Quênia. Em janeiro voltaremos lá para analisar os resultados e dependendo disso, em 2014 começaremos a aplicar esse procedimento no tecido ovariano das pacientes em um estudo clínico piloto. Também estudo o risco de transmissão de células malígnas em outros tipos de câncer, a influência do transplante no tecido ovariano de crianças, técnicas cirúrgicas para melhorar os resultados do transplante e a possibilidade de desenvolver folículos pré-antrais in vitro (no laboratório).

FIQUE POR DENTRO

Colaboração com universidades brasileiras

Ainda pouco conhecida no Brasil, a área de criopreservação e transplante de tecido ovariano possui um número limitado de instituições, pesquisadores e estudantes brasileiros envolvidos. “Sempre que posso, volto ao Brasil para dar palestras e difundir essa área a fim de abrir uma porta para colaborações e estudantes brasileiros. Esse ano fui convidada para um congresso em Porto Alegre e, em dezembro, estarei em um ciclo de palestras na Universidade de Brasília”.

A pesquisadora mantém uma colaboração com a Universidade de Brasília (Profa. Carolina Madeira Lucci), e em 2014 inicia um intercâmbio de estudantes e profissionais, cujo objetivo é beneficiar estudantes brasileiros que têm interesse em aprender novas tecnologias.

Christiani Amorim é graduada em Medicina Veterinária e Mestrado em Reprodução Animal pela Universidade Estadual do Ceará (Uece); doutorado em Reprodução Animal na UFSM (Santa Maria/RS). Trabalhou na Universidade de Florença (Itália) e treinamento na Universidade da Califórnia (UCLA/EUA), professora e pesquisadora associada na Universidade de Brasília (UnB), e hoje na Université Catholique de Louvain, Bélgica.

Giovanna Sampaio
Editora do Vida

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